Volume 07 / n. 13 ago. - dez. 2015: Artigos

Um estudo sobre as formas de organização da formação pedagógica em cursos de licenciatura

foto de Taniamara Vizzotto Chaves

Taniamara Vizzotto Chaves

Professora da Educação Básica, Técnica e Tecnológica atuante no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha, RS. Licenciada em Física, Mestre e Doutora em Educação pela UFSM. Tem experiência na área de Física, com ênfase em Ensino de Física e Educação atuando principalmente nos seguintes temas: Formação inicial e continuada de professores, Currículo e saberes docentes, Planejamento didático e Ensino de física para a Educação Básica. É coordenadora e líder do Grupo de Pesquisa Emancipação sem Fronteiras; Formação Inicial e Continuada de Professores.

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Eduardo Adolfo Terrazzan

Professor atuante junto ao Programa de Pós –Graduação em Educação da UFSM. Licenciado em Física, Mestre e Doutor em Educação pela USP. Atua nas seguintes temáticas: Inovações Educacionais e Práticas Escolares; Trabalho Docente, Aprendizagem da Docência e Desenvolvimento Profissional de Professores; Organização Curricular, Conteúdos de Ensino e Resolução de Problemas; Processos Formativos de Professores e Desenvolvimento Institucional de Unidades Escolares; Incidência de Políticas Educacionais nas Redes Públicas Escolares. É bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, categoria 1D, e coordenador-líder do Grupo de Estudos, Pesquisas e Intervenções INOVAEDUC – Inovação Educacional, Práticas Educativas e Formação de Professores.

Resumo

A Formação Pedagógica (FP) realizada, oferecida e proporcionada nos cursos de formação inicial de professores é uma componente fundamental na preparação para o exercício da docência. Entretanto, historicamente, o que se observa é que a FP sempre teve um caráter secundário em relação à formação para a área disciplinar. A instituição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores para atuação na Educação Básica (DCNs), decorrente da Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, fez com que a FP assumisse maior relevância na formação inicial de professores, resultando em aspectos como a instituição de um quinto da carga horária dos cursos para disciplinas pedagógicas. Esta pesquisa documental teve como objetivo compreender as formas de organização da FP em sete cursos de licenciatura de uma universidade federal situada na região Sul do Brasil. Os resultados sinalizam que: a preparação e o exercício da docência não se constituem como principais ou únicos focos dos cursos analisados; o modelo “3 +1” continua vivo e latente na organização dos cursos analisados; e as disciplinas e conhecimentos relacionados à FP continuam sendo secundarizados. De maneira geral, os cursos analisados carecem de identidade docente e a FP ainda se configura como um apêndice na formação docente.

ABSTRACT
The Teacher Training (FP) held, offered, provided in Initial Teacher Training courses is a key component in preparation for the exercise of teaching. However, historically, what is observed is that the FP has always had a secondary character in relation to the Disciplinary Training Area. The establishment of the National Curricular Guidelines (DCN) for Teacher Training acting in Basic Education, due to the LDB/96, made the FP assume greater prominence in Initial Teacher Training resulting in aspects such as the establishment of a load fifth Hours of courses teaching disciplines. This documentary research aimed at understanding the forms of organization of FP in seven undergraduate programs of a Federal University located in southern Brazil. The results indicate that the preparation and the teaching profession does not constitute as the main or sole focus of the analyzed courses; the model “3 +1” is still alive and latent in the organization of the analyzed courses and disciplines and knowledge related to FP remain second plane. Overall, the analyzed courses lack of teacher identity and FP still represents an appendix in teacher education.


Palavras-chave

Cursos de licenciatura // Formação de Professores // Formação pedagógica // Saberes Docentes

Introdução

Este trabalho relata os principais resultados encontrados a partir de uma pesquisa de doutorado desenvolvida no Curso de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), motivada por situações vivenciadas pela pesquisadora no âmbito de cursos de formação de professores de instituições de ensino superior em que atua na área da formação docente.

Em diferentes momentos, vislumbramos que os saberes relacionados à área da Formação Pedagógica (FP) e à Área Disciplinar de Referência para a Matéria de Ensino (ADRME) são trabalhados de forma desarticulada nos diferentes cursos de licenciatura. Além disso, os saberes relacionados à FP se caracterizam por serem secundarizados em relação aos saberes relacionados à ADRME.

Algumas pesquisas do campo da formação de professores (DIAS-DA-SILVA, 2005; GATTI; BARRETO, 2009; GATTI; BARRETO; ANDRÉ, 2011; PEREIRA, 2000) apontam que, embora as diretrizes/recomendações relacionadas à formação de professores para atuação na educação básica tenham se modificado, na perspectiva de articulação entre a teoria e a prática, aumento da carga horária de disciplinas relacionadas à FP, práticas e estágios supervisionados, ainda persistem os problemas relacionados a esses aspectos na formação inicial de professores.

Gatti e Nunes (2009) realizaram uma pesquisa em que procuraram analisar o que tem sido proposto como disciplinas formadoras nas instituições de ensino superior, considerando os cursos presenciais de Licenciatura em Pedagogia, Língua Portuguesa, Matemática e Ciências Biológicas. As autoras procuraram avaliar a aderência desses cursos de formação inicial de professores aos pressupostos e às normatizações propostos pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) na última década, a partir da Lei nº 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB).

