Volume 04 / n. 07 jul. - dez. 2012: Artigos

Professores de Educação Física e seus saberes docentes: a gestão do conteúdo de ensino em questão

foto de José Ângelo Gariglio

José Ângelo Gariglio

Formado em Educação Física (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (1989), especialista em Educação Física Escolar pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais (1994), mestre em Educação pela UFMG (1997) e doutor em Educação pela PUC do Rio de Janeiro (2004). Atualmente é professor da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da mesma universidade. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Teorias da Instrução, atuando nos temas formação de professores, formação de professores de Educação Física, formação de professores da Educação Profissional e Tecnológica, ensino da Educação Física, saberes docentes e currículo. É líder do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar (ProEFE) e membro do GT08 – Formação de Professores da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped). Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo

Este trabalho trata-se de um relato dos achados de uma pesquisa de doutorado que teve como objeto central de estudo analisar os saberes docentes relacionados ao conjunto das operações de que o mestre lança mão para levar os alunos a aprenderem o conteúdo da Educação Física (EF). Tratamos dessa questão sob o ângulo dos objetivos almejados, dos conteúdos e das atividades de aprendizagem, das estratégias de ensino e do planejamento das variáveis referentes ao ambiente educativo no qual os professores pesquisados estavam inseridos. Para isso, levamos em conta a natureza da disciplina escolar lecionada (EF), os ambientes físicos onde o ensino da EF se desenvolve, o material didático que lhe é próprio, os objetivos de ensino específicos a ser alcançados e o tipo de interação estabelecida entre alunos e entre alunos e professores. Para isso, realizamos uma pesquisa qualitativa em uma escola profissionalizante de nível médio e que envolveu três docentes experientes no ensino dessa disciplina na escola (dois homens e uma mulher), diretores, especialistas (pedagogas, psicólogas, assistente social, médico) e alunos de ensino médio profissionalizante. Para efetuar uma descrição densa do trabalho dos professores e da relação desse trabalho docente com as dinâmicas educativas locais, fez-se uso de técnicas de coleta de dados: observação do cotidiano escolar, entrevistas e análise documental.


Palavras-chave

Educação Física // Formação de Professores // Saberes Docentes

Introdução

Os estudos sobre o saber docente ganham força no início dos anos 1980 e certo prestígio na década de 1990, principalmente nos EUA. Essa produção teórica cresce em importância, entre outros motivos, pela constatação da dificuldade da escola em lidar com as novas exigências socioculturais advindas da concorrência internacional decorrente da globalização dos mercados e da crise do papel social da escola, bem como da dificuldade dos sistemas nacionais de ensino em lidar com uma escola de massa. A crise da escola é atribuída, entre outras causas, à fragilidade da profissão docente, especialmente à pouca importância dada à formação dos professores e à dificuldade destes em lidar com as novas e complexas exigências sociais, pedagógicas e culturais. Assim, o que se apresenta como um remédio para os males evidenciados pelos fatores precedentes é o discurso que defende a necessidade de profissionalizar o magistério. (TARDIF et al., 1991, 2000; GAUTHIER et al., 1998)

As pesquisas sobre os saberes docentes surgem como que ligadas à questão da profissionalização do ensino e aos esforços feitos pelos pesquisadores em definir a natureza dos conhecimentos profissionais que servem de base para o magistério. Essa base de conhecimentos para o ensino é definida por Shulman (1986, 1887) como a agregação codificada ou codificável de conhecimentos, habilidades, compreensão e tecnologia, de ética e disposição, de responsabilidade coletiva – assim como um meio para representá-la e comunicá-la. Seria, portanto, preciso que as ciências da educação procurassem compreender mais de perto e, eventualmente, agissem sobre um aspecto que durante muito tempo foi negligenciado pelas pesquisas em educação: a materialidade do trabalho docente na escola.

Gauthier et al. (1998) buscam aprofundar essa discussão apontando para o fato de que o saber necessário para ensinar não pode ser reduzido ao conhecimento do conteúdo da disciplina. Quem ensina sabe muito bem que, para ensinar, é preciso muito mais do que simplesmente conhecer a matéria, mesmo reconhecendo que esse conhecimento seja fundamental. Nesse sentido, confundiu-se por muito tempo que as habilidades necessárias à docência podiam ser resumidas no talento natural dos professores, ou seja, no seu bom-senso, na sua intuição, na sua experiência ou mesmo na sua cultura. Essas ideias preconcebidas prejudicavam o processo de profissionalização do ensino, impedindo o desabrochar de um saber desse ofício sobre si mesmo. É o que os autores denominam de um “ofício sem saberes”. Isso porque esses saberes permaneceram por muito tempo confinados em sala de aula, resistindo à sua própria conceitualização, mal conseguindo expressar-se.

