Volume 09 / n. 15 ago. - dez. 2016: Artigos

Parceria Universidade–Escola Básica e a Aprendizagem da Docência: contribuições da relação entre os professores supervisores do PIBID e os licenciandos bolsistas

foto de Giseli Barreto da Cruz

Giseli Barreto da Cruz

Graduada em Pedagogia pela Universidade Santa Úrsula (USU) com especialização em Supervisão, Orientação e Administração Escolar pela Universidade Federal Fluminense (UFF); mestre e doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Realizou estágio pós doutoral (CNPq – PDJ) na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) (2011) sob a supervisão da professora Marli André. Atualmente é professora adjunta da Faculdade de Educação da UFRJ, membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da mesma universidade e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Didática e Formação de Professores (GEPED). É Membro do GT 08 da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped). Atuou na educação básica exercendo as funções de docente e de pedagoga em redes públicas de ensino. Reúne significativa experiência na área de Educação como professora e pedagoga, atuando com organização do trabalho pedagógico, currículo, avaliação, pesquisa, formação e prática docente. Tem se dedicado a pesquisas sobre pedagogia, didática e formação de professores.

foto de Talita da Silva Campelo

Talita da Silva Campelo

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com especialização em Orientação Educacional e Pedagógica pela Universidade Candido Mendes (UCAM). É mestre em Educação pela UFRJ e doutoranda Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ na linha de pesquisa em Currículo, Docência e Linguagem sob a orientação da professora doutora Giseli Barreto da Cruz. É integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Didática e Formação de Professores (Geped) e do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Didática e Formação de Professores (Leped). Atua como professora nas séries iniciais e na educação infantil desde 2007 na rede pública do município de Duque de Caxias.

Resumo

O presente artigo toma como referência dados coletados para fins de uma pesquisa sobre os diferenciais da parceria universidade – escola básica para a formação inicial de pedagogos docentes no contexto do Programa de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) – proposto pela CAPES. Cuida de analisar as ações desenvolvidas nesse projeto, adotando como foco investigativo as intervenções e mediações das professoras supervisoras das escolas parceiras. Metodologicamente foi desenvolvido um estudo de caso. A partir de pressupostos teóricos construídos com base nos estudos de Cochran-Smith & Lytle (1999) e Zeichner (2010), buscou-se discutir o trabalho desenvolvido no PIBID investigado. Os resultados apontam que ao promover a aproximação entre universidade e escola – viabilizada em um espaço de formação inicial onde se discute, se problematiza e se exercita o trabalho docente sob orientação e na companhia constante do professor da escola básica – o Programa PIBID potencializa a aprendizagem da docência dos licenciandos bolsistas investigados. Essa aprendizagem se expressa no favorecimento da compreensão da indissociabilidade entre teoria e prática.


Palavras-chave

Parceria universidade-escola básica // Pedagogos docentes // Relação teoria & prática

Introdução

Corresponder às reais necessidades apresentadas pelo cotidiano escolar contemporâneo é um desafio que se coloca ao exercício profissional docente que, atualmente, precisa ultrapassar a prática de aplicar uma teoria aprendida ou de meramente reproduzir procedimentos e/ou metodologias utilizados em outros contextos. Para Tardif e Lessard (2005), o magistério não pode ser colocado como uma ocupação secundária. Ele constitui um setor nevrálgico nas sociedades contemporâneas e é uma das chaves para entender as suas transformações. A docência não é um trabalho simples e, portanto, a formação para esse exercício profissional é notoriamente complexa.

As pesquisas que se dedicam a essa temática têm suscitado muitas preocupações sobre os atuais moldes de formação docente. Ao tratar da formação inicial dos professores para a educação básica, muitos estudos têm constatado uma distância entre o processo de formação inicial dos professores e a realidade encontrada nas escolas, que diz respeito à lacuna entre a teoria estudada nas universidades e a prática desenvolvida no ambiente profissional, entre a formação e o trabalho (COCHRAN; M. S. LYTLE, 1999; ROLDÃO, 2007; ZEICHNER, 2010).

Diante desse quadro, a parceria universidade-escola básica tem grande potencial para superar a desconexão entre a academia e a realidade escolar. Para Lüdke e Boing (2012), é urgente que se construa uma parceria efetiva entre essas duas instituições formadoras do professor para que se atente para o trabalho docente e assim se possa aproximar a formação inicial das necessidades que o futuro professor irá enfrentar. Isso implica o reconhecimento de que existem determinados aspectos do exercício docente que podem ser melhor desenvolvidos a partir da problematização e da investigação sobre a docência com base no que ela é e de quem a faz: os professores.

É nesse contexto que surge o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). Integrante do Plano Nacional de Formação de Professores (2009), o PIBID é um programa brasileiro de iniciação à docência que visa a participação de licenciandos em atividades de ensino-aprendizagem desenvolvidas na escola pública. O programa é desenvolvido por meio da concessão de bolsas de iniciação à docência para estudantes, bolsas de coordenação para professores coordenadores (instituições de ensino superior) e bolsas de supervisão para professores supervisores (escola básica). Seu lançamento ocorreu em dezembro de 2007, mediante o Edital MEC/CAPES/FNDE n.º 01/2007.O programa permite que os licenciandos experimentem a docência através do planejamento e desenvolvimento coletivo –que une licenciandos, professores da escola básica (supervisores) e professores da universidade (coordenadores) – de atividades de aula, materiais didáticos e projetos interdisciplinares voltados para a escola pública.

