Volume 06 / n. 10 jan. - jul. 2014: Artigos

Programa Mais Educação: novos caminhos, diferentes possibilidades para a formação de professores

foto de Marilia Salles Bastos

Marilia Salles Bastos

Graduou-se em Pedagogia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS), em 2013. Atualmente é estudante do curso de Educação Especial Licenciatura Plena (UFSM) e do curso de pós-graduação Especialização em Gestão Escolar no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha (Campus Júlio de Castilhos/RS). É também Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/UFSM/CNPq) no Grupo de Pesquisa Formação de Professores e Práticas Educativas: Ensino Básico e Superior (GPFOPE/UFSM).

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Doris Pires Vargas Bolzan

Mestre e Doutora em Educação (UFRGS). Especialista em Psicopedagogia Terapêutica (CEMPPOA). Graduada em Pedagogia (UFRGS). Professora associada 4 do Departamento de Metodologia do Ensino no Centro de Educação – UFSM. Pesquisadora Produtividade do CNPq (Pq2). Atua na Pós-Graduação na linha de Formação, Saberes e Desenvolvimento Profissional. Líder do GPFOPE, Grupo de Pesquisa Formação de professores e práticas educativas: educação básica e superior. Seus temas de estudo são: aprendizagem docente, formação de professores, desenvolvimento profissional docente, pedagogia universitária, alfabetização de crianças, jovens e adultos, cultura escrita na escola, resiliência docente.

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Giovana Medianeira Fracari Hautrive

Graduada em Educação Especial pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS) (1999), possui especialização em Educação Infantil pelo Centro Universitário Franciscano (2003) e mestrado em Educação pela UFSM (2011). Atualmente é estudante no Programa de Pós-Graduação em Educação, no âmbito de doutorado. É professora na Escola Estadual de Educação Especial Dr. Reinaldo Fernando Cóser – escola para surdos – onde atua como coordenadora pedagógica dos anos iniciais. Participante e pesquisadora do Grupo Formação de Professores e Práticas Educativas: Ensino Básico e Superior (GPFOPE/UFSM). Docente com regime de trabalho parcial no Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Tem experiência na área da Educação, com ênfase em Educação Especial, atuando principalmente nos temas: alfabetização, surdez, LIBRAS e formação de professores.

Resumo

Este artigo é o resultado do trabalho desenvolvido junto aos estudos do Grupo de Pesquisa Formação de Professores e Práticas Educativas: Educação Básica e Superior (GPFOPE) por meio do projeto Cultura Escrita: Saberes e Fazeres Docentes em Construção vinculado à Universidade Federal de Santa Maria. As atividades deste projeto uniram-se ao Programa Mais Educação com o intuito de desenvolver atividades diversificadas de leitura e escrita na Oficina de Letramento. Como objetivo geral, buscamos compreender as concepções docentes acerca do Programa Mais Educação e reconhecer como as atividades da Oficina de Letramento repercutem na aprendizagem da lectoescrita em crianças do 1º ciclo de alfabetização do ensino fundamental. Assim, o estudo foi organizado de modo a sustentar teoricamente as análises nas discussões sócio-históricas, utilizando os documentos que fundamentam o Programa Mais Educação. A metodologia que escolhemos para desenvolver a pesquisa é a abordagem qualitativa de cunho etnográfico, utilizando os diários de aula e a entrevista semiestruturada como instrumentos de coleta dos dados. Nos achados da pesquisa, evidenciamos como categoria de análise o Programa Mais Educação: novos caminhos, diferentes possibilidades, constituída pelo conhecimento docente sobre o Programa, que caracteriza-se pela forma como as professoras e a monitora foram apresentadas a ele.


