Volume 07 / n. 13 ago. - dez. 2015: Artigos

Política e formação continuada de professores para a pesquisa na e com a escola do campo

foto de Maria Iolanda Fontana

Maria Iolanda Fontana

Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná e em Educação Artística pela Faculdade de Educação Musical do Paraná. Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Doutora em Educação pela Universidade Tuiuti do Paraná. Atuou na Educação Básica, como pedagoga escolar na rede pública municipal, estadual e privada, com experiência em todos os níveis de ensino. Atualmente é coordenadora do curso de Pedagogia e professora do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Tuiuti do Paraná. Tem produção com ênfase em políticas educacionais e práticas pedagógicas, atuando principalmente nos seguintes temas: política educacional, curso de Pedagogia, formação de professores, pesquisa na prática pedagógica e currículo escolar.

Resumo

Este artigo analisa a “formação em pesquisa” no âmbito do Programa Observatório da Educação (Obeduc), vinculado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e as repercussões dessa formação no trabalho de professores da escola do campo. Defende-se a efetividade de políticas públicas para a pesquisa na formação e no trabalho de professores, como atividade constituinte de sua identidade e profissionalidade, isto é, como competência necessária à produção do conhecimento e à práxis pedagógica emancipadora. Adota-se a dialética na concepção do materialismo histórico como método de investigação, com o intuito de captar as contradições que determinam a realidade das categorias de análise “pesquisa”, “formação” e “trabalho docente”. Constata-se que a formação continuada no âmbito do Obeduc favoreceu a pesquisa e a produção do conhecimento de professores da universidade na e com os professores da escola do campo. No entanto, faltam políticas públicas que aliem a pesquisa na formação à dimensão do trabalho dos profissionais da educação, condição que demanda investimentos na valorização docente.

ABSTRACT
This article analyzes “education in research” in the context of the Education Observatory Program (OBEDUC in the Portuguese acronym) linked to the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (CAPES in the Portuguese acronym) and the impacts of this form of education on the practices of teachers in rural schools. The article defends the effective implementation of public policies for education in research and in teachers´ work as research is an activity that constitutes their identity and professionalism, that is, research is a necessary competence for the production of knowledge and for emancipatory pedagogical practices. The investigation adopts a historical-materialist perspective in order to understand the contradictions that determine the reality of the categories of analysis “research”, “education” and “teacher work”. The investigation demonstrates that continuing education in the context of OBEDUC favored the development of research and the production of knowledge by university professors at and with teachers from rural schools. Nevertheless, there is a lack of public policies that link research in teachers’ education to the dimension of teachers’ work, a condition that demands investments to value teachers.


Palavras-chave

Formação Continuada de Professores // Políticas Públicas

Introdução

A complexa realidade educacional brasileira reflete a carência de políticas públicas efetivamente democráticas para a sociedade e exige, permanentemente, o compromisso de pesquisadores com a análise crítica de suas repercussões e contradições no âmbito teórico e empírico da educação. A adoção de políticas públicas neopragmatistas, consonantes com o papel do Estado regulador e com as orientações de organismos multilaterais, tem imprimido um caráter meramente instrumental à formação inicial e continuada dos profissionais da educação. Essa perspectiva de formação contrapõe-se à formação científico-cultural do professor, para pesquisar e produzir conhecimentos mediados por consistente formação teórica, conforme reivindicação do movimento dos educadores brasileiros e entidades representativas. Problematiza-se, neste artigo, a necessidade de políticas públicas para pesquisa na formação e no trabalho de profissionais da educação básica, que elevem a condição científica e cultural desses profissionais, para uma competente intervenção político-pedagógica em processos educativos escolares. Dessa forma, concretamente, pode-se cumprir a indissociabilidade pesquisa-ensino, que torna o processo pedagógico mais competente pela força do saber científico que se elabora, refletindo a realidade e atendendo-a com a maior pertinência.

Entende-se que a demanda pela universalização da educação básica frente às dificuldades estruturais e pedagógicas do ensino público brasileiro requer dos educadores a apropriação dos meios de produção do conhecimento-pesquisa, na perspectiva da práxis criativa. Essa condição favorece a construção do conhecimento transformador e supera a intervenção pedagógica nos estreitos limites da racionalidade técnica.

De acordo com Vázquez (2007, p. 33), “a consciência comum da práxis tem de ser abandonada e superada para que o homem possa transformar de forma criadora, isto é, revolucionariamente, a realidade”. A práxis, na concepção do materialismo histórico, significa a “atividade consciente objetiva mais elevada, bem como a vinculação teórica mais profunda com a práxis real” (VÁZQUEZ, 2007, p. 29). A pesquisa realizada pelos profissionais da educação básica, nessa concepção de práxis, pode não só engendrar processos coletivos de resistência e de superação de ideologias hegemônicas que impedem a real democracia na escola e na sociedade, como também contribuir para a educação escolar, a partir das reais demandas sociais que se mostram por meio da pesquisa em ação desenvolvida pelo professor. Por isso a necessidade de políticas para pesquisa na formação e no trabalho do docente da educação básica, de modo a promover uma nova identidade profissional e desencadear avanços no trabalho pedagógico nas escolas, decorrentes da construção do conhecimento crítico, mediado pela pesquisa.

