Volume 07 / n. 13 ago. - dez. 2015: Artigos

“Nova Filantropia”: negócios e mercados na formação continuada de professores

foto de Sandra Cristina Vanzuita Silva

Sandra Cristina Vanzuita Silva

Possui graduação em Pedagogia, Mestrado e Doutorado em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí. Atualmente é professora da Universidade do Vale do Itajaí e leciona as disciplinas de Prática Docente Projetos Integrados, Jogos e Brincadeiras na Infância, Estudo Temáticos: Educação Infantil e Estágio Supervisionado: Pesquisa da Prática Pedagógica. Tem experiência na área de Educação e trabalha com a formação continuada dos professores da Educação Básica, atuando principalmente com os seguintes temas: Educação Infantil, linguagem oral e escrita, alfabetização, propostas curriculares para a Educação Infantil, metodologia de projetos, organização e gestão dos espaços educativos. É pesquisadora do Grupo de Pesquisa Contextos Educativos e Prática docente.

Resumo

A oferta de cursos de formação continuada para professores tem aumentado nas últimas décadas. Entre os fatores desse crescimento, estão: as novas competências exigidas no desenvolvimento da prática docente, pressões advindas de grupos sociais e ordenamentos estruturais do mundo contemporâneo traduzidas em “heterarquias”, redes que combinam diferentes instituições que cooperam entre si, influenciando as políticas para a área educacional. Outro fator é a geração de empregos. No setor educacional, há oferta e produção de uma variedade de produtos, entre eles, a formação continuada de professores é um comércio lucrativo para instituições privadas. Assim, o presente artigo discute as implicações decorrentes de um modelo de negócios envolvendo instituições privadas e públicas ofertando formação continuada para professores. Para compreensão desse fenômeno, apontamos como as políticas educacionais favorecem esse crescimento, apresentamos as redes de entrelaçamento entre o setor público e a iniciativa privada e discutimos elementos para repensarmos uma formação continuada que contribua para o crescimento profissional dos professores.

ABSTRACT
The offer of continuing teacher education courses has increased in recent decades. Some factors of this growth are: the new skills required in the development of teaching practices; pressures from social groups and structural frameworks of the contemporary world translated into ‘heterarchies’; networks that combine different institutions that cooperate with each other, influencing policies for the education area. Another factor is the creation of jobs. In the educational sector, there is the offer and production of a variety of products, including the continuing teacher education, a lucrative market for private institutions. Thus, this paper discusses the implications of a business model involving private and public institutions that offer continuing education for teachers. To understand this phenomenon, we point out how the educational policies favor this growth, we present the networks between public sector and private initiative and we discuss elements to rethink a continuing education that contributes to the professional development of teachers.


Palavras-chave

Formação de Professores // Mercado // Políticas Públicas

Introdução

Pesquisas produzidas na área da educação têm empreendido esforços para analisar os cursos de formação continuada de professores (GATTI, 2008, 2010; NÓVOA, 2009; ZEICHNER, 2000). As referidas pesquisas trazem à tona a seguinte questão: os investimentos, os programas e a oferta dos cursos de formação continuada aumentam significativamente, porém a ação docente pouco se modifica. Gatti (2008) sinaliza que, na última década, além do crescimento dos referidos cursos, outra questão se coloca: um número sem-fim de iniciativas denominadas educação continuada são propostas, mas não há, segundo a autora, uma noção precisa do conceito, o que abre um leque de possibilidades. A autora afirma, também, que algumas agências consideram formação continuada desde cursos oferecidos após a graduação até qualquer tipo de atividade que venha a contribuir para o desempenho profissional, tais como: horas de trabalho coletivo na escola, reuniões pedagógicas, trocas cotidianas com os pares, participação na gestão escolar, congressos, seminários, cursos de diversas naturezas e formatos, oferecidos pelas Secretarias de Educação ou outras instituições.

Souza (1995) discute, em sua pesquisa, que a maioria dos países latino-americanos vem sofrendo desde a década de 1990 uma grande pressão, principalmente de agências internacionais, para promover seu desenvolvimento econômico. Para atingir suas metas, esses países necessitam investir em novas formas de organização de trabalho, mas, principalmente, trabalhar com a ideia de qualificar pessoal para enfrentar de forma competente os novos meios de organização da produção. Na área educacional, não é diferente – esses fatores influenciam o crescimento da formação continuada para professores, pois esses cursos apresentam-se como uma alternativa satisfatória para qualificar o ensino e a aprendizagem. Assim, a procura por cursos de formação continuada intensifica-se. Os profissionais necessitam tornar-se mais competitivos e qualificados, o que gera crescimento da oferta tanto em instituições públicas quanto privadas. O que vemos surgir é um número de instituições privadas, oferecendo principalmente cursos de especialização lato sensu, oferecidos em espaços improvisados e a baixos preços.

