Volume 03 / n. 05 ago.-dez. 2011: Artigos

Quebrando os silêncios das histórias únicas: As narrativas profissionais como contranarrativas na investigação e formação em supervisão

foto de Maria Alfredo Moreira

Maria Alfredo Moreira

Universidade do Minho, Portugal.

Resumo

Este texto visa discutir a prática da escrita de narrativas profissionais na investigação educacional e na formação (pós-graduada) de professores em supervisão em Portugal. Parte de uma experiência desenvolvida em dois anos escolares, num curso de mestrado da Universidade do Minho. Para a ilustração do potencial formativo dessa estratégia formativa, recorremos a excertos da escrita das formandas desse curso, situando-os na discussão de três eixos analíticos: 1) a relação e integração teoria e prática; 2) a criticidade das e nas práticas de formação e os constrangimentos e 3) a pedagogia da formação em supervisão. Terminaremos com uma discussão da necessidade de desenvolver a narratividade ao serviço da transformação do trabalho docente. Essa discussão deve ser orientada pelos valores de uma sociedade democrática, disseminando práticas de investigação narrativa que valorizem os saberes profissionais construídos pelos professores e com eles, e não sobre eles.


Palavras-chave

Formação de Professores // Investigação Educacional // Narrativas Profissionais // Supervisão

Introdução “… as narrativas identitárias (bio-socio)gráficas são contra-narrativas, uma vez que nos seus actos de fala com a teoria desfiam silêncios (a)normais no estaleiro da ciência.” (PARASKEVA, 2011, p. 16)

As narrativas profissionais são usadas neste texto como base para a discussão da necessidade de rotura dos cânones em investigação educacional, recuperando e legitimando o lugar da subjetividade e do pessoal na investigação e na formação de professores. Surge como parte de um movimento de reabilitação das vozes dos professores que visam contrariar a submissão das suas vozes às dos investigadores, o que muitas vezes as distorce e desumaniza. As narrativas produzidas pelos professores são usadas neste texto para revelar o que é importante, do ponto de vista do estudo do pensamento do professor, na prática docente, mas também de que modo os processos formativos podem ser facilitadores ou inibidores de processos de transformação e inovação nas escolas. As narrativas profissionais, ao sinalizar movimentos de resistência e de desafio ao status quo no trabalho docente e nas vidas dos professores, servem ainda para evidenciar o modo como os discursos do senso comum operam no sentido de constranger o que é possível no campo da formação e da investigação, com impacto evidente na autonomia e profissionalismo dos professores. No campo da formação pós-graduada em supervisão pedagógica e supervisão da formação, e em conjugação com a leitura e análise de textos críticos, as narrativas colocam-se ao serviço de processos de autossupervisão, promotores da reflexividade profissional no trabalho docente.

Após a discussão do lugar das narrativas na investigação educacional e na formação de professores, apresentaremos uma experiência da escrita de narrativas profissionais num contexto de formação pós-graduada de professores em supervisão. Após a contextualização da experiência, ilustraremos o modo como esta estratégia promove processos de desenvolvimento profissional favorecedores da construção da profissionalidade docente. Recorremos a excertos da escrita das formandas de um curso de mestrado, situando-os na discussão de três eixos analíticos: 1) a relação e integração teoria e prática; 2) a criticidade das e nas práticas de formação e os constrangimentos e 3) a pedagogia da formação (em supervisão). Terminaremos com uma discussão da necessidade de desenvolver a narratividade ao serviço da transformação do trabalho docente. Essa discussão deve ser orientada pelos valores de uma sociedade democrática, discutindo e disseminando práticas de investigação narrativa que valorizem os saberes profissionais construídos pelos professores e com eles, e não sobre eles.

1. As narrativas profissionais na formação de professores e investigação educacional

No campo da investigação e formação de professores, o estudo das narrativas enquadra-se no estudo da experiência pessoal (CLANDININ; CONNELLY, 1994) e do pensamento do professor – estudo daquilo que o sujeito diz que pensa, aquilo que quer revelar sobre o seu pensamento (e ação), não o que efectivamente pensa ou faz, ou seja, no estudo do seu conhecimento prático (ELBAZ-LUWISCH, 2007). Assim, o seu enfoque é a desocultação da experiência vivida, tal como percebida pelo sujeito, mediada pela linguagem verbal escrita. Essa mediação promove o distanciamento do sujeito da sua experiência, permitindo “separa® o conhecedor do conhecido (…) exteriorizar o que é interno” (VAN MANEN, 1990, p. 127, trad.), permitindo uma maior racionalização da experiência vivida e, no processo, reorientar a ação futura.

O estudo das narrativas não visa a uma representação da realidade independente do conhecedor dessa realidade, mas, outrossim, criar uma relação nova entre o ser humano e o seu ambiente, assente numa ontologia da experiência que põe a tónica na sua dimensão temporal e relacional, com ênfase nos processos de crescimento e transformação (cf. DEWEY in CLANDININ; ROSIEK, 2007). A experiência vivida torna-se significativa e transformadora, aproximando-se de um ideal do vivido, que permite ao indivíduo (e a outros que têm acesso à sua narrativa) revisitar a experiência e aprender a partir dela.

Essa abordagem fenomenológica e hermenêutica do modo como o profissional explica a sua ação justifica-se ainda pela não linearidade, dinamicidade, imprevisibilidade, e, inclusive, mistério que carateriza o trabalho docente (ELBAZ-LUWISCH, 2007). O estudo do pensamento do professor, a partir de um posicionamento paradigmático de pendor positivista, revela muitas limitações; desde logo, a tónica em aspectos comportamentais dos processos de ensino e aprendizagem, dado serem os imediatamente apreensíveis pelos sentidos. Todavia, essa tónica não explica os comportamentos e ações dos sujeitos – há que compreender por que motivos uma ação é escolhida em detrimento de outra, que princípios subjazem a essa ação, que pressupostos e convicções a explicam; importa ainda perceber qual a influência e impacto dos processos de formação na mudança educativa nas escolas, sendo a avaliação dos mesmos mais significativa em nível da reorientação do pensamento do professor do que do seu comportamento.

Há necessidade de os investigadores procurarem desenvolver novas formas de estudar esse pensamento, novos modos que privilegiem o sentimento, a emoção, o sensorial, e não apenas o racional, o planeamento e a ação (CLANDININ; ROSIEK, 2007). Contrariamente às metodologias positivistas, a metodologia do estudo das narrativas reconhece o valor da subjectividade; ao pedir ao indivíduo que relate/registe a sua experiência, fá-lo reviver e reestruturar essa experiência; ao revisitá-la, ela será certamente alterada à luz das experiências e vivências vividas após os acontecimentos que deram origem à narrativa; todavia, isso não é um problema metodológico a ser eliminado para o investigador narrativo – é, pelo contrário, a exata finalidade do seu estudo (op.cit.).

  • Correspondência

    Maria Alfredo Moreira


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