Volume 09 / n. 15 ago. - dez. 2016: Artigos

O diário de aula como instrumento de reflexão na Formação Inicial de Professores de Ciências Biológicas

foto de Glaucia Britto Barreiros

Glaucia Britto Barreiros

Licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) emestre em Educação para Ciências e a Matemática pela UEM. Especialista em Ensino de Ciências pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Doutoranda em Educação para Ciências e a Matemática pela UEM. Integrante do Grupo de Estudos Seminare -Rede Pólen da UEM. Atua na área de Educação, com ênfase em ensino-aprendizagem e formação de professores de Ciências e Biologia.

Dulcinéia Ester Pagani Gianotto

Possui graduação em Ciências Físicas e Biológicas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) (1975), mestrado em Educação pela Universidade do Oeste Paulista (UNOESTE) (2000) e doutorado em Educação para a Ciência pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita (UNESP) (2008). Atualmente é professora adjunta da UEM e coordenadora adjunta do curso de Ciências Biológicas a Distância e do Curso de Especialização Ensino-aprendizagem de Ciências e Biologia. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em formação de professores e tecnologia educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: ensino-aprendizagem, aprendizagem colaborativa, educação ambiental, recursos computacionais e informática educacional. Universidade Estadual de Maringá

Resumo

As experiências na formação inicial norteiam a construção do futuro docente. A prática do estágio é de extrema importância para apresentar os dilemas a serem enfrentados no exercício profissional dos licenciandos. Para desenvolver experiências práticas reflexivas, alternativas como a do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) foram propostas. Nesse sentido, este artigo apresenta parte de uma pesquisa de mestrado que, entre outros fatores, buscou analisar as contribuições da utilização do instrumento pedagógico diário de aula para a reflexão da prática no ensino de Biologia, e que tem por objetivo investigar os 19 participantes do PIBID Biologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), identificando nas narrativas dos participantes aspectos relevantes. Com um enfoque qualitativo de natureza interpretativa e tendo a abordagem reflexiva como principal referencial teórico, pretendeu-se investigar como a ferramenta diário de aula influencia os processos que envolvem a formação inicial de Biologia. Com a análise, pode-se considerar que o diário é potencialmente significativo para o acervo histórico da prática vivenciada, o que contribui para o início de uma atitude reflexiva na formação inicial.


Palavras-chave

Diário de aula // Formação Inicial // Professor reflexivo

INTRODUÇÃO

A compreensão das metodologias de ensino e a oportunidade de refletir sobre a prática docente, ainda na formação inicial, constitui a base para as escolhas didáticas do futuro professor e o estimula a criar propostas dinâmicas em sala de aula. Entretanto, o modelo atual de formação e o contexto da disciplina do Estágio Supervisionado (ES) são insuficientes para transformar o processo de ensino-aprendizagem desses licenciandos para uma prática docente reflexiva (PIMENTA; GHEDIN, 2002; SCHÖN, 2000).

Visando atender essa lacuna, novas propostas vêm sendo implementadas atualmente pelo governo brasileiro, como o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), desenvolvido pelas Instituições de Ensino Superior (IES), vigente desde 2007. Primeiramente implementado nas instituições federais (2007), e em seguida nas estaduais (2009), o PIBID apresentou-se como uma proposta integradora de conhecimentos de dois diferentes contextos – a escola básica e a universidade (BRASIL, 2007). Na mesma perspectiva que o estágio supervisionado, porém sem o caráter disciplinar, o programa busca um compartilhamento, com os alunos, de saberes dos professores da escola básica e de suas experiências em sala de aula; dos professores das licenciaturas e de seus conhecimentos em pesquisa e formação de professores; e a criatividade e busca por aperfeiçoamento dos licenciandos e futuros professores. Desse modo, configura-se como um estágio mais autônomo e com perfil dinâmico.

No que tange aos pressupostos para a formação de professores, destacam-se as ideias de Nóvoa (1992), Schön (2000), Freitas e Villani (2002), Pimenta e Ghedin (2002), que defendem a construção de um modelo de formação profissional baseado na epistemologia da prática crítico-reflexiva. Uma maneira de incentivar o refletir sobre a prática, primeiramente pela escrita e posteriormente pela reflexão fundamentada (ZEICHNER, 2008), o diário de aula é utilizado e endossado por diversos autores (PORLÁN; MARTÍN, 1991; LIBERARI, 1999; GALIAZZI; LINDEMANN, 2003; PIETRO, 2003; PANIZ, 2007; GIANOTTO, 2008a; GIANOTTO; CARVALHO, 2015; BARREIROS; GIANOTTO, 2014; BARREIROS, 2015). Trata-se de um recurso pedagógico que, por meio de narrativas, influência de modo subjetivo (positiva ou negativamente) a reflexão da prática docente.

