Volume 09 / n. 17 ago. - dez. 2017: Artigos

Formação docente na educação profissional no contexto da pedagogia das competências

foto de Tatiana Das Mercês

Tatiana Das Mercês

Graduada em Letras-Português pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES – 2014). Especializada em Educação Profissional e Tecnológica pelo Instituto Federal do Espírito Santo (IFES – 2016). Mestre em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da UFES (PPGE 2018). Desenvolve pesquisa sobre a docência no campo da Educação Profissional. Participa do Projeto de Pesquisas, coordenado pelo Prof.º Dr. Marcelo Lima, que objetiva estudar as Políticas de Educação Básica e de Educação Profissional no Espírito Santo.

Marcelo Lima

Doutor em Educação pela UFF, docente da UFES e membro do PPGE-UFES
CEP 29101120, Luis Fernandes Reis, 417, Vila Velha-ES, Brasil

Resumo

Esta pesquisa teve como objetivo analisar as políticas de formação pedagógica dos docentes ingressantes no Senai-ES. Para tanto, nosso objeto de estudo foi os professores atuantes no curso Técnico em Automação Industrial. A pesquisa incluiu duas etapas de investigação: analise documental das fontes relativas à política de formação docente produzidas pelo Senai e pesquisa de campo realizada nos espaços da Findes e do Senai-ES. Para atuar na docência, no Senai-ES, a formação pedagógica não é condição obrigatória, o que exige da instituição a oferta de uma formação docente. Atualmente, o Senai oferta formação pedagógica, cujo objetivo central é adaptação do docente ingressante ao seu modus operandi, que se orienta pela lógica das competências. Acreditamos que isso ocorre, em parte, pelo fato de que as legislações brasileiras não definem de modo explícito os pré-requisitos obrigatórios para atuação no campo educativo, o que “barateia” o custo dessa força de trabalho e, por outro, torna o docente mais maleável às diretivas da pedagogia dominante do espaço educativo.


INTRODUÇÃO

A educação é essencialmente uma ação humana que produz em cada indivíduo singular a humanidade universal que é construída histórica e coletivamente. Isto significa dizer que a educação tem a função mediadora do processo de apropriação do conhecimento/cultura. Nessa perspectiva, a escola é um espaço onde os indivíduos podem se apossar dos saberes produzidos pela humanidade.

No Brasil, o sistema de educação é normatizado pela Lei 9394/96 que fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LBD). De acordo com a LDB, a Educação Escolar compõe-se do ensino de nível superior e da educação básica, esta é formada pelo ensino infantil, ensino fundamental e ensino médio. Além disso, a Educação Escolar engloba diversas modalidades de ensino que permeiam os seus diversos níveis escolares. Uma dessas modalidades é a Educação Profissional (EP) que, nessa pesquisa, constitui o contexto do qual emerge nosso objeto de estudo.

A EP possui uma série de características que lhe dão especificidade no contexto da educação escolar. Trata-se de uma modalidade de ensino que forma pessoas para o mundo do trabalho, isto é, para exercício da cidadania e a qualificação profissional. Logo, a EP é essencial como política pública, pois ela objetiva garantir o direito à educação e, concomitante, ao trabalho.

Nesse sentido, Frigotto (2001), Moura (2007) e Ciavatta (2015) têm sugerido e lutado por uma educação profissional de qualidade que garante a formação integral dos sujeitos, a igualdade de oportunidades e, consequentemente, formar uma sociedade mais justa e cidadã. Para esses educadores, a EP pode proporcionar a formação profissional com qualificação técnica para o trabalho e, junto a isso, propiciar a formação de cidadãos críticos, comprometidos com a equidade social, inconformados com as injustiças e insustentabilidade do mundo capitalista e com disponibilidade para transformar a sociedade. Nessa lógica, Frigotto (2001) destaca que quando se pensa em educar trabalhadores não se fala em formar robôs ou pessoas adestradas para cumprir ordens. Pelo contrário, pensa-se em uma formação humana e integrada, isto é, uma educação completa que possibilita a formação crítica dos sujeitos, além da liberdade, emancipação e atuação consciente no mundo.

