Volume 09 / n. 15 ago. - dez. 2016: Artigos

Perspetivas sobre práticas de reflexão no estágio em 1º CEB: a voz dos estudantes

Maria Cecília Bento

Doutoranda do Programa Doutoral em Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Exerce também atividade como professora do 1º Ciclo do Ensino Básico (CEB), essencialmente no acompanhamento ao estudo e no acompanhamento de crianças com necessidades educativas especiais. Os interesses de investigação relacionam-se com a formação inicial de professores, as práticas reflexivas, e a educação no 1º Ciclo do Ensino Básico.

Amélia Lopes

Professora catedrática da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e vice-diretora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE). Coordena o Grupo de Investigação Conhecimento, Inovação e Diversidades em Educação. Tem dirigido diversos projetos de investigação, nacionais e internacionais, em diferentes áreas da educação e da formação, nos quais se destacam os temas: formação profissional no ensino superior e identidades acadêmicas, integração da diversidade no ensino superior, impacto da educação doutoral, construção de identidades profissionais, formação de professores e lideranças educacionais. No domínio do ensino superior, tem também participado em projetos de investigação e de intervenção para a inovação pedagógica. É membro do Conselho Diretivo da European Educational Research Association, vice-presidente do Conselho Diretivo da FPCEUP; presidente do Conselho Pedagógico da FPCEUP; diretora do Mestrado em Ciências da Educação (FPCEUP); vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação; membro da Direção do Observatório da Vida das Escolas (OBVIE); e membro do Conselho Coordenador do Modelo Educativo da U. Porto. Participa de redes diversas, abrangendo países da Europa e da América do Sul.

Fátima Pereira

Professora auxiliar da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas e membro da Comissão de Assessoria do Programa Doutoral em Ciências da Educação, da Comissão Científica do Mestrado em Ciências da Educação, da Direção do Observatório da Vida nas Escolas e da Comissão de Ética dessa faculdade. Coordenou e participou de vários projetos de investigação nacionais e internacionais e faz parte de diversas redes de investigação nacionais e internacionais na Europa e na América Latina com enfoque em formação profissional no ensino superior, identidades acadêmicas, gestão educacional, construção de identidades profissionais e formação de professores. Exerce atividades de consultoria e avaliação, nomeadamente com a Comissão Europeia, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq), o Ministério da Educação e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Resumo

Apresentamos aqui resultados parciais de um estudo sobre a dimensão da reflexão como investigação na formação inicial de professores do 1º Ciclo do Ensino Básico (CEB), em Portugal.
A escola e as concepções sobre a infância alteraram-se ao longo do tempo. Interessa compreender o contributo da formação na capacidade para lidar com problemas dos contextos atuais. A reflexão é uma competência a ser construída na formação inicial de professores, mas as suas relações com dinâmicas de investigação necessitam de maior esclarecimento.
Pretende-se compreender a organização do estágio na formação inicial de professores do 1º CEB, as práticas de reflexão das estudantes e a sua centralidade como uma ferramenta de investigação e desenvolvimento profissional.
Recolhemos e analisamos documentos caracterizadores da formação e relatórios de estágio e realizamos um focus group, entrevistas com professores supervisores, professores cooperantes e estudantes, apresentando aqui resultados referentes a essas últimas.
Da análise, inferimos que há na formação preocupação com o desenvolvimento de práticas reflexivas, apesar de não se verificar sempre a presença sistemática dessa reflexão.


Palavras-chave

Formação Inicial de Professores // Prática Pedagógica // Reflexão

Introdução

A reflexão e a investigação têm, há décadas, sido consideradas, no campo das ciências da educação, como dimensões fundamentais para a profissionalização de professores. Em Portugal, no caso dos professores do 1º CEB (primeiros quatro anos de escolaridade), a profissionalização tem passado por várias mudanças, quer em termos da qualificação acadêmica, quer em termos dos conteúdos da sua formação, tendo sofrido a sua mais recente alteração com o Processo de Bolonha (1992). Nessas mudanças, as dimensões de reflexão e de investigação têm sido salientadas, em termos dos discursos curriculares, como competências a formar para que os futuros professores possam responder aos desafios educativos que, atualmente, se colocam em contexto escolar.

O estágio constitui, na formação inicial de professores, um espaço-tempo privilegiado para a profissionalização, possibilitando mediações entre a dimensão teórica e a dimensão prática da formação. Nesse contexto, os futuros professores experienciam a atividade docente, supostamente tendo como referencial o perfil de profissional definido nos currículos de formação.

Este artigo visa apresentar resultados parciais de um projeto de doutoramento que pretende compreender como os processos de reflexão sobre as práticas educativas, em contexto de estágio, se constituem num dispositivo de investigação e como potencial fator de desenvolvimento profissional. Neste estudo realizou-se a recolha e a análise de documentos caracterizadores dos cursos que conferem habilitação para a docência no 1º CEB a nível nacional, assim como um focus group com estudantes, entrevistas individuais com professores cooperantes, professores supervisores e estudantes e, por fim, a análise de alguns relatórios de estágio.

Apresentamos, num primeiro momento, a organização atual da formação inicial dos professores do 1º CEB e alguns aspetos sobre os referenciais teóricos do estudo – formação inicial de professores, estágio e reflexão –, seguidos de uma abordagem dos aspetos metodológicos e da apresentação e discussão de resultados referentes à análise de entrevistas realizadas com estudantes dos mestrados em Educação Pré-escolar e Ensino do 1º Ciclo do Ensino Básico e em Ensino do 1º e do 2º Ciclos do Ensino Básico em duas instituições de formação de professores do distrito do Porto.

