Volume 09 / n. 17 ago. - dez. 2017: Artigos

Por uma nova epistemologia do ensino de Filosofia no Ensino Médio: Mediações sobre o cotidiano em Wittgenstein e em Deleuze

Fábio Antonio Gabriel

Mestre e doutorando em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, professor da Rede Estadual do Paraná de Filosofia, bolsista da Fundação Araucária convênio CAPES.

Ana Lúcia Pereira Baccon

Doutora em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela Universidade Estadual de Londrina. Professora adjunta do Departamento de Matemática e Estatística e no Programa de Mestrado e Doutorado em Educação na UEPG. Bolsista da CAPES – Brasil.

Mauricio Silva Alves

Mestre em Filosofia pela PUC-PR e Professor Substituto de Filosofia e Ensino na Universidade Estadual de Feira de Santana- UEFS-BA.

Tatiane Skeika

Resumo

O presente trabalho tem como escopo a análise do cenário educacional do Brasil, com ênfase na formação do professor de filosofia do Ensino Médio. O ato de ensinar Filosofia requer um deslocamento epistemológico, a saber: o exercício de reconsideração do cotidiano como categoria filosófica, isto é, a capacidade subjetiva de abertura para novas situações, novos mundos até então banidos do discurso epistemológico inerente à docência, e consequentemente deslocar os docentes do polo de suas certezas epistemológicas – que propõe a receita dogmática de percurso dos caminhos certos para uma aula de filosofia – para o polo do aluno do ensino médio que está indisponível para a filosofia. Nesta perspectiva, o discente do curso de Licenciatura em Filosofia deve ter clareza de que, na sala de aula, em seu lócus de exercício da profissão, tão só o amontoado de teorias e proposições didáticas não será suficiente para a contribuição de um aprendizado eficaz do seu futuro alunado. E também, o conhecimento pedagógico não deve separar-se do conhecimento filosófico, mas complementar um ao outro no cotidiano do professor de filosofia. O campo problemático, aberto pelo cotidiano como categoria filosófica em Wittgenstein e Deleuze, exige uma investigação que nos leva ao sentido por ele produzido. Apresenta-se, desse modo, um paradoxo: o sujeito faz uso de suas experiências passadas tanto para produzir quanto para organizar os acontecimentos mediante uma relação de causa e efeito que não logra conter todo o universo do cotidiano, condição necessária para uma experiência temporal adequada, isto é, uma experiência que traga para quem a exercita, uma simultaneidade de tempos para a produção de sentidos. O sentido é, dessa forma, o próprio acontecimento expresso, é o resultado do que é produzido pelo rompimento do senso comum, das proposições metafísicas, obrigando a uma nova significação do possível, ou seja, do cotidiano como acontecimento, que abre a história e a epistemologia sugando tudo para que gire em torno de si, gerando desse modo uma nova maneira de Ensinar a Filosofia.


É importante, para mim, ir modificando a minha postura ao filosofar, não permanecer muito tempo sobre a mesma perna, para não ficar perro. Wittgenstein,( RM).
É importante para mim ir modificando a minha postura ao filosofar, não permanecer muito tempo sobre a mesma perna, para não ficar perro. Wittgenstein ( RM, p. 118).

Atualmente Brasil tem passado por diversas crises, não só no contexto político ou econômico, mas também nos contextos educacionais. Dentre elas, está a discussão do Projeto de Lei sobre “escola sem partido” e a segunda que é sobre a Medida Provisória que ameaçava a retirada das disciplinas de Filosofia, Sociologia, Educação Física e Educação Artística, como disciplinas obrigatórias do currículo, tornando-as como disciplinas optativas. Medida que gerou muitas discussões, debates, manifestações populares e que depois de muito desgaste, recentemente, a Câmara de deputados, volta a trás e aprova novamente a exigência de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio. Estar diante da ameaça de retirada da obrigatoriedade do ensino da Filosofia do currículo do Ensino Médio brasileiro, f provocou muitas discussões e reflexões acerca da formação do professor, visto que muitos discentes dos cursos de Filosofia ficaram sem saber de fato qual seria o seu futuro em relação a possibilidade de atuarem em sala de aula e poder viver diversas possibilidades que o ato de ensinar/aprender proporciona.

Nesse sentindo, Zeichner, 1993, destaca que que os formadores de professor tem um papel importantíssimo no desenvolvimento profissional dos futuros professores pois:

  • Têm obrigação de ajudar os futuros professores a interiorizarem, durante a formação inicial, a disposição e a capacidade de estudarem a maneira como ensinam e de melhorarem, com o tempo, responsabilizando-se pelo seu próprio desenvolvimento profissional (p.17).

Na atual conjuntura formativa dos cursos de Licenciatura em Filosofia, existe uma preocupação recorrente por parte dos professores: Qual a metodologia adequada para transmitir os conteúdos de Filosofia? Qual a maneira mais eficaz para se realizar de maneira eficaz a “transposição didática” dos conteúdos de Filosofia no ensino médio? De outra maneira, contudo, mostra, de forma menos perceptível, o discente que será professor de Filosofia e que deveria estar disposto a refletir sobre os textos bem como exercitar discussões filosóficas. Há uma crença, mesmo desenhada pelas sutilezas dos equívocos, de que existe um modelo ideal de subjetividade a ser seguido e colocado como paradigma epistemológico do ensino da Filosofia para que se chegue ao saber verdadeiro. Não obstante, a proposição: “tornar o aluno consciente e autônomo” se apresenta nos objetivos dos estagiários como um norte “diretivo” do processo de ensinar filosofia.

