Volume 09 / n. 16 jan. - jun. 2017: Artigos

Pesquisa em rede e a formação do pesquisador em educação: uma experiência do Observatório da Educação (Obeduc) UECE/UFOP/UNIFESP

foto de Isabel Maria Sabino de Farias

Isabel Maria Sabino de Farias

Pedagoga (UECE). Doutora em Educação Brasileira (UFC), com Estágio Pós-Doutoral pela Universidade de Brasília (UnB). Professora do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Líder do grupo de pesquisa Educação, Cultura Escolar e Sociedade (EDUCAS/CNPq). Coordenadora do Observatório Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica – OBEDUC/CAPES (2013-2017).

foto de José Rubens Lima Jardilino

José Rubens Lima Jardilino

Professor do Departamento de Educação (DEEDU) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Pesquisador e professor convidado do Programa de Doutorado em Ciências da Educação da REDECOLOMBIA, da Universidade Pedagógica y Tecnológica da Colômbia e da Universidade Pablo de Olavid, em Sevilha, na Espanha.

foto de Magali Aparecida Silvestre

Magali Aparecida Silvestre

Pedagoga, Doutorado em Educação: Psicologia da Educação. Professora da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e dos programas de pós-graduação em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência e Educação. Integrante do GEPEPINFOR. Coordenadora núcleo São Paulo do Observatório Desenvolvimento Profissional Docente e Inovação Pedagógica.

Resumo

Este artigo apresenta uma reflexão sobre a contribuição da Pesquisa em Rede para a formação do professor pesquisador em Educação. Teve como apoio o financiamento do Programa Observatório da Educação – OBEDUC/CAPES , iniciativa que promove, de modo integrado, a produção de conhecimento sobre a Educação Básica e a formação do pesquisador dessa área. É uma iniciativa com forte potencial indutor da melhoria da formação do professor, tendo como esteio o princípio da aproximação e da interlocução universidade e escola pública. Igualmente, representa ação que favorece a sistematização de conhecimentos de temas e pontos pulsantes na cena educativa nacional escolar, a exemplo do desenvolvimento dos professores e da inovação nas práticas de ensino. A reflexão aqui posta faz considerações sobre a relevância da pesquisa na formação de professores, registrando depoimentos de docentes da Educação Básica participantes de investigação em rede e a relevância em termos de formação continuada e os respectivos impactos no desenvolvimento profissional dos professores da Escola Básica, participantes da pesquisa.


Palavras-chave

Formação de Professores // Professor pesquisador // Rede de Pesquisa/Formação

1. A ideia de “Redes” na sociedade contemporâneas: Dialogando com alguns de seus interpretes.

A noção de rede evoca, de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (HOUAISS e VILLAR, 2009, p. 1.627), a ideia de entrelaçamentos, de um “conjunto de pontos que se comunicam entre si” ou de “pessoas, órgãos ou organizações que trabalham em conexão, com um objetivo comum”.

A ideia de rede formulada pela emergência das tecnologias contemporâneas torna-se uma imagem sui generis para representar o conhecimento no mundo contemporâneo no qual se consolida mais e mais um novo paradigma para a ciência e o conhecimento. Desta forma a ideia de rede foi inspirada, em grande parte, na insurgência das tecnologias informacionais e na percepção de que ninguém pensa sozinho, uma vez que todo pensamento é nó e trama de uma rede de conhecimentos e relações.

Na perspectiva acima, temos o conceito de Sociedade em Rede concebido por Manuel Castell (2002) que se caracteriza por um tipo de sociabilidade assentada numa dimensão virtual, impulsionada pela ascensão das chamadas ‘novas tecnologias’ redimensionaram o tempo e o espaço do que conhecemos desde a modernidade. Assim o termo rede ganha significado nas interações entre os sujeitos no mundo pós-internet.

Conforme os mais afoitos na onda mystique et ésotérique das tecnologias da informação, erroneamente denominada como sociedade do conhecimento (uma vez que a informação não é conhecimento per si. Para se transformar em conhecimento precisa da imprescindível mediação do homo sapiens), a Sociedade em Rede é uma “entidade” que transcende e atravessa a sociedade do conhecimento e da informação. Com o rompimento das dimensões de tempo e de espaço modernos a sociedade em rede se organiza a partir de elementos conexos entre os sujeitos que exigem a reconceituação de tempo e espaço, onde as fronteiras físicas não são mais fatores sine qua non na difusão do conhecimento e dos demais fatores do homem na sociedade global, como foi denominada por McLuhan (Data).

