Volume 02 / n. 02 jan.-jul. 2010: Artigos

Formação docente: aprendizagens e significações imaginárias no espaço grupal

foto de Valeska Maria Fortes de Oliveira

Valeska Maria Fortes de Oliveira

Possui graduação em Pedagogia (1986) e mestrado (1990) pela Universidade Federal de Santa Maria e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1995). Realizou o Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Buenos Aires, Argentina (2007). Coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Imaginário Social (GEPEIS), criado em 1993 e consolidado no CNPq. Foi bolsista de Produtividade em Pesquisa no CNPq até 2012. Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSM de 1998 até 2001. Professora Titular do Departamento de Fundamentos da Educação do Centro de Educação da UFSM, desde 1997. Pesquisa e desenvolve estudos e investigações no campo do imaginário social com o foco nas narrativas de vida de professores, cinema e formação de professores. Coordenadora do GT 08 – Formação de Professores da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educaçao – ANPED.

Resumo

O Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Imaginário Social (GEPEIS) começou a questionar-se sobre a importância do grupo de pesquisa para a formação docente. Almejamos nesta pesquisa conhecer as possibilidades de pensar o grupo como um dispositivo de formação; identificar os saberes e as representações construídas pelas pessoas que compartilham a experiência da produção coletiva em um grupo de estudos e pesquisas e contribuir para a sustentação de alternativas teóricas no campo da formação de professores. A metodologia desta pesquisa iniciou com estudos acerca dos temas a serem utilizados: imaginário social, psicologia grupal, saberes docentes, memória e história de vida, entre outros. Buscamos, através das trajetórias de formação dos sujeitos, conhecer as aprendizagens, as significações imaginárias e a possibilidade de ver o grupo como um dispositivo de formação; para tal, utilizamos dissertações de mestrado, imagens, entrevistas orais e narrativas escritas. Na análise dos dados, trabalhamos com a abordagem hermenêutica, buscando descobrir o que está subjacente aos conteúdos manifestos. Em nossos resultados, uma característica forte mencionada pelos sujeitos foi a diversidade como fator positivo no grupo, o intercâmbio de ideias, pensamentos, aprendizagens e vivências que esse espaço coletivo pode proporcionar. Também foi possível perceber como essa trama de significados e opiniões se constitui em um olhar grupal, em uma visão homogênea, oriunda da heterogeneidade do grupo. Do convívio e da interação entre os participantes do grupo, surgem questões que vão além da ordem teórica no GEPEIS são construídos laços afetivos entre os membros, pois participar de um grupo torna-se uma possibilidade de derrubar o individualismo instituído na academia. Assim, percebemos a importância do grupo como um dispositivo na formação de professores, como um território que possibilita a experiência mobilizadora de saberes, representações instituídas e outras formas de pensar a formação docente.


Palavras-chave

Aprendizagem // Dispositivo Grupal // Significações Imaginárias

Primeiras palavras

Ao decidirmos o caminho do pensamento para esta escrita, a partir do convite para a sessão “Temas emergentes na formação de professores”, tomamos como referência a investigação que atualmente coordenamos sobre o grupo como dispositivo de formação. Mas se tratando de uma pesquisa que se aproxima das significações imaginarias e das aprendizagens produzidas nos participantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Imaginário Social (GEPEIS), tomamos de empréstimo uma reflexão sobre a formação de um outro lugar. A expressão “formação” encontra-se numa relação intensa com o tempo. Um tempo que é revisitado e pode provocar alterações nos trajetos de vida pessoais e coletivos. Aprendizagens de toda ordem são trazidas pelos participantes do grupo e são reconstruídas a partir do trabalho da memória, que busca as experiências vividas por cada pessoa num outro tempo, mas com um corpo biográfico no presente.

Visualizando o espaço grupal na formação docente

Um grupo é “todo aquele conjunto de pessoas capazes de se reconhecer em sua singularidade e que estão exercendo uma ação interativa com objetivos compartilhados” (OSORIO, 2003, p. 57). No momento em que várias pessoas se reúnem, dispostas a interagirem na busca de objetivos comuns, são constituídos os “sistemas humanos” (p. 57); um exemplo disso é o grupo que por ora nos propomos a estudar. Indo ao encontro de Osorio, Souto et al. (1999, p. 35) trazem que:

  • El grupo marca relaciones de igualdad en la distribución y en la distancia entre los miembros. Señala también las relaciones mutuas, las interacciones, la mirada entre las personas que lo constituyen. Muestra también El anudamiento (nudo que enlaza, que liga y también que obtura).

O Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Imaginário Social (GEPEIS) vem ao longo dos últimos 16 anos trabalhando com pesquisa, ensino e extensão na área de Formação de Professores, alicerçado no campo teórico do Imaginário Social de Cornelius Castoriadis. Participam desse grupo alunos colaboradores e bolsistas de iniciação científica da graduação, mestrandos, doutorandos e professores das escolas das redes municipal e estadual e de distintas instituições de ensino superior, assim como colegas do Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria, onde o grupo está alocado.

