Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos

Uma agenda de pesquisa para a formação docente

Realizar análise sistemática de diferentes alternativas na formação docente

Nos últimos anos, tem sido dada crescente atenção às contribuições que podem ser feitas pela análise sistemática de alternativas claramente identificadas na formação docente utilizando delineamentos quase-experimentais com várias formas de correspondência e controles, e delineamentos experimentais com análise aleatória (por exemplo, Mosteller e Boruch, 2002; Shavelson e Towne, 2002; Whitehurst, 2002). Embora encorajemos uma maior quantidade de estudos que investiguem sistematicamente os efeitos de percursos de formação claramente diferentes sobre os professores e seus alunos, é opinião do painel que há uma variedade de maneiras de se realizarem esses estudos. Embora apoiemos uma maior quantidade de ensaios aleatórios e delineamentos quase-experimentais utilizando correspondência ou controles na pesquisa sobre formação docente, acreditamos que o financiamento e outras questões práticas continuarão a limitar o quanto a pesquisa sobre formação docente será realizada dessa maneira. Esse tipo de trabalho é muito caro e os altos índices de mobilidade do aluno e do professor em muitas escolas públicas, além das questões de consentimento livre e esclarecido envolvidas na alocação aleatória, fazem com que essa pesquisa seja difícil de ser executada. Apesar dessas dificuldades, acreditamos que esse tipo de trabalho precisa se tornar mais comum na pesquisa sobre formação docente. O recente estudo do Teach for America que utilizou alocação aleatória de alunos que foram preparados de diferentes maneiras (Decker, Mayer e Glazerman, 2004) é um exemplo desse gênero de pesquisa sobre os efeitos de modelos alternativos de formação sobre os professores.

Quando a análise aleatória não é possível, achamos que o uso de várias formas de correspondência e controles são alternativas razoáveis. Recomendamos especialmente modelos de pesquisa que combinem a análise quantitativa e qualitativa, como o estudo sobre diferentes formas de ensino atualmente em andamento na cidade de Nova York (Boyd, Grossman, Lankford, Loeb e Wyckoff, 2003).

Realizar minuciosos estudos de caso de cursos de formação docente

Finalmente, examinamos dois estudos de caso multi-institucionais em larga escala de cursos de formação docente no país: os estudos TELT (Teacher Education and Learning to Teach) e NCTAF (National Comission for Teaching and America’s Future). As pesquisas de estudo de caso de cursos, como a análise comparativa sistemática discutida anteriormente, são extremamente caras e difíceis de se realizar e, inevitavelmente, serão uma parte limitada do espectro total da pesquisa sobre formação docente. Ambos os tipos de estudo, a comparação sistemática de alternativas de programa e os minuciosos estudos de caso de cursos, são bons candidatos para alocações de recursos dirigidos à pesquisa sobre formação docente (ver próxima seção).

Tópicos de pesquisa

Na discussão anterior sobre modelos e metodologias de pesquisa, foram feitas várias recomendações para aperfeiçoar a investigação sobre formação docente a partir de uma perspectiva de projeto que também tenha implicações para o conteúdo da pesquisa. Essas recomendações, quando contempladas a partir da perspectiva do conteúdo da pesquisa, sugerem que a principal prioridade para a pesquisa sobre formação docente deveria ser promover nosso conhecimento sobre as ligações entre determinados aspectos da formação docente (por exemplo, currículo, programas de ensino e políticas) e da aprendizagem dos professores, práticas docentes e aprendizagem do aluno, sob várias condições e em diferentes contextos. A discussão sobre questões metodológicas destinava-se a melhorar a capacidade da pesquisa sobre formação docente de distinguir entre os efeitos da formação docente e aqueles atribuídos a indivíduos e contextos e de explicar as condições nas quais vários efeitos ocorrem e por que eles ocorrem.

Além dessas recomendações gerais para o conteúdo, modelos e metodologias de pesquisa, nossa análise identificou, neste relatório, várias questões ou tópicos importantes, os quais achamos que a pesquisa sobre formação docente também precisa tratar. Eles incluem:

  1. Pesquisas sobre a preparação de professores para lecionar com êxito a diferentes alunos das escolas públicas americanas e sobre o recrutamento de um perfil variado de docentes;
  2. Pesquisas sobre formadores de professores, licenciandos e egressos dos cursos de Licenciatura e sobre o contexto da formação;
  3. Pesquisas sobre os currículos dos cursos de formação docente, os programas de curso e as interações de ensino;
  4. Pesquisas sobre arranjos organizacionais dentro dos cursos;
  5. Pesquisas sobre a validade preditiva dos padrões de admissão nos cursos de formação docente;
  6. Pesquisas sobre importantes tópicos negligenciados.