Nesse sentido, a presente pesquisa delineou-se em identificar se o diário de aula é um recurso pedagógico eficiente para ser utilizado na formação inicial crítico-reflexiva de professores de Biologia. A partir desse questionamento, o artigo discute os resultados de uma investigação sobre as contribuições do diário de aula na formação docente de acadêmicos de Ciências Biológicas da Universidade Estadual de Maringá (UEM) durante o desenvolvimento das atividades do PIBID Biologia, em 2013, que ocorreram no ensino médio (EM) de duas escolas públicas da cidade de Maringá (Paraná).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

As tendências para a formação de professores são estimuladas pelo contexto socioeconômico e cultural do momento histórico em que se inserem. Retomando o contexto histórico da formação de professores no Brasil, observa-se que houve pouco estímulo e valorização da profissionalização docente. Ao longo do tempo, a maioria das políticas públicas estimulou apenas medidas paliativas (PIMENTA; GHEDIN, 2002).

Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, havia a valorização dos aspectos didáticos e metodológicos relacionados às tecnologias de ensino, passando em um segundo plano para o domínio dos conteúdos (saberes específicos). Já nos anos 1980, o discurso educacional foi dominado pela dimensão sociopolítica ideológica da prática pedagógica (NUNES, 2001). Nesse período da formação de professores, as medidas pautavam-se no modelo da racionalidade técnica, que concebia o professor como um mero aplicador de técnicas e de recursos didáticos. Para Tardif (2002), o professor era considerado um “idiota cognitivo”. Nesses moldes, pouco foi realizado para sua formação efetiva, e nada que estimulasse uma reflexão nesse processo de formação, que também se apresentava descontextualizado e nos padrões tradicionais. Todo processo de aprendizagem deve ser composto por reflexões e, corroborando isso, Tardif (2002, p. 174) ressalta que “o processo de formação do ser humano reflete exatamente todas as possibilidades e todas as matizes dos seres que somos”. O conceito da formação é algo complexo para o indivíduo, inicia-se em seu nascimento e reproduz comportamentos e normas que irão orientar a sua vida e expressar o que lhe é subjetivo (TEIXEIRA, 2004).

Em relação à formação de professores, Nóvoa (1992) pontua que ela deve fugir da proletarização e se voltar para a profissionalização do professor, em um processo em que os docentes reformulem a regulamentação da profissão, elevem os seus rendimentos e aumentem a autonomia sobre suas atividades. O autor assinala ainda que, para essa formação autônoma, são necessárias três dimensões essenciais: preparação acadêmica, preparação profissional e prática profissional (NÓVOA, 1992).

A idealização de um modelo teórico para orientar a formação do professor levou a uma concepção negativa da prática pedagógica e dos saberes docentes (NÓVOA, 1992). Atualmente, o enfoque investigativo para a renovação da formação de professores, no âmbito dos cursos de licenciatura, tem ocorrido por tendências contemporâneas e movimentos internacionais, direcionados à valorização da prática docente e dos saberes didático-metodológicos necessários a essa prática (NUNES, 2001; TEIXEIRA, 2004). Teixeira (2004) assevera que essas abordagens buscam fugir do racionalismo técnico e do ensino tradicional, centrado no professor detentor e transmissor do conhecimento, e segue ao encontro da racionalidade prática docente, que nas atuais pesquisas passa a ser entendida como eixo central do currículo da formação de professores, constituindo-se como o ponto de partida do currículo de formação.

As novas tendências estimulam o desenvolvimento de competências e saberes docentes (TARDIF, 2002; PIMENTA; GHEDIN, 2002) que advêm da reflexão sobre a prática do professor. Esses saberes, aliados à crítica, levam o professor a ressignificar sua atuação e a relativizar constantemente seus conhecimentos (SCHÖN, 2000; PIMENTA; GHEDIN, 2002; ZEICHNER, 2008). Nesse sentido, as novas tendências buscam a formação da identidade docente (MARCELO, 1998; PIMENTA, 2005; CARDOSO, 2010; FERREIRA, 2011), indissociável da identidade pessoal e profissional do professor (NÓVOA, 1992). Desse modo,

  • A formação deve estimular uma perspectiva crítico-reflexiva, que forneça aos professores os meios de um pensamento autônomo e que facilite as dinâmicas de autoformação participada. Estar em formação implica um investimento pessoal, um trabalho livre e criativo sobre os percursos e os projectos próprios, com vista à construção de uma identidade, que é também uma identidade profissional (NÓVOA, 1992, p. 14).

Na mesma perspectiva do ensino reflexivo, a construção dos saberes da docência por meio da reflexão escrita (diários) advêm do conhecimento extraído das experiências práticas, que na formação inicial são desenvolvidos durante os estágios, mas acompanham o profissional professor por toda a vida.

  • Correspondência

    Glaucia Britto Barreiros


    Dulcinéia Ester Pagani Gianotto


  • Download do artigo

    O diário de aula como instrumento de reflexão na Formação Inicial de Professores de Ciências Biológicas Download

  • Cadastre-se

    Caso queira obter informações sobre a Revista “Formação Docente”, cadatre-se e receba atualizações periódicas sobre a produção acadêmica na área da formação de professores. Cadastre-se

  • Latindex
  • sumarios.org
  • BBE
  • CAPES

    Portal de Periódicos/Qualis

  • Diadorim

    Deadorim