Formação inicial de professores do 1º CEB em Portugal

A educação obrigatória, em Portugal, tem a duração de doze anos e está dividida nos seguintes ciclos: a) 1º CEB, corresponde aos quatro primeiros anos, geralmente entre os 6 e os 10 anos de idade. Nesse ciclo, o ensino é assegurado por um único professor, em regime de monodocência; b) 2º CEB, constituído por dois anos, em que os alunos têm um leque vasto de disciplinas, em regime de pluridocência; c) 3º CEB, constituído por três anos; d) Ensino Secundário, constituído por três anos, que podem ser feitos em áreas distintas consoantes à área em que o aluno pretende seguir estudos, ou, em alternativa, cursos de caráter profissional.

A formação inicial de professores sofreu uma série de mudanças ao longo do tempo, tendo a última grande modificação ocorrido com o chamado Processo de Bolonha, de 1999.Como já se referiu em nota de rodapé, a Declaração de Bolonha é um documento assinado pela grande maioria dos países europeus, que pretende criar um Espaço Europeu do Ensino Superior, em que alunos e docentes tenham maiores possibilidades de mobilidade. Houve, portanto, a necessidade de se ajustarem os currículos dos cursos, para permitir uma maior facilidade de equivalência entre formações e de circulação dos estudantes dentro da Europa. Mesmo assim, “os estudos não nos têm dado grandes notícias de que a situação de crise tenda a ultrapassar-se nem que a educação escolar seja, atualmente, socialmente mais justa” (PEREIRA, 2015, p. 63).

Relativamente à formação inicial de professores do 1º CEB, ela está dividida em dois ciclos de estudos: um primeiro, de três anos, de caráter geral, e um segundo momento, correspondente ao nível de mestrado, com duração variável entre um e dois anos, consoante aos ciclos de docência do futuro professor. A habilitação para a docência é determinada pelo Decreto-Lei n.º 43, de 22 de fevereiro de 2007, no seu artigo 4º:

  • Têm habilitação profissional para a docência nos domínios a que se referem os n.os 1 a 4 do anexo [Educador de Infância, Professor do ensino básico: 1º ciclo; educador de infância e professor do ensino básico: 1º ciclo; professor do 1º e do 2º ciclo do ensino básico], os titulares do grau de licenciado em Educação Básica e do grau de mestre na especialidade correspondente obtidos nos termos fixados pelo presente Decreto-Lei (PORTUGAL, 2007).

Em Portugal, o ensino obrigatório divide-se em ciclos: 1º Ciclo do Ensino Básico (CEB), que se inicia aos seis anos de idade e tem a duração de quatro anos; 2º CEB, com a duração de dois anos; 3º CEB, correspondente a três anos; Ensino secundário, os três anos finais. Segundo este Decreto-Lei e à data da recolha de dados para este estudo, a habilitação para a docência no 1º CEB é conseguida por um dos seguintes mestrados: a) Mestrado em Ensino do 1º CEB; b) Mestrado em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1º CEB; c) Mestrado em Ensino do 1º e do 2º CEB.

Como referem Matiz e Lopes (2009, p. 1.418), “a formação de professores é a fase ideal de investimento no crescimento pessoal, implicando a alteração de atitudes e de comportamentos” e, portanto, o seu estudo poderá conduzir ao desenvolvimento de práticas mais eficazes, que, em último caso, irão trazer melhorias aos alunos mais novos.

Por outro lado, a escola e, por consequência, a formação de professores, sofreu também uma série de alterações ao longo do tempo (cf. PEREIRA et al., 2007; LOPES et al., 2007).

Atualmente, “não podemos deixar de considerar que a escolarização está profundamente implicada no actual contexto social e económico de instabilidade, incerteza e conflitualidade” (PEREIRA, 2007, p. 69) e, portanto, tem que estar adequada às mudanças que vão ocorrendo na sociedade e no mundo. A par dessa crise da escola, alteraram-se também as perspetivas sobre a infância e o ser aluno, a profissão docente e o ser professor. Assim,

  • […] há que reconhecer que ser professor hoje, desempenhar papéis e funções que, entretanto, mudaram, muito e muito rapidamente, exige competências de elevado grau de complexidade. Importa que a formação inicial seja reconceptualizada no sentido de preparar futuros profissionais autónomos, críticos e criativos, promotores do sucesso educativo dos alunos (ESTEVES, 2005, p. 12).

A formação inicial de professores é constituída por duas componentes principais: uma de caráter mais teórico, sobre a área disciplinar e as Ciências da Educação, e outra de Prática Pedagógica.
De fato, a legislação portuguesa prevê que a formação inicial de professores seja constituída por:

Como facilmente se observa, sobretudo durante a licenciatura, há pouco investimento na prática pedagógica. Antecipando e refletindo sobre Bolonha, escreviam Gonçalves e Gonçalves (2001, p. 116) que

  • […] uma boa medida seria criarmos condições para que a experiência pedagógica do estudante começasse o mais cedo possível, em seu curso de licenciatura, pois aí teria um conteúdo prático para a sua reflexão sobre a prática, associada à teoria em estudo no âmbito universitário, tendo condições de discutir e questionar, auxiliado por seus professores e colegas.
  • Correspondência

    Maria Cecília Bento


    Amélia Lopes


    Fátima Pereira


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