Nesta perspectiva, conhecer é como enredar, tecer significações, partilhar significados. Os significados são construídos na inter-relação com objetos, as noções, os conceitos, nos quais sujeitos cognoscentes e objetos participam, no mesmo plano da construção do conhecimento. Essa concepção rechaça por completo a construção cartesiana de conhecimento e, portanto, está em sintonia com um novo paradigma de conhecimento. Um significado é como um feixe de relações. O significado de algo é construído falando-se sobre o tema, estabelecendo conexões pertinentes, às vezes insuspeitadas, entre diversos temas. Esses feixes de relações, por sua vez, articulam-se em uma grande teia de significações e o conhecimento é fruto dessa engrenagem cognoscente, socialmente construído.

Uma das características das redes de conhecimento é a heterogeneidade. A imagem da rede continuamente nos lembra de que os nós/significados são naturalmente heterogêneos, no sentido de que envolvem relações pertencentes a múltiplos conteúdos, a diversas disciplinas. As noções, os conceitos realmente relevantes, sempre terminam por ultrapassar as fronteiras disciplinares, como desejou Morin (Data), quase chegando a trasndisciplinariedad.

No campo educacional, cada vez mais a noção de rede vem se constituindo como uma estratégia marcante para superarmos o velho paradigma do conhecimento centrado basicamente na autoria solitária do pesquisador. Não é atoa que até muito pouco tempo, nos diversos campos da área, os grupos de pesquisas resumiam-se quase grupo/mono, ou seja, um pesquisador e seus pupilos, talvez como reminiscência das velhas Cátedras universitária nas quais um “madarin” dirigia uma equipe de estudantes ao seu mestre ligado umbilicalmente. Somente, muito recentemente, na área da pesquisa, tem sido um requisito fomentado pelas agências de financiamento, a exemplo do CNPq que, para incentivar a criação de redes de pesquisa, informa em sua página que “_estas visam impulsionar a criação do conhecimento e o processo de inovação resultantes do intercâmbio de informações e, sobretudo, a junção de competência de grupos que unem esforços na busca de metas comuns… Esses buscam suprir a necessidade de um ambiente próprio e especializado em uma determinada área do conhecimento_”.

1. A pesquisa em rede na formação de professores: uma experiência no OBEDUC.

Esta compreensão, entre outros fatores, serve de esteio à indução de políticas abrangentes, como o Programa Observatório da Educação (OBEDUC), uma das ações implementadas em 2006 pela CAPES/INEP, visando a robustecer a formação inicial e continuada de profissionais da Educação Básica . Entre os objetivos dessa iniciativa, se destacam a produção de conhecimento sobre a Educação Básica e a formação de pesquisadores para a área, conforme enfatiza matéria registrada no sítio eletrônico dessa agência: “Obeduc se firma como programa de estímulo a pesquisas voltadas à formação de recursos humanos em educação”.

A articulação entre pós-graduação e Educação Básica caracteriza o OBEDUC, beneficiando mestrandos, doutorandos, graduandos e professores da escola vinculados a rede pública de ensino, agregados em torno de propostas de pesquisa, individuais ou em rede, selecionadas por meio de edital e apresentadas por Programas de Pós-Graduação e grupos de pesquisa (CLÍMACO, NEVES e LIMA, 2012). Em 08/06/2016, o OBEDUC completou dez anos, contabilizando até o momento cinco edições (2006, 2008, 2009, 2010 e 2012). De um conjunto de 28 projetos de pesquisa, em 2006, saltou para 176, em 2013 (136 projetos locais e 40 em rede), alcançando 212 programas de pós-graduação e concedendo 184 bolsas de doutorado, 491 de mestrado, 977 para professores da Educação Básica , 175 para coordenadores dos projetos e 1.019 para alunos de graduação (BRASIL.CAPES.DEB, 2013a, p.12).

Foi partindo dessa perspectiva que o Programa Observatório da Educação – OBEDUC, da Capes/Educação Básica fomentou uma linha de financiamento para pesquisas sobre a formação de professores e que essas pesquisas fossem realizadas em redes de universidades e grupos. Essa indução forçou os programas de pós-graduação a constituírem redes de grupos de pesquisadores para discutir e pesquisar a formação de professores, dialogando com os colegas que estão atuando na educação básica. Essas redes se constituíram em todo o país, a partir desse edital da Capes. No nosso caso, a rede constituída pela UECE, UFOP e UNIFESP demonstra sua experiência no âmbito dessa pesquisa. Pesquisa em rede porque assumida como ação de coletivo e de colaboração entre pares desde as decisões teóricas e metodológicas de fundo aos encaminhamentos mais operacionais em torno do objeto de estudo; pesquisa em rede movida pelo interesse de também contribuir para a formação de seus pesquisadores, iniciantes e veteranos.

  • Correspondência

    Isabel Maria Sabino de Farias


    José Rubens Lima Jardilino

    Rua Bernardo Guimarães, 45, apt. 06
    Rosário
    35.400-000, Ouro Preto, MG, Brasil


    Magali Aparecida Silvestre


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