Volume 03 / n. 04 jan.-jul. 2011: Artigos

Situação juvenil e formação de professores: Diálogo possível?

Considerando a média de anos dessa população por sexo e raça/cor, temos que, em 2002, a população branca tinha, em média, 9,5 anos de estudo. Os pardos possuíam, em média, 8 anos, e os pretos, 7,7.

Quando analisamos os dados referentes a 2007, observamos um aumento da média de anos de estudo para toda a população: 10,1 para os brancos, 9 para os pardos e 8,7 para os pretos. Esse aumento da escolaridade média da população, embora ainda pequeno, pode ser entendido como resultado de políticas públicas universais de escolarização. No entanto, o que mais nos chama a atenção é a permanência da diferença de anos de estudo entre a população branca e negra ao longo do período. Os dados, juntamente com pesquisas oficiais, nos permitem pensar que, apesar da importância de políticas universais, estas não têm conseguido diminuir satisfatoriamente as desigualdades educacionais entre negros e brancos no Brasil.

Considerando esse dado para a população entre 15 e 17 anos, observamos que esses jovens apresentam uma média de anos de estudo (7,7 em 2002 e 7,6 em 2007) abaixo do esperado para alunos que, em idade regular, estariam no ensino médio.

Outro ponto interessante diz respeito à apropriação educacional das mulheres negras. Em praticamente todas as faixas etárias, as mulheres negras apresentam uma média de anos de estudo superior aos homens negros. Esse indicador, conforme apontam outras pesquisas, talvez seja o único em que as mulheres negras apresentam índices superiores aos homens negros. Diante disso, podemos supor que esse dado é de fundamental importância para entender as estratégias de escolarização e de ascensão educacional da população negra no Brasil.

No que diz respeito à proporção de jovens por dependência administrativa na RMBH, tanto os dados referentes a 2002 quanto os referentes a 2007 mostram que a maioria dos estudantes, cerca de 65%, frequenta a rede pública de ensino. O restante, aproximadamente 35%, encontra-se na rede privada. Verifica-se que a faixa etária de 15 a 17 anos estuda majoritariamente na rede pública (87%), tanto para 2002 quanto para 2007. Isso sugere que a expansão da escolarização nos últimos anos no país “beneficiou os mais jovens; a quase universalização do acesso ao ensino fundamental, do que puderam aproveitar quase todos os que são hoje adolescentes” (ABRAMO, 2005, p. 50).

É interessante observar que, à medida que a idade avança, existe uma tendência de as porcentagens dos jovens que estudam na rede pública e privada se igualarem. Esse fato pode ser explicado pela expansão da rede privada de ensino superior, atendendo aos jovens das faixas etárias mais elevadas. Nessa perspectiva, temos que, entre os jovens acima de 21 anos que estão estudando, independentemente do sexo, mais de 50% se encontram em instituição privada de ensino, tanto em 2002 quanto em 2007. Para 2007, quando consideramos a variável sexo, as jovens possuem uma tendência maior em estudar na rede de ensino particular (37%) do que os jovens (34%). Essa diferença parece ser potencializada na idade de entre 27 e 29 anos: 65% para as mulheres e 36% para os homens.

Esse fato talvez possa ser explicado pelo aumento da renda familiar entre os jovens com idade acima de 21 anos, e sugere que a possibilidade de estudar varia bastante de acordo com a renda familiar: a) os jovens que trabalham passam a ter possibilidade de frequentar a rede privada, b) o aumento da oferta no ensino superior privado vai absorver boa parte desses jovens, tendo em vista a maior oferta de cursos noturnos, possibilitando a conciliação entre trabalho e estudo; c) políticas de inclusão para o ensino superior.

Os dados revelam que a expansão do ensino fundamental não teve o correspondente aumento de vagas no ensino médio, e que o acesso aos serviços educacionais tem ocorrido de forma profundamente desigual, principalmente nesse nível e na educação superior.

As condições socioeconômicas e outros fatores familiares marcam o processo de escolarização dos jovens, assim como as diferenças entre sexos e de raça/cor. A escola passa a receber “um contingente de alunos cada vez mais heterogêneo, marcados pelo contexto de uma sociedade desigual, com altos índices de pobreza e violência, que delimitam os horizontes possíveis de ação dos jovens na sua relação com a escola” (DAYRELL, 2007).

A construção de uma escola com base nos princípios de justiça e equidade se defronta com grandes dificuldades (DUBET, 2004). A abertura da escola para as classes populares não elimina as desigualdades entre pessoas de uma mesma categoria social, entre os gêneros, entre grupos sociais e entre condições familiares de escolaridade. Assim, as desigualdades sociais pesam muito sobre as desigualdades escolares.

Estudos mostram que os entraves durante o processo de escolarização são mais rígidos para os mais pobres, a estabilidade dos professores é menor nos bairros mais difíceis e a expectativa dos professores é menos favorável às famílias desfavorecidas, que também são mais ausentes na escola e menos informadas sobre as possibilidades de prosseguimento na carreira escolar de seus filhos (DUBET, 2004).

A diversidade e a desigualdade são fortes marcas da condição juvenil, denotando diferentes experiências juvenis, segundo o seu pertencimento social e sua identidade de classe, gênero ou raça, e definindo fortemente sua relação com a escola. A mudança nessa situação coloca um grande desafio para os educadores, pesquisadores e formuladores de políticas públicas, que é a incorporação dos jovens como sujeitos de direitos, reconhecendo as características singulares e os dilemas vivenciados pela condição juvenil, tendo em vista a necessidade de lhes proporcionar uma educação de qualidade e significativa.

  • Correspondência

    Juarez Tarcisio Dayrell


    Simone Grace de Paula


  • Download do artigo

    Situação juvenil e formação de professores: Diálogo possível? Download

  • Cadastre-se

    Caso queira obter informações sobre a Revista “Formação Docente”, cadatre-se e receba atualizações periódicas sobre a produção acadêmica na área da formação de professores. Cadastre-se