Volume 03 / n. 04 jan.-jul. 2011: Artigos

Diversidade e formação docente: um desafio para o avanço da Educação

foto de Antônia Vitória Soares Aranha

Antônia Vitória Soares Aranha

Professora associada da Faculdade de Educação e Pró-Reitora de Graduação da UFMG.

Resumo

Este artigo tem como objetivo delimitar uma compreensão do que seja a diversidade, bem como contextualizá-la no quadro brasileiro. Pretende, também, interrogar a formação docente na atualidade e apontar indicadores que relacionam um avanço da formação docente e o respeito e preservação da diversidade.


Palavras-chave

Formação Docente // Preservação da Diversidade // Respeito

1.BREVE ENTENDIMENTO DO QUE VEM A SER A DIVERSIDADE

Antes de mais nada, é importante delimitarmos o nosso entendimento sobre o termo central do texto, ou seja, conceituarmos a diversidade.

  • Falar sobre diversidade é tentar entender a variedade e convivência de idéias, características ou elementos diferentes entre si, em determinado assunto, situação ou ambiente. A idéia de diversidade está ligada aos conceitos de pluralidade multiplicidade, diferentes ângulos de visão ou de abordagem, heterogeneidade e variedade. (GURGEL, 2011, p. 1).

A diversidade, portanto, indica os diferentes valores, costumes, vivências existentes entre distintos grupos de uma sociedade. Segundo o mesmo texto de Gurgel, do ponto de vista da Antropologia, entender a diversidade contemplaria entender diferentes hábitos, costumes, comportamentos, crenças e valores, “e a aceitação da diferença no outro chamada de alteridade” (GURGEL, 2011, p. 4). Mas, complementa, “é no campo da Cultura que a diversidade, por meio do Multiculturalismo, apresenta-se como o grande desafio dos vários ramos do conhecimento” (GURGEL, 2011, p. 5).

Trata-se, assim, de compreender culturas diferentes, de diferentes agrupamentos sociais. Diversidade relaciona-se com a diferença, mas nada tem a ver com classificações quanto à inferioridade ou superioridade de um grupo sobre o outro. Em outras palavras, respeitar a diversidade não significa ser tolerante com valores, costumes, hábitos que julgamos inferiores aos nossos.

Portanto, a diversidade inclui o respeito ao diferente, reconhecendo-o, na sua diferença, com os mesmos direitos que nós outros. No entanto, vale o alerta de Candau (2008) ao dizer que “as relações culturais não são relações idílicas, não são relações românticas, elas estão construídas na história e, portanto, estão atravessadas por questões de poder, por relações fortemente hierarquizadas, marcadas pelo preconceito e discriminação de determinados grupos” (p. 23).

Segundo o embaixador do Brasil na UNESCO, Antônio Dayrell de Lima, no sítio dessa instituição, ao expressar-se sobre o que é a diversidade e sua necessidade, afirma:

  • Mas “diversificar é preciso”: a diversidade cultural é, em certo sentido, o próprio reflexo da necessidade abrangente da múltipla diversidade de vidas na Natureza, a fim de que essa possa como um todo renovar-se e sobreviver. A cultura é a “natureza” do homem. A diversidade cultural pode ser vista, por conseguinte, como a nossa “biodiversidade” — aquela que deveríamos preservar, se não quisermos estiolar em um mundo globalizado que seria desprovido dos conteúdos, valores, símbolos e identidades que nos dizem intimamente respeito (Ministério da Cultura, 2003).

O respeito à diversidade relaciona-se intimamente com o direito a inclusão social. Sem pretender aprofundar nas múltiplas compreensões do que seja inclusão, importa registrar que o respeito ao diferente não é totalmente coerente se não vier acompanhado da compreensão desse diferente aos mesmos direitos, entre eles, a educação, em todos os seus níveis.

Posta essa compreensão de diversidade, podemos afirmar que ela atinge inúmeras dimensões – como raça, gênero, orientação sexual, dimensão geracional e regional; e inclui diversos grupos – de indivíduos com diferenças socioeconômicas, de portadores de deficiências físicas e mentais, entre vários outros.

2. A DIVERSIDADE NO BRASIL

  • Apesar da influência marcante da cultura de matriz européia por força da colonização ibérica em nosso país, a cultura tida como dominante não conseguiu, de todo, apagar as culturas indígena e africana. Muito pelo contrário, o colonizador europeu deixou-se influenciar pela riqueza da pluralidade cultural de índios e negros. No entanto, o modelo de organização implantado pelos portugueses também se fez presente no campo da educação e da cultura. (FERNANDES, 2005, p. 378)

Pelo exposto acima, ainda que tenhamos inúmeras diferenças, distintos grupos sociais, há dois grupos que se destacam enquanto referência de preconceito e discriminação: os negros e os indígenas.
Ainda de acordo com Fernandes (2005):

  • Pesquisas já realizadas pela Fundação Carlos Chagas (1987) têm demonstrado o quanto nossa escola ainda não aprendeu a conviver com a diversidade cultural e a lidar com crianças e adolescentes dos setores subalternos da sociedade. Os dados revelam que a criança negra apresenta índices de evasão e repetência maiores do que os apresentados pelas brancas. A razão disso tudo, segundo a pesquisa, era devido aos seguintes fatores: conteúdo eurocêntrico do currículo escolar e dos livros didáticos e programas educativos, aliados ao comportamento diferenciado do corpo docente das escolas diante de crianças negras e brancas. (p. 381)

Mas, se é gritante o tratamento dado a esses segmentos sociais, não se pode dizer que é menos preocupante o tratamento dado aos oriundos de regiões mais pobres do nosso Estado e do Brasil, aos estudantes que ingressam com faixas etárias maiores em nossas universidades, aos portadores de deficiências. E o que dizer sobre o preconceito contra as mulheres e aqueles e aquelas que têm orientação sexual diversa do padrão dito normal?

Reportagens e pesquisas recentes mostram um fato preocupante: o preconceito tem recrudescido na nossa sociedade. O site da UOL, no dia 14 de abril de 2009, denunciou a existência de inúmeras comunidades de relacionamentos no Orkut altamente preconceituosas e mesmo criminosas: algumas defendem a prática de estupro em lésbicas como medida corretiva, outras defendem a morte a gays, mendigos, negros tal como a comunidade “Gay Bom é Gay Morto” e “Pela Legalização do Racismo”.

Portanto, é altamente preocupante como a sociedade e a escola, em particular, vêm lidando com essa temática, especialmente na formação docente.

Antes, porém, de abordar diretamente a relação entre formação docente e diversidade, interessa apresentar alguns problemas, muitos já bem antigos quanto à formação dos nossos docentes para a Educação Básica.

3. AS DIFICULDADES DA NOSSA FORMAÇÃO DOCENTE

A formação docente sempre tem se constituído um desafio constante para o avanço profissional e para o aprimoramento educacional. Segundo o próprio Conselho Nacional de Educação (CNE), no parecer 09/2001 sobre a reforma das licenciaturas, apesar da democratização do acesso à Educação Básica ter avançado enormemente em nosso País, há problemas sérios a serem superados na aprendizagem dos alunos no sentindo de permitir-lhes um acesso real ao conhecimento sistematizado, ao acervo cultural acumulado pela humanidade, entre outros, ou seja, a construção de uma educação realmente inclusiva.

Entre os problemas apresentados por esse documento e por especialistas na área, podemos identificar:

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    Antônia Vitória Soares Aranha


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