O referido estudo considerou o conjunto de disciplinas ofertadas e suas ementas, em uma amostra nacional de instituições formadoras de professores, levando em conta o tipo de instituição, a dependência administrativo-financeira e a região.

Seus resultados mostram, entre outras coisas, que quanto à formação de professores para os anos iniciais da educação básica, realizada predominantemente nas Licenciaturas em Pedagogia, o currículo proposto tem uma característica fragmentária, apresentando um conjunto disciplinar bastante disperso. Apontam, ainda, que a proporção de horas dedicadas às disciplinas referentes à formação profissional específica (de natureza sociológica, psicológica ou outra, com associação, em alguns casos, às práticas educacionais) fica em torno de 30%, sendo o restante (70 %) para outros tipos de matéria (GATTI; NUNES, 2009).

As autoras afirmam que problemas semelhantes são encontrados nas demais licenciaturas. Especificamente nas Licenciaturas em Letras e Ciências Biológicas, a maioria da carga horária das disciplinas apresentadas refere-se a conhecimentos disciplinares da área e apenas uma pequena parcela é dedicada a disciplinas relacionadas à formação para a docência, embora o objetivo desses cursos seja formar professores. Nos cursos de Matemática, a relação de proporção entre conhecimentos disciplinares da área e conhecimentos relacionados à docência é mais equilibrada (GATTI; NUNES, 2009).

Na pesquisa, também não foi observada uma articulação entre as disciplinas de formação específica (conteúdos da área disciplinar) e de FP (conteúdos para a docência), ficando visível nessas estruturas curriculares a permanência, na maioria desses cursos, do modelo “3 + 1”, que, em teoria, já vem sendo apontado como superado.

Em outro estudo, Pereira (2000) afirma que os principais dilemas presentes nas licenciaturas brasileiras são: a separação entre disciplinas relacionadas à ADRME e à FP; a dicotomia entre o bacharelado e a licenciatura (decorrente da desvalorização do ensino na universidade, inclusive pelos docentes da área da educação); e a desarticulação entre a formação acadêmica de professores e a realidade das escolas.

Mesmo que as propostas de alterações estabelecidas pelas diretrizes para a formação de professores decorrentes da LDB visem a construir cursos com identidade própria, procurando superar as clássicas dicotomias teoria-prática e licenciatura-bacharelado inspiradas numa abordagem de competências,

  • a rigor a maioria das licenciaturas continua a perpetuar o chamado modelo 3 +1, sendo este ‘1’ o único ano destinado aos conteúdos de natureza pedagógica, reduzido ao mínimo estabelecido em lei, restrito, segundo a autora, ao oferecimento de quatro disciplinas: Estrutura e Funcionamento do Ensino, Psicologia da Educação, Didática e Prática de Ensino (DIAS-DA-SILVA, 2005, p.386).

Desse modo, as discussões relacionadas às disciplinas responsáveis pela formação para a docência em cursos de licenciatura têm sido direcionadas mais ao “loteamento de horas na grade curricular” (DIAS-DA-SILVA, 2005, p. 388) do que propriamente aos saberes necessários à formação para a docência e à importância desses saberes para a formação do professor, trazendo consequências desastrosas para a construção do conhecimento dos futuros professores.

A nosso ver, a dicotomia entre a FP e a formação para a ADRME, ou seja, a secundarização da FP em relação à formação para a ADRME, não foi superada com a instituição de novas diretrizes curriculares para os cursos de licenciatura e a reestruturação dos seus currículos. Essa constatação abre precedentes para que sejam repensados os currículos sobre a formação de professores e para que novas reflexões e estratégias sejam propostas na perspectiva de superação dessa situação.

Diante do contexto da realidade da FP dos cursos de licenciatura, delineamos e desenvolvemos nossa pesquisa, com o objetivo de compreender as formas de organização da FP em cursos de licenciatura de uma universidade federal situada na região Sul do Brasil. O objetivo proposto consolidou-se no seguinte problema de pesquisa: que possibilidades se apresentam para uma FP aos futuros professores nas atuais estruturações curriculares de cursos de licenciatura da universidade investigada?

Referencial teórico

Autores como Garcia (1995), Gauthier et al. (1998), Pimenta (1998, 2002, 2005), Shulman (1986), Tardif (2002), Tardif, Lessard e Lahaye (1991), entre outros, desenvolveram teorias ou tipologias relacionadas aos saberes docentes necessários à formação de professores. Com base nessas teorias e tipologias, procuramos estabelecer uma compreensão acerca do conceito de FP.

Entendemos que a FP é composta, de maneira geral, por saberes docentes relacionados às ciências da educação e, de maneira mais específica, por saberes docentes relacionados ao ensino da matéria. Essas duas categorias de saberes docentes são tomadas como base para a FP justamente pelo caráter que possuem, ou seja, por estarem diretamente relacionadas ao processo de ensino, sendo compostas, portanto, por conteúdos que informam, perpassam ou permeiam a docência, como no caso dos saberes relacionados às disciplinas das ciências da educação, ou por saberes que dizem respeito diretamente à docência, no momento da transposição didática (CHEVALLARD, 1991), como no caso dos saberes relacionados ao ensino da matéria.

Conforme Santos (2010), existem três instâncias que definem a atuação da docência na educação formal: a sala de aula, para a qual todos os professores têm uma formação básica, pautada no trabalho didático; a escola; e a rede de ensino.

  • Correspondência

    Taniamara Vizzotto Chaves


    Eduardo Adolfo Terrazzan


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