Realizar pesquisas sobre a preparação de professores para a diversidade cultural e sobre o recrutamento de um perfil mais variado de docentes

Em primeiro lugar, por causa da relativa negligência da pesquisa sobre preparação de professores para a diversidade cultural que eles encontrarão nas escolas públicas americanas e sobre recrutamento de um perfil mais variado de docentes, acreditamos que a pesquisa sobre formação docente precisa contribuir de um modo mais fundamental para a redução da disparidade de desempenho na educação pública americana. Como foi mencionado inúmeras vezes neste relatório, um dos problema com a pesquisa atual (por exemplo, sobre cursos de Metodologia de Ensino e as estratégias de formação) é que os contextos nos quais os professores trabalham (por exemplo, as características dos alunos lecionados e as comunidades nas quais eles vivem) muitas vezes não são descritos nos relatórios de pesquisa. Essa falta de atenção explícita aos contextos de ensino por parte dos pesquisadores torna muito difícil interpretar dados sobre o desempenho e a permanência dos professores e sobre a eficácia de diferentes cursos de formação docente e de seus componentes.

Concordamos com as recomendações de Wilson, Floden e Ferrini-Mundy (2001) de que os pesquisadores deveriam ser muito mais explícitos em relação aos contextos nos quais os professores trabalham. Precisamos garantir que nossas definições de eficácia do ensino e aprendizagem dos alunos incluam os muitos alunos de cor e alunos que vivem na pobreza, que são geralmente marginalizados por nossas escolas públicas, e que nossa definição de professores de alto nível inclua o desenvolvimento de um perfil variado de docentes que percebam mais adequadamente a diversidade de nossa população (Villegas e Lucas, 2004).

A pesquisa sobre formação docente precisa fazer da redução da disparidade de desempenho uma preocupação prioritária documentando como o status quo na formação inicial de professores ficou aquém no recrutamento de um perfil mais variado de docentes e na preparação de professores para lecionar diferentes alunos. Ela também deveria desempenhar um papel mais importante esclarecendo como podemos fazer um trabalho melhor na preparação de candidatos que irão escolher lecionar nas escolas onde são mais necessários, que serão bem sucedidos tão logo cheguem e que permanecerão lá e documentando maneiras de recrutar um perfil mais variado de docentes. A pesquisa sobre a preparação de professores para ensinar populações marginalizadas deveria prestar especial atenção à formação de professores para ensinar alunos que têm o inglês como segunda língua, porque quase nenhuma pesquisa foi realizada sobre esse aspecto da diversidade na formação docente.

Realizar pesquisas sobre formadores de professores, licenciandos e egressos de cursos de formação docente e sobre o contexto de formação

Em segundo lugar, há uma necessidade de estudos sobre formadores de professores, alunos de Licenciaturas, os egressos desses cursos e sobre o contexto no qual a formação foi realizada. Nas nossas revisões, não percebemos uma atenção maior para a pesquisa sobre os formadores de professores. Embora houvesse alguma pesquisa sobre esse tema, nos anos 1980 (como exemplo, ver Lanier e Little, 1986; Wisniewski e Ducharme, 1989), muitos dados levantados por esses trabalhos estão hoje obsoletos. Essa questão aponta para a necessidade de novas pesquisas. É necessário mais pesquisas que investiguem as consequências de quem está lecionando um determinado componente do curso (por exemplo, uma disciplina de Metodologia do Ensino ou uma disciplina de Fundamentos da Educação), quem está usando uma determinada estratégia de formação ou quem está supervisionando um aluno que participa de um estágio em uma determinada escola. Qual é a importância se os formadores e os supervisores de estágio em cursos de formação inicial são do corpo permanente e da equipe acadêmica ou do corpo de profissionais contratados ou doutorandos? Quais são as características dos formadores e como diversos indicadores demográficos e de qualidade associados aos formadores (por exemplo, anos de experiência de ensino e tipo de graduação) influenciam o caráter e a qualidade da formação nos cursos de formação docente?

Também precisamos construir bancos de dados mais abrangentes e atualizados sobre os estudantes das Licenciaturas, os professores e o conjunto de professores em potencial, incluindo informações sobre raça e etnia, antecedentes de classe social, sexo, medidas do desempenho acadêmico e qualidades pessoais. Esses bancos de dados deveriam dar atenção a coisas como: como são preparados professores com perfis demográficos e de qualidade diferentes, onde eles lecionam e quanto tempo eles permanecem no magistério.

  • Correspondência

    Kenneth M. Zeichner

    255 North Mills Street
    Madison, WI 53706
    U.S.A.


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