Volume 09 / n. 17 ago. - dez. 2017: Artigos

Em busca de recomposições da Prática Pedagógica: as narrativas (auto)biográficas de professores(as)

foto de Natascha Sokolovicz

Natascha Sokolovicz

Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná (2004). Mestre em Educação, na linha de pesquisa Cultura, Escola e Ensino pela Universidade Federal do Paraná (2015). Atua como professora pedagoga em escolas públicas do Estado do Paraná desde 2005.

Regina Cely de Campos Hagemeyer

Doutora em educação pela universidade de São Paulo (USP), em 2006. Professora de nível Associado nível I, da Pós graduação em educação, Mestrado profissional e Graduação em Pedagogia da UFPR. Integra a Linha de pesquisa Cultura, escola e ensino (mestrado e doutorado), com ênfase no tema Formação de professores e desenvolvimento profissional docente. No Mestrado profissional, ministra a docência na disciplina Docência e Pesquisa. É líder do Grupo de pesquisa sobre Formação docente, currículo e prática pedagógicas: paradigmas contemporâneos (GPFOR).

Resumo

Este artigo focaliza as percepções dos professores sobre as mudanças contextuais que influenciam os processos pedagógicos na escola contemporânea, das quais decorrem novas necessidades de ensino e formação humana. O estudo foi desenvolvido com base nas teorizações de Costa (2010), Gauthier e Tardif (2010); Hagemeyer (2006; 2014), Nóvoa (2007) e Lévy (1999) e através da metodologia de pesquisa (auto)biográfica, baseada na proposta de formação de Delory-Momberger (2006). A investigação envolveu professores do Ensino Fundamental II, do município de São José dos Pinhais (PR), através de um curso de extensão realizado no Setor de Educação da UFPR. As análises desencadeadas propiciaram a leitura das experiência pessoais e profissionais dos professores, demonstrando tensões, dificuldades e iniciativas, ao acompanhar as mudanças contemporâneas. Evidenciando formas de relacionar-se com o outro, com o mundo e com o conhecimento, recompondo seus saberes e práticas ao constituir-se professores.


Introdução

A partir da segunda metade do século XX, as instituições educacionais contemporâneas passaram a enfrentar os desafios das rápidas transformações em todas as áreas da vida humana, cujas decorrências nos processos sociais e culturais, interferem nos processos de ensino e formação escolar, desenvolvidos por professores.

No âmago destas mudanças, a evolução da ciência e das tecnologias, tem impulsionado um desenvolvimento sem precedentes na área da comunicação, da informação e do entretenimento, impondo aos professores a ampliação de visões sobre os novos conhecimentos e saberes necessários à própria formação profissional e acerca do tratamento de valores humanos na escola atual.

Objetivando compreender os processos gerados na educação escolar, a partir das transformações contemporaneas, propõe-se detectar as influências científicas, sociais e culturais que interferem na atuação dos professores que atuam no seu âmbito. Esta intenção levou a adotar para a caracterização deste cenário contextual, autores como Borges (2001), Costa (2010), Gauthier e Tardif (2010), Giroux (2003); Hagemeyer (2006; 2014), Nóvoa (2007), Lévy (1999) e Santaella (2003).

Segundo Costa (2010), para além do aperfeiçoamento das máquinas, da técnica e das tecnologias, parece haver uma reestruturação nas formas de interação social, que apontou como uma nova configuração dos processos culturais humanos. Esta nova configuração no entanto, segundo Gauthier e Tardif (2010, p.338), não modificou as formas de exercer a atividade docente de forma substancial, e afirmam os autores que, “para muitos, a escola evoluiu pouco desde o tempo em que era reservada à elite. Suas estruturas rígidas, muitas vezes refratárias à mudança, fazem dela uma instituição do passado”. Nesse tempo-espaço de contradições entre a reprodução social e a contestação provocadas por novos processos culturais, os professores se deparam com novas necessidades no trabalho pedagógico, buscando recomposições em sua atuação no âmbito da sala de aula.

Para refletir sobre essa re-composição e/ou re-configuração propõe-se, no presente texto, abordar as percepções dos professores sobre as compreensões e atitudes que os levam a inovar, conservar ou retomar concepções e valores humanos ao desenvolver suas práticas pedagógicas, considerando os processos culturais manifestados pelos estudantes do tempo presente.