Concentrando-nos no PIBID Pedagogia de uma universidade federal do Rio de Janeiro, nos interessa analisar as ações desenvolvidas nesse projeto, adotando como foco investigativo as intervenções e mediações dos professores supervisores das escolas parceiras. Quais as contribuições do papel desenvolvido pelas professoras supervisoras do PIBID Pedagogia para a formação inicial do pedagogo docente na perspectiva da parceria universidade-escola básica?

Aspectos teóricos e metodológicos

Visando atender aos objetivos de investigar as contribuições da participação de professores da escola básica como coformadores de pedagogos docentes no contexto do PIBID Pedagogia, analisar o trabalho desenvolvido pelos professores supervisores com os licenciandos participantes do programa e compreender como se constituem as intervenções desses professores supervisores no processo de formação docente dos licenciandos bolsistas, nos ficou claro o quanto se fazia necessário uma imersão profunda tanto nos processos em si quanto nos sujeitos que os mobilizavam.

Diante disso, metodologicamente, desenvolvemos um estudo de caso holístico com base nos pressupostos de André (2005, 2013) e Yin (2010), construindo evidências no contato direto com os sujeitos envolvidos no projeto: uma professora coordenadora (universidade), cinco professoras supervisoras (escolas parceiras) e catorze licenciandos bolsistas. O caso se forja na especificidade do PIBID Pedagogia da instituição investigada, cuja prática requer que os bolsistas façam etnografia da prática escolar, se inserindo na turma semanalmente como copartícipe dela, indo além da proposta de desenvolver atividade de ensino em tempo específico, o que requer um convívio prolongado de aprendizagem sobre a docência sob a intervenção da professora supervisora.

Durante o período de imersão em campo, foram feitas observações, entrevistas e análise documental. As entrevistas se deram apenas com os professores supervisores, uma vez que a convivência direta com os licenciandos bolsistas permitiu captar suas impressões continuamente. Quanto aos documentos, foram analisados tanto documentos oficiais (como editais) quanto escritas e materiais produzidos pelos licenciandos e por professoras supervisoras durante o período em que estivemos em campo. A observação se deu em duas fases: a primeira fase foi desenvolvida nos encontros semanais do PIBID Pedagogia na universidade. A segunda fase ocorreu na sala de aula do professor supervisor de uma das escolas parceiras.

Para análise e interpretação dos dados, utilizamos uma estratégica analítica geral (YIN, 2010) voltada para o exame, a categorização, a tabulação, para tirar conclusões baseadas empiricamente. Para isso, foi usado um dos quatro eixos propostos por Yin (2010): o exame dos dados a partir das proposições teóricas. Foram usadas também técnicas específicas da análise dos estudos de caso propostas pelo autor, como a combinação de padrão, a construção da explanação e a síntese cruzada dos dados.

Para fundamentar nosso estudo, nos apoiamos em três autores: Zeichner (2010), Cochran-Smith e Lytle (1999). Nossas proposições teóricas decorrem do estudo sobre dois eixos: relação teoria-prática e parceria universidade-escola básica. Direcionamo-nos ao desenvolvimento de terceiros espaços como facilitadores da articulação entre as dimensões teóricas e práticas do conhecimento sobre a docência (ZEICHNER, 2010) e, de igual modo, às concepções de formação de professores que preveem a troca de saberes entre docentes experientes e em formação inicial (COCHRAN-SMITH e LYTLE, 1999).

Os terceiros espaços de formação docente, tal como proposto por Zeichner, estão focados “na criação de novas espécies de papeis para os formadores de professores e nos meios de aproximar conhecimento acadêmico e profissional” (2010, p.486). Nessas configurações, o trabalho desenvolvido no PIBID traz duas importantes ideias para se pensar a formação docente: a participação de professores da educação básica na formação inicial de outros professores e a antecipação/extensão do tempo que os licenciandos passam na escola – seu futuro campo de atuação.

No entanto, estar com professores experientes e passar mais tempo na escola não parece ser suficiente para melhorar a formação docente em uma perspectiva de superar a distância entre a formação e o trabalho (COCHRAN-SMITH e LYTLE, 1999; GATTI, 2008, 2010 e 2013; ROLDÃO, 2007; ZEICHNER, 2010). Nesse sentido, o diferencial de espaços híbridos – terceiros espaços – para a formação inicial de professores se materializa quando, para além de grupos de encontro, eles se configuram como “comunidades intelectuais, sociais e organizacionais que dão suporte à aprendizagem de professores, promovendo oportunidades para que pensem, falem, leiam e escrevam sobre seus trabalhos diários, de maneira intencional e planejada”. (COCHRAN-SMITH e LYTLE, 2002).

  • Correspondência

    Giseli Barreto da Cruz


    Talita da Silva Campelo


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