Palavras-chave

Alfabetização // Concepções Docentes // Programa Mais Educação

APRESENTAÇÃO

A pesquisa aqui apresentada está vinculada ao Grupo de Pesquisa Formação de Professores e Práticas Educativas: Educação Básica e Superior (GPFOPE) por meio do projeto Cultura Escrita: Saberes e Fazeres Docentes em construção, que tem como objetivos: (1) compreender o processo de construção da leitura e da escrita de estudantes dos Sistemas de Ensino Municipal e Estadual em fase de alfabetização; (2) analisar as concepções docentes acerca da alfabetização; (3) problematizar estratégias didático-pedagógicas, de modo a qualificar as práticas de leitura e de escrita desenvolvidas em sala de aula. Essa proposta uniu-se ao Programa Mais Educação com o intuito de desenvolver atividades vinculadas à Oficina de Letramento em uma escola do Sistema Municipal de Ensino de Santa Maria (RS) por meio de atividades diversificadas de leitura e de escrita no decorrer do ano 2013.

O Programa Mais Educação é um Programa do Governo Federal que pretende oferecer educação integral nas escolas e, por meio de uma ação entre as políticas públicas educacionais e as políticas públicas sociais, contribuir para a diminuição da desigualdade social e para a valorização da diversidade da cultura brasileira. As atividades do Programa Mais Educação organizam-se em macrocampos que são fragmentados em diversas oficinas, sendo um deles o de acompanhamento pedagógico, no qual está inserida como uma das atividades propostas a Oficina de Letramento.

Na realidade em que esta pesquisa foi desenvolvida, a oficina foi organizada para dois dias na semana, efetivando as atividades com dois grupos de crianças: grupo A (1º, 2º e 3º ano) e grupo B (4º e 5º ano), sendo destinada uma hora em média para cada grupo, com intervalo de vinte minutos para o lanche.

Buscamos problematizar as influências do Programa Mais Educação no desenvolvimento da lectoescrita de crianças do primeiro ciclo de alfabetização, analisar essas concepções e, consequentemente, compreender a importância de um trabalho em turno integral. Interessava-nos investigar a importância de se haver outras atividades, programas ou projetos na escola capazes de contribuir para o desenvolvimento das crianças na aprendizagem, formação pessoal e social.

A metodologia escolhida para desenvolvermos a pesquisa foi a abordagem qualitativa de cunho etnográfico, por meio da qual buscamos compreender os processos de construção da leitura e da escrita através da observação participante e dos registros realizados no diário de aula das monitoras responsáveis pela Oficina de Letramento. A entrevista semiestruturada auxiliou-nos a “ouvir” as professoras regentes do primeiro ciclo de alfabetização, com o objetivo de compreendermos as influências da Oficina de Letramento no desenvolvimento da aprendizagem da leitura e da escrita dos seus estudantes.

A escola na qual nos inserimos para realizar a pesquisa situa-se no bairro Camobi e recebe crianças nos anos iniciais e anos finais do ensino fundamental. A instituição é mantida pelo Governo Municipal e o perfil da comunidade é carente, considerando-se sua localização e condições socioeconômicas.

O Programa Mais Educação: reflexões pertinentes

O Programa Mais Educação é uma proposta de acompanhamento de crianças dos anos iniciais do ensino fundamental em turno inverso às atividades escolares, com o objetivo de favorecer a integração por meio do atendimento extraescolar. O Governo Federal oferece o Programa de acordo com a Portaria Interministerial n.º 17/2007 e agrega ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Tem como ideal oferecer educação integral, a qual “compreende o ser humano em suas múltiplas dimensões e como ser de direitos […]” (BRASIL, 2007, p. 5), prioritariamente àquelas escolas com IDEB baixo e com estudantes que vivem em situação de vulnerabilidade social. O Programa propõe a expansão dos tempos, espaços e atores em um processo no qual as oportunidades educativas são organizadas e propostas a fim de qualificar a educação. Assim, o Programa Mais Educação “trata-se da construção de uma ação intersetorial entre as políticas públicas educacionais e sociais, contribuindo, desse modo, tanto para a diminuição das desigualdades educacionais, quanto para a valorização da diversidade cultural brasileira” (BRASIL, 2007, p. 7).