A relevância dessa pesquisa, portanto, ancora-se na centralidade do papel do docente no processo de ensino-aprendizagem da educação em geral e da EP. Consideramos que o professor é o elemento-chave, pois ele interfere diretamente na formação de trabalhadores e cidadãos no sentido de prepará-los para a vida em sociedade. Além do mais, sua prática pedagógica não é neutra no processo de formação de sujeitos, pois, conforme Saviani (2003), o professor pode perpetuar ou contribuir para a transformação da sociedade, isso dependerá do seu posicionamento político e ações educativas.

De modo geral, os docentes da EP possuem formação específica em diferentes áreas, muitos deles não são licenciados, mas são professores. O docente da EP tem a função de instrumentalizar seus alunos, proporcionando a qualificação técnica para o trabalho, mas não só isso, eles precisam ensinar o conhecimento produzido histórico e socialmente pela humanidade, contribuindo para a emancipação dos sujeitos. Dai a importância de estudar o trabalho docente na EP e intervir no sentido de contribuir para que a formação de professores possibilite uma reflexão crítica acerca do papel docente na perspectiva da educação integral. Neste contexto, destaca-se o estudo dos docentes da EP cujo trabalho é ainda mais complexo, pois transcende o ensino propedêutico, ligando-se à ciência e a tecnologia, além de se constituir tema pouco explorado pela produção acadêmica.

CAMINHOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA

Esta pesquisa visou analisar as políticas de formação pedagógica dos docentes ingressantes no Senai-ES. Para tanto, nosso objeto de estudo foi os professores atuantes no curso Técnico em Automação Industrial. Esta pesquisa é de base qualitativa e incluiu duas fases de investigação, sendo a primeira análise documental e a segunda uma pesquisa de campo.

Sobre a análise documental, Lüdke e André (1986, p. 38) afirmam que ela se constitui “numa técnica valiosa de abordagem de dados qualitativos seja complementando as informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema”.

Sobre a pesquisa de campo, Minayo (2012) diz que é importante porque possibilita a obtenção de dados diretamente da realidade. Minayo (2012, p.64) define entrevista como “uma conversa a dois, ou entre vários interlocutores, realizada por iniciativa do entrevistador”. Na entrevista existe uma aproximação entre os interlocutores que, segundo a autora, está longe de ser um inconveniente, pois a interação é uma virtude e uma necessidade no trabalho qualitativo.

Com isso, analisamos as fontes relativas à política de formação docente produzidas pelo Departamento Regional (DR) e Departamento Nacional (DN) do Senai. Além disso, revisitamos o plano do curso técnico em automação industrial do Senai-DR/ES, para compreender o trabalho docente exigido no currículo do curso em questão. E, para identificar os pré-requisitos exigidos por está instituição aos seus docentes, analisamos dois anúncios de emprego divulgados nos jornais de grande circulação na região capixaba.

A pesquisa de campo foi efetivada nos espaços da Findes e do Senai-unidade Vitória. Passamos dois meses na Findes a fim de identificar: qual é a metodologia de ensino adotada para a EP; como o Senai se organiza; quais são os pré-requisitos exigidos aos docentes; e qual é o perfil real dos docentes atuantes, sobretudo, dos que atuam no curso técnico em automação industrial.

Além disso, com o objetivo de coletar informações sobre as formações continuadas realizadas pelo Senai, fizemos uma entrevista semiestruturada com um dos gestores de educação da Findes. A entrevista ocorreu em março de 2016 e foi gravada, mediante a autorização, por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
As informações adquiridas no espaço da FINDES também se deram por meio de conversas informais com a equipe pedagógica que coordena e planeja a educação profissional ofertadas nas unidades do Senai- DR/ES .

No ambiente da escola do Senai-Unidade Vitória, foi aplicado um questionário a um gestor e a quatro professores do curso técnico em automação industrial, com objetivo de identificar: o perfil dos professores atuantes; a formação acadêmica inicial deles; a concepção de EP, de formação pedagógica e da metodologia orientada pelo Senai. Este questionário foi aplicado no mês de março de 2016 e foi preenchido, individualmente, por eles. A ideia inicial era aplicar a todos os docentes que atuam no curso técnico em estudado, mas apenas quatro deles tiveram disponibilidade para colaborar com esta pesquisa.

Por fim, como proposta de intervenção, propomos uma formação continuada de professores que não se dispõe meramente a atualização tecnológica, mas que promova a formação pedagógica capaz de poder levar o professor a refletir sobre o seu trabalho e construir práticas de ensino na perspectiva da educação integral.

  • Correspondência

    Tatiana Das Mercês


    Marcelo Lima


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