Simultaneamente, o ideal de criar uma pedagogia científica, de redigir um código do saber-ensinar, contribui para desprofissionalizar a atividade docente, visto que esse ideal de cientificidade demonstrou dificuldades de passar no teste da prática. Isso se deve ao fato de que esses códigos, construídos dentro dos moldes da racionalidade técnica, tinham a limitação de não levar suficientemente em conta a complexidade e as inúmeras dimensões concretas da situação pedagógica. Assim como as ideias preconcebidas de um ofício sem saberes bloqueavam a constituição de saber pedagógico, essa versão universitária, científica e reducionista dos saberes negava a complexidade do contexto de ensino, impedindo o surgimento de um saber profissional.

É como se, fugindo de um mal (de um ofício sem saberes) para cair num outro, tivéssemos passado de um ofício sem saberes a saberes sem ofício. Saberes esses capazes de colocá-los em prática, que podem ser pertinentes em si, mas que nunca são reexaminados à luz do contexto real e complexo da sala de aula. É como se o saber científico sobre o ensino tivesse sido amputado de seu objeto real: um professor, numa sala de aula, diante de um grupo de alunos que ele deve instruir e educar de acordo com determinados valores (GAUTHIER et al., 1998).

O reconhecimento de que nos fenômenos práticos, entre eles o ato pedagógico, existe uma reflexão na ação (SCHON, 1992), componente inteligente que orienta toda a atividade humana e se manifesta no saber-fazer, motivou a produção de pesquisas que pudessem identificar e verificar como e quais são os conhecimentos dos professores produzidos no contexto das práticas docentes no interior das salas de aula.

Nessa direção, começam a desenvolver-se estudos sobre o trabalho docente que visam delimitar um novo campo investigativo: a epistemologia da prática profissional. Esse campo de estudo tem como objeto central de análise o conjunto dos saberes realmente utilizados pelos profissionais de ensino em seu espaço de trabalho cotidiano para desempenhar todas as suas práticas profissionais, buscando compreender de perto como os saberes profissionais são integrados concretamente nas tarefas dos professores, e como e por que estes os incorporam, produzem, utilizam, aplicam, validam, transformam, ressignificam ou abandonam, em função dos limites, das contingências e dos recursos inerentes às atividades educativas. Esses conhecimentos, por ser engendrados na complexidade, na contextualidade e na singularidade da prática profissional, apresentam-se como conhecimentos de tipo sui generis. Os professores não seriam, com base na concepção teórico-metodológica da epistemologia da prática profissional, produtores de conhecimentos do tipo científico nem meros aplicadores de saberes, mas sim produtores de “saberes” de variada latitude.

Nessa caracterização, aparece como central a importância da prática profissional dos professores no interior do contexto escolar como referência fundamental para a seleção, a lapidação e a produção de seus saberes pedagógicos. Esse contexto informa e forma, contundentemente, os professores, de maneira a organizar seu trabalho e os processos de constituição de seus saberes, suas rotinas e suas estratégias de ensino. Para Tardif (2000, p. 11),

  • […] os saberes profissionais são saberes trabalhados, lapidados e incorporados no processo de trabalho docente e que só têm sentido em relação às situações de trabalho concretas, em seus contextos singulares e que é nessas situações que são construídos, modelados e utilizados de maneira significativa pelos trabalhadores do ensino.

Tendo como referência o foco investigativo desses estudos, a pesquisa por nós realizada buscou investigar os processos de construção dos saberes da base profissional de professores de Educação Física (EF) mediante as ações pedagógicas laboradas por esses docentes em meio a práticas de ensino demarcadas pelo trabalho com um componente disciplinar específico: a Educação Física. Interessou-nos investigar em que medida a prática de ensino desse e nesse campo disciplinar tem relação com o processo de edificação dos saberes pedagógicos dos professores de EF.

  • Correspondência

    José Ângelo Gariglio


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