Volume 02 / n. 03 ago.-dez. 2010: Artigos

Em foco: A gestão das relações em sala de aula

foto de Maricéa do Sacramento Santos

Maricéa do Sacramento Santos

Mestre em Educação pela UFSJ e professora da Educação Básica da Rede Pública Estadual (SEE/MG).

Carlos Henrique de Souza Gerken

Prof. Dr. da Universidade Federal de São João del Rei-MG.

Resumo

O presente artigo tem por objetivo analisar as relações interpessoais estabelecidas entre os atores sociais (professora, alunos e suas famílias) que protagonizam uma prática pedagógica bem-sucedida no contexto de uma escola pública, focalizando a gestão das relações em sala de aula e destacando a afetividade como uma das condições determinantes para a superação de dificuldades de aprendizagens, elevação da autoestima e alcance do sucesso escolar por sujeitos socialmente vulneráveis e fadados ao fracasso em razão de seus históricos escolares anteriores. Baseia-se nos dados do trabalho de pesquisa intitulado Reflexões e prática de uma professora bem-sucedida, apresentado em forma de dissertação de mestrado ao Programa de Pós-Graduação da UFSJ (2010), cujo propósito foi compreender o saber fazer da docente, focalizando os seguintes aspectos: a dimensão institucional, a gestão das relações em sala de aula, o planejamento do trabalho diversificado e a opção pela avaliação diagnóstica da aprendizagem.


Palavras-chave

Afetividade // Dificuldade de Aprendizagem // Prática Pedagógica // Sucesso Escolar

Introdução

O contexto desta investigação é uma escola pública da Rede Estadual de Ensino do Estado de Minas Gerais, a Escola Estadual Dr. Garcia de Lima, em São João del Rei, onde identificamos como sujeitos da pesquisa: a professora Rosária, efetiva, devidamente habilitada para o trabalho docente, com 20 anos de experiência profissional e cuja prática pedagógica é considerada bem-sucedida por toda a comunidade escolar (direção, supervisão pedagógica, colegas professoras, funcionários, pais e alunos) e seu grupo de 23 alunos, agrupados em razão de suas necessidades específicas de aprendizagem, com os quais trabalhou por dois anos consecutivos (2007-2008), visando garantir-lhes os conhecimentos básicos necessários para a consolidação do processo de alfabetização e letramento, condição fundamental para o progressivo avanço na trajetória escolar.

Optamos por uma proposta de pesquisa crítico-colaborativa, que se fundamenta num esforço de reflexão conjunta, em que pesquisadora e sujeito (professora investigada e também pesquisadora de sua própria prática), de acordo com Pimenta (2005), analisam criticamente as ações pedagógicas realizadas em sala de aula, visando a problematizá-las para entender melhor as razões de agir da docente, colaborando, assim, para a compreensão das condições de emergência e para a consolidação de uma prática pedagógica ainda mais eficiente, realmente comprometida com o sucesso escolar de todos os educandos. Por meio de observações em sala de aula, dos registros em diários de campo, de memórias das conversas informais com a professora sobre os episódios observados, de entrevistas com a docente gravadas e transcritas, da autobiografia da professora, da análise documental dos registros de planejamento da prática docente e de depoimentos dos atores sociais envolvidos no processo ensino-aprendizagem, os dados da pesquisa foram produzidos e analisados, seguindo orientações de Bardin (1994), que propõe a análise de conteúdo.

Este estudo se apoia em alguns conceitos fundamentais como o de “prática pedagógica”, discutido especialmente sob a perspectiva teórica de Freire (2002); o conceito de “professor reflexivo”, a partir dos estudos de Schön (1995, 2000), Zeichner (1993, 2008) e Pimenta (1996, 2005, 2008), com enfoque maior na docência, no ensino e na prática pedagógica dos professores no cotidiano da sala de aula; e os conceitos de “saberes e formação docente”, tendo como referência os estudos de Tardif (2000, 2002). Faz também uma breve revisão de literatura, consultando algumas pesquisas significativas já realizadas sobre práticas pedagógicas bem-sucedidas como as coordenadas por Kramer e André (1984), Cunha (1997), Ambrosetti (1999), Abramovay (2003), Crahay (2007), Gatti (2008) e Ladson-Billings (2008), buscando dialogar com esse campo de conhecimentos com o objetivo de compreender melhor o saber ser e o saber fazer da professora investigada com seus alunos para favorecer-lhes a aprendizagem.

Segundo Freire (2002), que defende um modelo de educação progressista e libertadora, é fundamental para o sucesso do processo ensino-aprendizagem que o professor conheça a realidade de seus alunos, saiba ouvi-los com atenção, respeite seus limites e saberes, estimule suas capacidades de raciocínios e suas habilidades, promova sempre o diálogo, reflita sempre sobre o seu saber fazer pedagógico, tenha paciência, tolerância, criatividade, criticidade, compromisso, alegria, disponibilidade, planejamento, aceitação do novo, rejeite qualquer forma de discriminação e tenha, sobretudo, afetividade, para lidar com mais destreza diante dos desafios que o complexo espaço da sala de aula apresenta.

Corroborando esse princípio, é válido destacar o pensamento de Ladson-Billings (2008) que, com foco nas práticas pedagógicas observadas em sua pesquisa, conduz à constatação de que “crianças diferentes têm necessidades diferentes, e voltar-se para essas necessidades diferentes é o melhor caminho para lidar com elas de maneira justa, especialmente na sala de aula” (p. 52). Nessa perspectiva, o estudo identifica os professores com práticas culturalmente relevantes e, consequentemente, bem-sucedidos como aqueles que têm elevada autoestima e grande respeito pelos outros; que veem o magistério como uma arte; que acreditam que todos os alunos podem ser bem-sucedidos; que respeitam a identidade cultural, étnica e racial dos alunos; que estabelecem relações flexíveis e de afetividade com seus alunos; que incentivam a participação dos alunos em atividades coletivas e os estudos cooperativos; que trabalham criticamente com os conteúdos curriculares; que ajudam os alunos a desenvolver as habilidades necessárias; e que consideram a diversidade dos alunos e as diferenças individuais.

À luz desse arcabouço teórico, este texto buscará evidenciar a gestão das relações estabelecidas pela professora Rosária e seus alunos em sala de aula e com suas famílias, como uma das dimensões fundamentais para o sucesso da prática pedagógica em questão.

  • Correspondência

    Maricéa do Sacramento Santos


    Carlos Henrique de Souza Gerken


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