Além da qualificação, há outra questão. Abrahão (2011) afirma que investir em educação é bom não só para aumentar o capital cultural da sociedade e dos cidadãos, mas também para fazer a roda da economia girar. Segundo o pesquisador, os economistas apontam que os gastos em educação e saúde são superiores a outras atividades e que um dos fatores que contribuem para isso é a alta geração de empregos da educação, comparada ao setor agrícola altamente mecanizado. Por isso, a criação de políticas que fomentam a formação continuada de professores, principalmente na educação infantil e anos iniciais, tem aumentado significativamente desde a década de 1990.

Na maioria dos textos dessas políticas, há uma forte tendência, direta ou indireta, na indicação de a qualidade do ensino estar relacionada somente à formação continuada, reduzindo outras dimensões igualmente preponderantes (BREJO, 2012). Gatti, Barretto e André (2011) ainda salientam que as decisões que o governo toma em relação à educação definem a importância política atribuída a esse setor da ação governamental. A forma como são estabelecidas essas políticas e postas em ação – sua articulação, ou não, entre si e com políticas mais amplas, seu financiamento e gerenciamento – “[…] oferece indícios da sua adequação e informa sobre o tipo de impacto que poderão ter no desenvolvimento de outras políticas e programas governamentais” (GATTI; BARRETTO; ANDRÉ, 2011, p. 13).

Considerando as proposições dos autores citados anteriormente, o presente artigo busca refletir o crescimento da oferta e do mercado de cursos de formação continuada para professores. Para tanto, primeiramente, apontamos como as políticas educacionais favoreceram esse crescimento. Em seguida, apresentamos as redes de entrelaçamentos entre as políticas públicas e as iniciativas privadas e, por fim, discutimos outros elementos que poderão sugerir possibilidades de repensarmos uma formação continuada que contribua para o crescimento profissional dos professores.

Mercado, políticas e formação continuada de professores

A década de 1990, influenciada pela economia globalizada, pode ser considerada um tempo de muitas transformações para o cenário educacional brasileiro, principalmente no âmbito das políticas públicas. Frigotto e Ciavatta (2003, p. 95) apontam que, nesse período, se acelerou o processo de modernização das nações e o “documento produzido pelos representantes dos países do capitalismo central, conhecido como Consenso de Washington, balizou a doutrina do neoliberalismo ou neoconservadorismo que viria a orientar as reformas sociais nos anos de 1990”.

De acordo com Deo (2007), no Brasil, as ideias propostas no Consenso de Washington foram traduzidas pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), em um documento intitulado Livres para crescer – proposta para um Brasil moderno (FIESP, 1990). Nele, a FIESP expõe o ideário da entidade e as propostas concretas que deveriam ser tomadas rumo à inserção do Brasil moderno na nova ordem econômica do mundo. Segundo o autor, o livro foi elaborado por uma equipe de técnicos e consultores e passou a ser a cartilha político-econômica da entidade na luta pelas mudanças que reivindicavam como necessárias e essenciais para o país. “Já na apresentação e na introdução, a FIESP defende seus princípios fundamentais, quais sejam, a defesa da propriedade privada e da livre concorrência” (DEO, 2007, p. 53).

Segundo Siffert Filho (1998), os anos 1990 apresentaram-se com uma economia aquecida, impulsionada pelo processo de abertura comercial. Além disso, nesse período, o autor também afirma que é possível verificar a introdução de novos padrões de consumo e produção, a redefinição da atuação do Estado e um intenso programa de privatizações. Para o autor, a economia brasileira passou, nesse período, por uma estabilização monetária, o que aumentou a atratividade da economia nacional, com a expansão do mercado interno, em meio a um cenário externo de profundas transformações na economia mundial.

Souza (2006) aponta três fatores que impulsionaram essas transformações, principalmente nos países latino-americanos. O primeiro foi a adoção de políticas restritivas de gastos, mudando o desenho e a execução, principalmente daquelas políticas que atingiam o setor econômico e social. Um segundo fator dizia respeito à adoção, pelo Estado, de ajustes fiscais, o que implicou o planejamento de orçamentos equilibrados entre receita e despesa e restrições cada vez maiores à intervenção na economia e nas políticas sociais. Já o terceiro fator concentrava-se na falta de habilidade dos governantes de formar coalizões políticas capazes de minimizar a questão de como promover políticas públicas capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico e a inclusão social de grande parte de sua população.

Considerando o que dizem os autores, o campo da economia crescia naquela época e estava bem aquecido, porém era preciso que as nações mais desenvolvidas criassem mecanismos eficientes que pudessem orientar e alavancar o tão sonhado desenvolvimento dos países mais pobres. Por isso, a ordem era intensificar as reformas econômicas e criar políticas nos campos social, da segurança, da saúde e, principalmente, educacional, transpondo para esse setor a responsabilidade de resolver os problemas de ordem econômica e social. De acordo com Garcia (2010), esse fenômeno não é novo; as reformas ocorridas no século IX, tanto na Europa quanto nos países da América do Norte, tinham como objetivo a construção de um estado moderno que criasse todo um aparato legal para cuidar dos limites territoriais e das suas populações, garantindo o progresso e, acima de tudo, o desenvolvimento.

  • Correspondência

    Sandra Cristina Vanzuita Silva


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