A educação integral que acontece por meio do Programa Mais Educação busca contextualizar o local/ambiente onde o estudante reside/vive e estabelecer vínculos com os seus interesses. Além disso, compreende o direito ao aprendizado, à saúde, à vida, à cultura, à liberdade, à dignidade e ao respeito como condição para o viver e conviver em comunidade.

Esse Programa é executado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), conjuntamente com a Secretaria de Educação Básica (SEB), e pelo Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Organiza-se em macrocampos: acompanhamento pedagógico, meio ambiente, esporte e lazer, direitos humanos em educação, cultura e artes, cultura digital, promoção da saúde, educomunicação, investigação no campo das ciências da natureza e educação econômica. Dentro desses macrocampos existem diversas outras atividades para serem desenvolvidas.

A preferência na participação das atividades do Programa é para aqueles que estão em estado de vulnerabilidade social, em situação de risco e sem assistência; para casos de discrepância entre idade e série; e para aqueles que vivenciam situações de evasão e/ou repetência. Desse modo, cada escola deve contextualizar o Programa Mais Educação em seu Projeto Político Pedagógico e em diálogo com a comunidade escolar, mapeando os estudantes que precisam participar das atividades oferecidas. Para o atendimento a esses estudantes, a educação integral conta com os profissionais da educação, educadores populares, estudantes e agentes culturais que atuam como monitores. Esses últimos são, na maioria das vezes, estudantes universitários com formação consoante aos macrocampos propostos. Ao professor comunitário não é atribuída uma descrição definitiva, mas é preciso ter um olhar para as diferentes culturas, saber ouvir e interagir com o público-alvo, acreditar no trabalho coletivo e nas novas ideias. O diálogo deve estar sempre presente entre diretores, funcionários, estudantes e famílias. A educação integral precisa ser debatida em todas as reuniões para que haja compreensão e envolvimento de todos os segmentos da comunidade escolar no desenvolvimento das atividades previstas pelo Programa Mais Educação.

A documentação sobre o Programa destaca que as escolas que desejarem desenvolver a educação integral, e que não possuem o apoio financeiro do Programa Mais Educação, devem procurar adesão tanto no Governo Municipal quanto no Estadual. Em relação à organização da educação integral, ela deve ser seguida conforme o que sugere o Programa Mais Educação, fazendo uma seleção do que se necessita naquele espaço. A educação integral precisa estar arranjada no turno inverso das atividades regulares da escola, exposta no Projeto Político Pedagógico e adaptada às reais condições da instituição.

Para que as atividades aconteçam, é preciso que um professor comunitário seja definido. A ele caberão o planejamento e a organização de uma matriz do currículo, dos recursos e do espaço, bem como a definição do público que irá participar das atividades. Ele será o coordenador do Programa na escola.

Os documentos norteadores do Programa destacam o diálogo com as famílias como elemento importante para que elas se sintam responsáveis e motivadas a acompanhar o envolvimento e rendimento de seus filhos no processo de aprendizagem e formação. Desse diálogo decorre a aprendizagem significativa.

Na escola em que esta pesquisa foi desenvolvida, o Programa Mais Educação foi adotado há mais de quatro anos e funciona no turno inverso da aula. Durante esse turno, são desenvolvidas oficinas de letramento, matemática, recreação, dança, saúde e futsal, nas quais trabalham como monitores estudantes dos cursos de Pedagogia, Educação Especial, Educação Física e Matemática. Quem fica responsável pela parte financeira repassada pelo governo para aplicação no Programa Mais Educação é a diretora da escola. A área pedagógica tem como responsável uma professora, que é a coordenadora do Programa Mais Educação na instituição. O número de crianças atendidas é de cinquenta no turno da manhã e cinquenta à tarde. Elas recebem lanche em ambos os turnos, mas não há almoço. Os materiais utilizados nessas oficinas são jogos disponibilizados pelo Programa e outros confeccionados pelos próprios monitores.

  • Correspondência

    Marilia Salles Bastos


    Doris Pires Vargas Bolzan


    Giovana Medianeira Fracari Hautrive


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