Para tanto, optou-se pela utilização de narrativas dos professores sobre os procedimentos e atitudes que adotam em suas trajetórias profissionais, diante de um novo contexto, entrelaçados às suas trajetórias de vida como condutores(as) deste debate. Propõe-se analisar desta forma, como os professores interpretam e traduzem a realidade de sua profissão, num movimento de apropriação dos modelos culturais atuais, e no entrecruzamento com o outro (seus pares, seus alunos, a comunidade escolar), nas formas como atua, diante de novas experiências, atitudes, práticas, ao construir sua profissão como professor.

Para o estudo e as análises sobre os processos de biografização e histórias de vida, propostas nesta investigação, recorreu-se a autores como Josso (2010), Pineau (1988 e 1993), Ferrarotti (1983 e 1988), Delory-Momberger (2003 e 2005), Nóvoa e Finger (1988), e autores brasileiros de referência como Abrahão e Passegi (2012), e Souza (2006), que têm desenvolvido ativa e consistentemente pesquisas nessa área.

A experiência que ofereceu suporte às análises propostas, fundamentaram-se, além dos autores já referidos, inspirou-se metodologicamente nos trabalhos de Crystine Delory-Momberger, e que se refere aos Ateliês Biográficos de Projetos (2006), para a proposição de um curso de formação, na modalidade de extensão, desenvolvido no Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná. O curso de título: “Narrativas (auto)biográficas – constituindo-se professor”, foi ministrado a professores atuantes no Ensino Fundamental II, da rede estadual de São José dos Pinhais, no Paraná.

O eixo central desta pesquisa-formação, norteou-se pela questão apresentada aos professores no último encontro do curso ministrado: Que interferências os professores da escola básica, percebem em suas condutas e práticas, em relação à sua geração e à geração atual de estudantes, em seu trabalho como professor? Para a sistematização das análises sobre as respostas obtidas, foram entrecruzadas com as (auto)biografias produzidas nas falas, depoimentos e na escrita dos professores, a partir do processo vivido, aspectos relativos às trajetórias de vida pessoal e profissional que interferiram na constituição da profissão docente. Esta questão permeou as atividades do curso proposto desde o início.

Cecília Borges (2001, p. 71) observou o horizonte das pesquisas que envolvem histórias de vida, numa perspectiva na qual o docente é “compreendido com um sujeito portador “de histórias”, ou seja, um ser que constrói o mundo em relação com outros sujeitos”. Desse modo, as narrativas de vida dos professores são construídas justamente na interação com outras histórias, entremeadas pelos percursos históricos da própria educação escolar e de experiências pessoais e da formação que os levaram a exercer a profissão de professores.

Na atual conjuntura, a escola torna-se o lugar da diferença e do choque de contextos, de linguagens, de gerações e de grupos sociais e, portanto, um lugar de reflexão constante sobre as necessidades de recomposição de práticas, diante dos processos culturais gerados por um novo contexto. A sistematização das análises das narrativas e linguagens emitidas nas atividades propostas no curso proposto, comprovaram que a cada fase da aquisição da docência, a consciência sobre as influências e dificuldades do exercício docente, influenciam de forma significativa o próprio desenvolvimento profissional, reiterando a importância da continuidade da realização das pesquisas (auto) biográficas sobre os professores da escola contemporânea.

As influências dos processos culturais do panorama contemporâneo na constituição profissão docente

Para compreender as novas necessidades da função docente, considerando as mudanças dos processos culturais contemporâneos, e o seu impacto nas concepções sobre a infância, a adolescência e a juventude dos sujeitos da escola, surgem discussões sobre a necessidade de um despertar o interesse e o desejo desses educandos para a aprendizagem. Essa abordagem foi idealizada historicamente por Rousseau no século XVII, e repercutiu no cotidiano escolar até o século XX e pode ser reconhecida ainda hoje, no século XXI. Nesta perspectiva, ao investigar as práticas e atitudes docentes, parte-se do princípio de que o professor além de perceber as mudanças nas necessidades e interesses dos alunos, passa a buscar novas formas de lidar com questões que se diferenciam das suas convicções e maneiras como aprendeu a se relacionar e ensinar crianças e jovens escolares. Ao modificar formas de ensino diante de situações novas, os professores buscam compartilhar, além do conhecimento disciplinar, o seu olhar sobre o mundo.

  • Correspondência

    Natascha Sokolovicz


    Regina Cely de Campos Hagemeyer


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