Volume 09 / n. 15 ago. - dez. 2016: Artigos

Prática docente na educação profissional e tecnológica: os conhecimentos que subsidiam os professores de cursos técnicos

foto de Geralda Aparecida de Carvalho Pena

Geralda Aparecida de Carvalho Pena

Doutora e mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pedagoga pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Trabalha no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG – campus Ouro Preto) como pedagoga e coordenadora de pós-graduação. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Educação, Trabalho e Sociedade (IFMG – Ouro Preto) e do Grupo de Pesquisa Formação e Profissão Docente (FOPROFIUFOP). Membro da Rede Latino-americana de Estudos sobre Trabalho Docente (Rede Estrado). Membro do Núcleo de Pesquisa, Inovação e Extensão e do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do IFMG – Ouro Preto. Tem experiência na área de Educação como pedagoga, professora universitária e professora de educação básica. Pesquisa no campo da Formação de Professores os seguintes temas: desenvolvimento profissional docente, prática pedagógica e trabalho docente, educação profissional e tecnológica, formação profissional e egressos de cursos técnicos e Institutos Federais. Instituto Federal de Minas Gerais – Ouro Preto

Resumo

Este trabalho tem como objetivo discutir a docência na Educação Profissional e Tecnológica (EPT), buscando identificar e analisar os conhecimentos que subsidiam a prática docente na EPT, mais especificamente nos cursos técnicos de nível médio, no ensino das disciplinas técnicas. Para isso, são apresentados alguns resultados de uma tese que investiga os conhecimentos, as práticas e os desafios da docência da Educação Profissional e Tecnológica no contexto de um Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia. A pesquisa foi desenvolvida por meio de um estudo de caso que utilizou como instrumentos de coleta de dados, em sua primeira etapa, questionários e análise documental e, na segunda etapa, observações da prática docente e entrevistas. Neste artigo, foi feito um recorte de forma a apresentar e analisar parte dos dados obtidos nas entrevistas realizadas com seis professores de cursos técnicos de nível médio com formação em cursos de pós-graduação, mas sem formação para o ensino e com tempos diferenciados de experiência docente. Os dados mostram que a prática docente na EPT é resultante da articulação de diversos tipos de conhecimentos, valorizados de forma diferenciada pelos professores, que dão maior destaque ao conhecimento do conteúdo e ao conhecimento prático na área de trabalho em que se insere o curso técnico e menor ênfase ao conhecimento pedagógico. A análise aponta elementos para aprofundar a problematização e a reflexão sobre a constituição da prática docente dos professores da EPT e sobre seu processo de formação.


Palavras-chave

Disciplinas técnicas // Docência na EPT // Ensino

Introdução

A Educação Profissional e Tecnológica (EPT) é definida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei n.º 9.394/96) (BRASIL, 1996), atualizada pela Lei n.º 11.741/2008, no artigo 39, da seguinte forma: “A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia”. Por essa lei, a EPT é uma modalidade de educação que abrange os seguintes cursos:1) formação inicial e continuada ou qualificação profissional;2) educação profissional técnica de nível médio e 3) educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação (parágrafo 2º, incisos I, II e III).Em cada nível/modalidade de ensino há especificidades relacionadas a diferentes elementos e às suas formas de organização, que apresentam diversidade de modalidades, de currículos, de relação com os setores econômicos, de eixos tecnológicos, de rede de escolas, de instâncias mantenedoras, etc. Dois aspectos se apresentam na organização dos cursos técnicos: a variedade de currículos ofertados nesses cursos em cada modalidade de ensino (integrado, concomitante ou subsequente ao ensino médio) e a heterogeneidade do perfil dos alunos que frequentam cada tipo de curso, o que apresenta demandas diferenciadas de trabalho ao professor.

Não obstante essa diversidade na forma de organização, a docência na EPT ainda é pouco investigada no Brasil. Os estudos atuais mostram que há especificidades que precisam ser consideradas tanto no que se refere à docência nesse contexto quanto à formação docente para os professores de EPT, uma vez que o desenvolvimento da prática docente nesses cursos precisa levar em conta a complexidade desse universo e as necessidades de cada uma das formas organizativas dessa modalidade de ensino, bem como a articulação com o mundo do trabalho, que demanda atenção constante à relação teoria/prática, entre outros aspectos. Mediante o exposto, emergem as seguintes questões: o que caracteriza a docência na EPT? Na organização da prática docente para o ensino das disciplinas técnicas, que tipos de conhecimentos os professores utilizam como referência? Que processos formativos decorrentes da trajetória acadêmica e profissional dos docentes lhes possibilitaram a construção de conhecimentos necessários ao ensino?

