Volume 02 / n. 03 ago.-dez. 2010: Artigos

Contribuições ao debate sobre a pesquisa do professor da educação básica

foto de Menga Lüdke

Menga Lüdke

Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade Católica de Petrópolis (UCP)

foto de Giseli Barreto da Cruz

Giseli Barreto da Cruz

Graduada em Pedagogia pela Universidade Santa Úrsula (USU) com especialização em Supervisão, Orientação e Administração Escolar pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre e doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Realizou estágio pós doutoral (CNPq – PDJ) na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (2011) sob a supervisão da professora Marli André. Atualmente é professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ, membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da mesma universidade e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Didática e Formação de Professores (GEPED). É Membro do GT 08 da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped). Atuou na educação básica exercendo as funções de docente e de pedagoga em redes públicas de ensino. Reúne significativa experiência na área de Educação como professora e pedagoga, atuando com organização do trabalho pedagógico, currículo, avaliação, pesquisa, formação e prática docente. Tem se dedicado a pesquisas sobre pedagogia, didática e formação de professores.

Resumo

Neste texto discutimos sobre a pesquisa do professor da educação básica, tal como avaliada por experientes pesquisadores da universidade. É a terceira etapa de um programa de investigação sobre as relações entre o professor e a pesquisa. Pedimos a 12 membros de comitês avaliadores (CNPq, CAPES, FAPERJ, FAPESP, etc.) que examinassem uma seleção de trabalhos feitos por professores e nos dissessem as razões pelas quais os consideram ou não como pesquisas. A partir da análise dos julgamentos emitidos pelos avaliadores, nosso estudo chegou a constatações teóricas e práticas interessantes para o debate sobre limites e possibilidades de pesquisas feitas por professores, de modo especial no que se refere ao rigor esperado de toda pesquisa.


1- Introdução

A pesquisa realizada pelo professor da educação básica é algo que suscita caloroso debate no meio universitário, mais até do que no contexto de atuação desse professor. Dados de pesquisa (LÜDKE; CRUZ, 2005) revelam que, na visão de professores e na de seus formadores, essa atividade vem sendo considerada importante, por todos eles, mas nem sempre assumida como imprescindível para o trabalho desse professor, sobretudo em função das condições para a sua realização e divulgação.

O artigo de Zeichner e Noffke (2001), sobre a pesquisa do practitioner (Practitioner Research), publicado no importante Handbook of research on teaching, da AERA (American Educational Research Association), em sua 4ª edição, continua a representar um dos pilares quando a discussão é a pesquisa do professor. Em texto alentado e muito bem cuidado, os autores reúnem um conjunto de ideias básicas sobre o tema, ressaltando sua centralidade hoje, especialmente a partir dos conceitos de reflexividade no trabalho do professor, de propriedade específica de um saber elaborado pelo próprio professor e da importância da construção do conhecimento por esse profissional, pela proximidade com a realidade da sala de aula e em função de seu próprio desenvolvimento profissional.

Ao lado desses aspectos positivos, favoráveis ao trabalho de pesquisa por parte do professor, os autores também assinalam fatores que dificultam o desenvolvimento dessa prática ainda hoje, apesar do reconhecimento de sua importância. Entre esses fatores são destacados a falta de preparação adequada dos professores para o bom desempenho em pesquisa, o que concorre para que seus resultados sejam considerados menos rigorosos do que os obtidos pela pesquisa acadêmica, e também o valor questionável desse tipo de pesquisa, feita pelo professor, pela dificuldade de generalização a partir da análise de situações restritas e a falta de tempo disponível para que o professor se dedique a essa prática.

A despeito desses fatores negativos, os autores insistem na importância e na irreversibilidade desse novo tipo de pesquisa, a praticada pelo professor, trazendo em seu apoio a contribuição de vários autores muito conhecidos pelas suas posições assumidamente a seu favor, como Lather (1993; 1986), Roman (1989) e Stevenson (1996), dentre outros.

Nessa direção, uma questão em especial mobilizou o estudo que desenvolvemos: o que é levado em conta por pessoas encarregadas de atribuir ou não recursos a uma pesquisa apresentada por um professor da educação básica, de aprová-la para apresentação em um encontro científico ou de aceitá-la para publicação em um periódico? Trata-se da terceira etapa de um estudo investigativo sobre a relação entre a pesquisa e o professor da educação básica, focado essencialmente sobre o que conta como pesquisa. Trabalhos como os de Zeichner e Noffke (2001), Cochran-Smith e Lytle (1999), Anderson e Herr (1999), Lagemann e Shulman (1999) nos Estados Unidos e os de André (2001), Diniz-Pereira e Zeichner (2002), Fiorentini (2004), entre outros, no Brasil, subsidiaram as discussões teóricas e as interpretações dos dados construídos no estudo.

Os seguintes objetivos conduziram a pesquisa: levantar, junto a membros de comitês julgadores, quais os aspectos que consideram ao aprovarem trabalhos de pesquisa de professores para receberem financiamento, ou para serem aceitos para publicação em periódicos e apresentação em encontros científicos; e procurar, a partir dos aspectos indicados pelos avaliadores investigados, contribuir para a discussão de critérios amplos que possam abranger os vários tipos de pesquisas realizadas na área de educação em todos os níveis de ensino.

Já tivemos a oportunidade de publicar resultados desta pesquisa (LÜDKE, 2009; LÜDKE; CRUZ; BOING, 2009; LÜDKE, 2008). Entretanto, dada a complexidade que cerca a temática, entendemos que a análise empreendida neste trabalho para a Formação Docente – Revista Brasileira de Pesquisa sobre Formação de Professores pode ser bastante contributiva ao debate sobre o professor e a pesquisa. Dessa forma, neste artigo priorizamos explorar alguns dados relativos aos trabalhos de professores que submetemos aos avaliadores e aos pareceres por estes emitidos, com o propósito de destacar o que se leva em conta na hora de se decidir sobre o que é pesquisa.

  • Correspondência

    Menga Lüdke

    Avenida Atlântida, 3514 Apt. 101
    22.070-001 Rio de Janeiro
    RJ Brasil


    Giseli Barreto da Cruz


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