Percebendo a continuidade da formação profissional das pessoas que passaram pelo grupo, a pesquisa que tomamos por referência tem por objetivo conhecer as possibilidades de pensar o grupo como um dispositivo de formação, identificar os saberes e as representações construídas pelas pessoas que compartilharam a experiência da produção coletiva em um grupo de estudos e pesquisas e contribuir para a sustentação de alternativas teóricas no campo da formação de professores.

Antes de serem apresentados os caminhos percorridos pela pesquisa – a metodologia –, faz-se necessário esclarecer três termos centrais neste trabalho, são eles: grupo, dispositivo e formação.

Entendemos que grupos se constituem por pessoas que compartilham um objetivo comum e por isso estão ligadas entre si. Além desse objetivo coletivo, cada indivíduo possui suas significações particulares, fato que alimenta a dinâmica grupal. Fundamentando essa definição de grupo, trazemos Pichon-Rivière (apud GAYOTTO, 2001, p. 29), que caracteriza um grupo como:

  • Um conjunto de pessoas que, ligadas por constantes de tempo e espaço e articuladas por sua mutua representação interna, se propõe de forma explícita e implícita a uma tarefa, que constitui sua finalidade, interatuando através de complexos mecanismos de assunção e atribuição de papéis.

O dispositivo grupal pode ser entendido como uma ferramenta, algo que se cria com uma necessidade de experimentação dos indivíduos a partir das significações que estão no âmbito do consciente e também do inconsciente dos participantes do grupo. Segundo Souto (2007, s.p.), dispositivo é “un espacio estratégico y táctico que es revelador de significados, analizador de situaciones, provocador de aprendizajes y nuevas formas de relación y organizador de transformaciones”. Dessa forma, procuramos analisar a possibilidade de um grupo ser um dispositivo de formação de professores, através da investigação dos saberes e das significações (re)construídos no espaço grupal.

O dispositivo passa a ser entendido como qualquer lugar/espaço no qual se constitui ou se transforma a experiência de si, um movimento em que o sujeito está implicado. Implica consigo, implicando-se a partir dos outros e implicando com os outros. O diferencial que encontramos no acréscimo da questão do dispositivo está na inscrição da pessoa no lugar formativo como alguém que se coloca, se experimenta, não participa passivamente, ouvindo teorizações sobre experiências produzidas por outros, mas (re)visita seus repertórios formativos, problematizando-os também na escuta do outro.

Acrescentamos também a questão do diferencial apresentado no dispositivo quando se inscreve no espaço/lugar do grupo a pesquisa-formação-autoformação, produzindo nas pessoas processos que movimentam com “potencialidades inesperadas” (JOSSO, 2008, p. 18):

  • A reflexão biográfica permite, portanto, explorar em cada um de nós as emergências que nos dão acesso ao processo de descoberta e de busca ativa da realização do ser humano em potencialidades inesperadas. Para isso, devemos ser capazes de imaginar e de acreditar na possibilidade de poder, de querer e ter, para desenvolver ou para adquirir, os saber-fazer, saber-pensar, saber-escutar, saber-nomear, saber-imaginar, saber-avaliar, saber-perseverar, saber-amar, saber-projetar, saber-desejar etc., que são necessários às mudanças, ao desconhecido que vem ao nosso encontro assim que abandonamos o programa familiar, social e cultural previsto para a nossa história.*

É o projeto/processo de formação, operando no seu mais amplo sentido, onde o sujeito precisa colocar-se como mais ou menos ativo de sua vida, na sua vida, mesmo que saibamos que as mudanças estão longe de passar, unicamente, pelas escolhas voluntárias e/ou lógicas (JOSSO, 2008).

De que formação estamos falando?

Tomamos de empréstimo de Chauí (2003, p. 12) a reflexão que a filosofa traz sobre a formação no espaço da universidade, considerando o conceito a partir da sua relação com o tempo:

  • O que significa exatamente formação? Antes de mais nada, como a própria palavra indica, uma relação com o tempo: e introduzir alguém ao passado de uma cultura (no sentido antropológico do termo, isto é, com ordem simbólica ou de relação com o ausente), é despertar alguém para as questões que esse passado engendra para o presente e é estimular a passagem do instituído ao instituinte.

Continua a autora trazendo a figura da obra de arte, propondo pensar o movimento entre o passado, o presente e a perspectiva de ir além, do novo. Do instituído ao instituinte, do presente ao passado e a possibilidade de criar outras possibilidades.

  • O que Merleau-Ponty diz sobre a obra de arte nos ajuda aqui: a obra de arte recolhe o passado imemorial contido na percepção, interroga a percepção presente e busca, com o símbolo, ultrapassar a situação dada, oferecendo-lhe um sentido novo que não poderá vir à existência sem a obra. Da mesma maneira, a obra de pensamento só é fecunda quando pensa e diz o que sem ela não poderia ser pensado nem dito, e sobretudo quando, por seu próprio excesso nos dá a pensar e a dizer, criando em seu próprio interior a posteridade que ira superá-la (CHAUÍ, 2003, p. 12).*
  • Correspondência

    Valeska Maria Fortes de Oliveira

    Rua Guilherme Cassel Sobrinho, 54, apt. 02
    97.050-270, Santa Maria, RS, Brasil


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