Volume 03 / n. 04 jan.-jul. 2011: Artigos

Educação e docência: diversidade, gênero e sexualidade

foto de Guacira Lopes Louro

Guacira Lopes Louro

Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Resumo

Minha proposta é compartilhar e discutir com vocês algumas reflexões. Entendo que esse trabalho não é apenas teórico, mas é também político. As questões em torno dos gêneros e das sexualidades não envolvem apenas conhecimento ou informação, mas envolvem valores e um posicionamento político diante da multiplicidade de formas de viver e de ser. Como a escola tem lidado com tudo isso? Como nós, professoras e professores, nos vemos diante dessas questões? Quais são nossos pontos de apoio e onde se encontram nossas fragilidades e receios?


Palavras-chave

Diversidade // Docência // Gênero // Sexualidade

Introdução

O tema “gênero e sexualidade” geralmente nos fascina, nos provoca curiosidade e está por toda parte. Falar sobre prazer, desejo e amor pode ser ótimo e discutir como se experimentam todas essas coisas quando se é uma mulher ou um homem, quer dizer, discutir se há distinções e aproximações nas experiências ou nas vidas dos sujeitos masculinos e femininos também costuma provocar discussões acaloradas e instigantes; mas, quando temos de encarar esses temas em nossa posição de educadoras e educadores, as coisas parecem se complicar.

Há muito tempo venho estudando e trabalhando com essas questões. Por certo, não faço esse trabalho sozinha, mas juntamente com muitos parceiros e parceiras: com meus colegas do GEERGE (Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero), com estudantes do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRGS, com muitos outros colegas e estudantes dos vários grupos e núcleos de estudo que se espalham pelo Brasil e pelo exterior, e com tantas professoras e professores como vocês com quem tenho tido oportunidade de dialogar. Tenho consciência, portanto, de que essas questões são muito importantes para quem trabalha no campo da Educação, muito especialmente para quem lida, cotidianamente, com crianças e adolescentes, para quem se vê desafiado a acolher e dar algum encaminhamento às dúvidas, às perguntas e às situações que essas crianças e jovens constantemente nos colocam.

São muitas as possibilidades de encaminhar uma discussão dessas questões. Apresento a seguir quatro pontos ou aspectos que poderão, mais adiante, ser desenvolvidos ou ampliados.

Em primeiro lugar, parece importante esclarecer como estou compreendendo os dois conceitos centrais desta fala: gênero e sexualidade. Repetidos por todo mundo, nas mais diferentes situações, nas práticas cotidianas, na mídia, na escola, etc., muitas vezes esses termos aparecem juntos, numa indicação de que são dimensões da vida extremamente articuladas. Concordo com isso, mas acho que se pode dizer que entre gênero e sexualidade, mais do que articulações há, muitas vezes, embaralhamentos, misturas, confusões. Não me refiro apenas a indistinções conceituais, como aquelas que alimentam os debates acadêmicos, mas me refiro, talvez de modo mais candente, às indistinções do senso comum – como a noção de que é um “sujeito gay não passa, ao fim e ao cabo, de uma mulherzinha” ou a noção de que é “impossível ser feminina e lésbica” –, noções que acabam por se naturalizar de tal modo que se tornam quase imperceptíveis. Essas noções estão muito arraigadas em nossa cultura e lidamos com elas constantemente em nossas escolas, na nossa família ou, até mesmo, dentro de nós. As consequências políticas de noções desse tipo são demasiadamente importantes para que possam ser desprezadas. Por isso, antes de mais nada, parece-me que vale a pena deixar clara a perspectiva que informa minha fala.

Há muito que estudiosas feministas procuram demonstrar a especificidade e, consequentemente, a distinção entre gênero e sexualidade e, ao mesmo tempo, sua estreita articulação. Entre essas estudiosas, o conceito de gênero surgiu pela necessidade de acentuar o caráter eminentemente social das diferenças percebidas entre os sexos. Apontava para a impossibilidade de se ancorar no sexo (tomado de modo estreito como características físicas ou biológicas dos corpos) as diferenças e desigualdades que as mulheres experimentavam em relação aos homens. O conceito levava a afirmar que tornar-se feminina supõe uma construção, uma fabricação ou um aprendizado que acontece no âmbito da cultura, com especificidades de cada cultura. Portanto, as marcas da feminilidade são sempre diferentes de uma cultura para outra; essas marcas se transformam, são provisórias. Inscrevê-las num corpo supõe, também, lidar com as marcas distintivas do seu outro, a masculinidade. Percebe-se, então, que ao falar de gênero estamos nos referindo a feminilidades e a masculinidades (sempre no plural). A potencialidade do conceito talvez resida exatamente nesta noção, a de que se trata de uma construção cultural contínua, sempre inconclusa e relacional.

Apesar de algumas resistências, essas ideias já vêm sendo admitidas por muitos. Mas as coisas costumam se complicar um pouco mais quando se trata da sexualidade. Inúmeras pesquisadoras e pesquisadores comentam o quanto parece ser difícil admitir que a sexualidade também é construída culturalmente.

A dificuldade parece residir no fato de que, usualmente, se associa (às vezes até se reduz) a sexualidade à natureza ou à biologia. E, quando se assume este modo de pensar, frequentemente, se supõe que a natureza e a biologia constituem uma espécie de domínio à parte, alguma coisa que ficaria fora da cultura. Contrariando essa posição, é interessante lembrar Jeffrey Weeks (1999), um destacado estudioso, que afirma que “as possibilidades eróticas do animal humano, sua capacidade de ternura, intimidade e prazer nunca podem ser expressadas ‘espontaneamente’, sem transformações muito complexas”. E as transformações a que Weeks se refere podem ser entendidas como a linguagem, os jeitos, os códigos, enfim, todos os recursos que usamos para expressar nossos desejos. É inegável que a forma como vivemos nossos prazeres e desejos, os arranjos, jogos e parcerias que inventamos para pôr em prática esses desejos envolvem corpos, linguagens, gestos, rituais que, efetivamente, são produzidos, marcados e feitos na cultura.

  • Correspondência

    Guacira Lopes Louro


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