Busca-se neste artigo identificar e analisar os conhecimentos que subsidiam a prática docente na EPT, mais especificamente nos cursos técnicos de nível médio, tendo como foco de análise o ensino das disciplinas técnicas, que se caracterizam por fornecer os conhecimentos específicos que visam à formação do aluno para o mundo do trabalho. Para isso, são apresentados parte dos resultados de uma pesquisa de doutorado que investiga os conhecimentos, as práticas e os desafios da docência na Educação Profissional e Tecnológica.

Prática docente na Educação Profissional e Tecnológica: reflexões iniciais

A análise da docência na EPT mostra aspectos específicos dessa modalidade de ensino, em que elementos variados demarcam diferenças significativas em relação, por exemplo, ao perfil do profissional que atua como docente dos cursos técnicos. Na Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica geralmente exige-se, nos concursos públicos, a formação em curso de graduação na área específica do conhecimento em que o professor vai atuar, sendo bastante valorizada a formação em nível de pós-graduação stricto sensu. Já nas escolas privadas, normalmente na contratação de professores é priorizada a experiência profissional na indústria, focalizando o aspecto prático, relacionado ao exercício profissional. Essas diferenças se fazem notar também no que se refere ao regime e às condições de trabalho dos professores. Observando-se o corpo docente das disciplinas técnicas dos cursos de EPT de nível médio na Rede Federal, pode-se constatar que ele é composto, em sua maioria, por profissionais com diferentes formações, como engenharia, administração, turismo, enfermagem, nutrição, entre outras. Grande parte desses profissionais possui qualificação em cursos de mestrado e doutorado em suas áreas de conhecimento específico e ingressaram no magistério com pouca ou nenhuma referência pedagógica mais sistematizada. Conforme afirmam Kuenzer, Franco e Machado (2006), os cursos de mestrado e doutorado, por estarem mais centrados na pesquisa, não têm formado professores, dando pouca ou nenhuma ênfase à formação pedagógica. Essa situação levanta as seguintes questões: de que forma esse profissional, que não teve uma formação voltada para o processo de ensinar, desenvolve sua prática docente? Ao assumir a condição de docente, que referências utiliza para ensinar?

Uma análise da legislação da educação no Brasil revela que não há, de forma explícita, exigência de requisitos legais de formação docente para atuar na EPT, visto que a LDB em vigor (Lei n.º 9.394/96) estabelece diretrizes para a formação de docentes para atuar na educação básica e na educação superior, mas não menciona diretamente a formação dos professores para a EPT. Analisando ainda as legislações específicas referentes à EPT no Brasil (decretos e pareceres), constata-se que o que prevalece é a falta de definições relativas à formação desses profissionais. Ainda que haja essa ambiguidade legal em relação à formação dos professores da EPT, o que acontece na prática é que a maior parte desses professores não possui formação voltada para o ensino, de acordo com a Sinopse Estatística da Educação Básica 2013 (BRASIL, 2013), publicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Essa ausência de formação docente, evidenciada nos dados oficiais e nos estudos da área de formação de professores, constitui-se em um fator importante para a busca de maior compreensão da docência nessa modalidade de ensino. Para Machado (2008), a docência na EPT tem como especificidade primeira a tecnologia, que se configura como uma ciência transdisciplinar das atividades humanas de produção, do uso dos objetos técnicos e dos fatos tecnológicos. A autora enfatiza que:

  • Os professores da educação profissional enfrentam novos desafios relacionados às mudanças organizacionais que afetam as relações profissionais, aos efeitos das inovações tecnológicas sobre as atividades de trabalho e culturas profissionais, ao novo papel que os sistemas simbólicos desempenham na estruturação do mundo do trabalho, ao aumento das exigências de qualidade na produção e nos serviços, à exigência de maior atenção à justiça social, às questões éticas e de sustentabilidade ambiental. São novas demandas à construção e reestruturação dos saberes e conhecimentos fundamentais à análise, reflexão e intervenções críticas e criativas na atividade de trabalho (MACHADO, 2008, p. 15).

Assim, a docência na EPT apresenta questões que demandam dos professores conhecimentos que viabilizem aos alunos uma formação que não se limita a uma concepção de formação técnica vinculada ao mero treinamento, mas que seja direcionada por uma concepção mais ampla do ensino no contexto atual. De acordo com Oliveira (2000), a formação dos alunos nas escolas de EPT deve se pautar pela concepção de educação tecnológica, que, no dizer da autora, não se resumiria a uma formação voltada apenas para o domínio das técnicas de execução de atividades e tarefas no setor produtivo e de serviços, mas

  • […] envolveria, entre outros, o compromisso com o domínio, por parte do trabalhador, dos processos físicos e organizacionais ligados aos arranjos materiais e sociais e do conhecimento aplicado e aplicável, pelo domínio dos princípios científicos e tecnológicos próprios a um determinado ramo de atividade humana (OLIVEIRA, 2000, p. 42).
  • Correspondência

    Geralda Aparecida de Carvalho Pena


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