Então, a questão a ser resolvida é elevar a consciência dos profissionais da educação ao nível filosófico, pela atividade reflexiva da pesquisa em ação, para superar ideias, valores, juízos, preconceitos, ou seja, ideologias que estão na cotidianidade da sociedade capitalista e que obscurecem sua verdadeira consciência de práxis revolucionária, em favor de uma sociedade igualitária.

Acredita-se que a pesquisa desenvolvida pelos professores da e na escola tem vantagens em relação às pesquisas realizadas por pesquisadores externos a ela, principalmente se realizada na concepção da pesquisa-ação ou investigação-ação, que envolve a participação do coletivo de professores no processo de problematização e desenvolvimento da pesquisa. Também porque a produção do conhecimento, que é histórica e, por isso, provisória, é socializada no espaço escolar e, então, pode elevar o nível de consciência coletiva para a compreensão e solução dos problemas vividos, desencadeando, numa perspectiva dialética, novas problematizações e novos conhecimentos.

Como argumentam Diniz-Pereira e Lacerda (2009), a pesquisa sobre a escola e os professores mostra insuficiências para o conhecimento do cotidiano escolar e a necessária aproximação entre universidade e escola, sendo necessário repensar o lugar do pesquisador, questionar as abordagens metodológicas empregadas e, acima de tudo, abandonar qualquer tentativa de explicar as práticas, para, diferentemente disso, tentar compreender os significados que as perpassam. Os autores defendem as pesquisas na e com a escola, por meio da investigação coletiva:

  • Os professores e as professoras, antes tomados na qualidade de meros ‘objetos’, passam a ser vistos como sujeitos, participantes do processo de investigação. Preocupações epistemológicas levam os pesquisadores a questionar o conhecimento que produzem, sua relevância e capacidade de contribuir com a escola por meio dos resultados de suas investigações. Assim, de objeto de pesquisa, a prática docente passa a ser compreendida como espaço tempo de formação e de investigação coletiva. (DINIZ-PEREIRA; LACERDA, 2009, p. 1231-1232, grifo do autor).

Na perspectiva de instituir um coletivo de pesquisadores para a investigação na e com a escola de educação básica, faz-se neste trabalho a análise do projeto de pesquisa desenvolvido pela autora, a partir do ano de 2011 até o ano de 2014, vinculado ao Programa Observatório da Educação (Obeduc).

Pretende-se, neste trabalho, destacar a relevância do Obeduc, pela proposta de formação em pesquisa e pelos recursos viabilizados para o desenvolvimento de projetos de pesquisadores vinculados ao programa, como também discutir o potencial da investigação-ação para a formação continuada de professores pesquisadores na escola do campo e para a atualização das práticas pedagógicas de alfabetização e letramento.

Metodologia

A fim de captar o movimento dos fenômenos da realidade objetiva de modo inter-relacionado, toma-se como base a lógica dialética, que tem como princípio a unidade entre o abstrato e o concreto no pensamento teórico-científico. “A dialética é, antes de tudo, um meio de incremento do conhecimento real por meio da análise crítica do material factual concreto, um método de análise concreta do objeto real, dos fatos reais” (KOPNIN, 1978, p. 87). Entende-se que essa concepção metodológica favorece a leitura e a interpretação dos condicionantes estruturais, que refletem a realidade das políticas para a pesquisa na formação e no trabalho de profissionais da educação, em sua totalidade de determinações e contradições.

A análise dialética das categorias – políticas públicas, pesquisa, formação e trabalho – contempla a investigação sobre a efetividade do Obeduc na formação em pesquisa para o trabalho do professor da escola do campo. Conforme explica Cury (1992), as categorias permitem compreender o processo da realidade e o desvendamento da estrutura das relações existentes entre os fenômenos e, a partir dessa compreensão, produzir conceituações comprometidas com uma visão de mundo.

A formação em pesquisa vinculada ao Obeduc foi analisada tendo como referência o processo de investigação-ação desenvolvido pela autora em uma escola municipal pública do campo, situada no município de Campo Magro, Região Metropolitana de Curitiba (PR), selecionada em função de ter obtido o menor Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do município no ano de 2009. O objetivo foi destacar as contradições, os limites e as contribuições constatados no processo de formação continuada dos professores, no âmbito do Obeduc, para o desenvolvimento da investigação-ação e produção do conhecimento coletivo na escola do campo. Investigaram-se as condições de letramento dos professores e a prática pedagógica coerente com os princípios da concepção de educação do campo. Os dados foram obtidos com base nos relatórios de campo registrados pela pesquisadora, compreendendo o período de março de 2011 a julho de 2014, e também por meio de entrevistas e questionários aplicados para nove professores da escola participantes do projeto.

  • Correspondência

    Maria Iolanda Fontana


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