A experiência docente no Ensino Médio, de certo modo, exige que se identifique, que se compreenda e que se problematize a realidade multifacetada que é o processo de ensinar/aprender, evidenciando: a dificuldade de ensinar àquele que muitas vezes não está interessado em ouvir; ensinar a um sujeito que muitas vezes não se sente motivado a aprender, ou não está disponível para pensar o que lhe é apresentado nas questões filosóficas. Tais problemas desembocam na possibilidade indicada e fundamentada no ambiente universitário, a saber: a formação alicerçada no monólogo do professor, em que o aluno é apenas ouvinte, e, consequentemente, desconsidera o cotidiano como categoria filosófica no contexto da sala de aula. Tal epistemologia adotada como estrutura formativa para os professores de Filosofia cerceia a esse professor a predisposição de ousar e de apostar em possíveis conexões de ensino que cumpram as demandas atuais do ensino de filosofia da contemporaneidade.

Dois pontos pertinentes podem decorrer acerca da formação de um professor de Filosofia:

  • 1) o ato de ensinar requer um exercício de reconsideração do cotidiano como categoria filosófica, isto é, a capacidade subjetiva de abertura para novas situações, novos mundos até então banidos do discurso epistemológico inerente à docência;
  • 2) este ponto diz respeito ao fato de se deslocar os docentes do polo de suas certezas epistemológicas – as quais tiveram sua origem e fundamentação na metodologia de ensino não filosófica, que propõe a receita dogmática de percurso dos caminhos certos para uma aula de filosofia – para o polo do aluno do ensino médio que está indisponível para a filosofia.

Para uma problematização da proposição: “ensinar a pensar”, um tanto desgastadas nos objetivos de muitos professores de Filosofia, tomando como base a perspectiva lançada por Wittgenstein de que “a filosofia é um trabalho sobre si mesmo” (RM,p.71), parece urgente a necessidade de se buscar a construção de novas possibilidades para a formação do professor de Filosofia. Essa ideia se apresenta como um contraponto ao modelo sustentado em determinadas práxis epistemológicas centradas em habilidades e em competências e na aplicabilidade de métodos que entendam a linearidade e a previsibilidade dos sujeitos que ensinam e aqueles que aprendem.

Para uma melhor compreensão de como o processo formativo do professor de Filosofia pode ser pensado, com base na perspectiva de reconsideração do cotidiano e do deslocamento de certezas epistemológicas direcionadas para o polo do aluno que não está indisponível para a Filosofia e da problematização da proposição: “ensinar a pensar”, Severino propõe que:

  • Trata-se, então, de levar esses adolescentes a experienciarem essa atividade reflexiva de compartilhamento desse processo de construção de conceitos e valores, experiência eminentemente pessoal e subjetivada, mas que precisa ser suscitada, alimentada, sustentada, provocada, instigada. Eis aí o desafio didático com que nos deparamos (2004, p. 108).

Procuraremos, portanto, pensar, norteados por esses contrapontos, pois, o maior desafio daqueles que formam os professores de filosofia é provocar uma reflexão sobre o ato de ensinar aos alunos do ensino médio a pensarem filosoficamente.

O conhecimento pedagógico separa-se da epistemologia do docente de Filosofia?

Pensar a profissão docente significa atrelar ao desenvolvimento desse ofício um corpus de saberes que têm como escopo a aprendizagem do outro. “O conhecimento inerente à profissão do professor não está atrelado ao domínio de conteúdos e técnicas”. (MORAES, 2003, p.160). Na mesma perspectiva, o discente do curso de Licenciatura em Filosofia deve ter clareza de que, na sala de aula, em seu lócus de exercício da profissão, tão só o amontoado de teorias e proposições didáticas não será suficiente para a contribuição de um aprendizado eficaz do seu futuro alunado. Da mesma maneira: “Considerar o ensino uma atividade natural significa não valorizar a profissão de professor bem como a dimensão universitária de sua formação” (NÓVOA, 2013).

  • Correspondência

    Fábio Antonio Gabriel


    Ana Lúcia Pereira Baccon


    Mauricio Silva Alves


    Tatiane Skeika


  • Download do artigo

    Por uma nova epistemologia do ensino de Filosofia no Ensino Médio: Mediações sobre o cotidiano em Wittgenstein e em Deleuze Download

  • Cadastre-se

    Caso queira obter informações sobre a Revista “Formação Docente”, cadatre-se e receba atualizações periódicas sobre a produção acadêmica na área da formação de professores. Cadastre-se

  • Latindex
  • sumarios.org
  • BBE
  • CAPES

    Portal de Periódicos/Qualis

  • Diadorim

    Deadorim

  • Edubase

    Edubase