Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos

Uma agenda de pesquisa para a formação docente

foto de Kenneth M. Zeichner

Kenneth M. Zeichner

Professor Titular da Universidade do Estado de Wisconsin, em Madison, nos Estados Unidos.

Resumo

Este artigo examina os textos que fizeram parte do relatório final do painel da American Educational Research Association (AERA) sobre formação docente e que analisaram a investigação acadêmica de temas específicos referentes à formação inicial de professores nos Estados Unidos e sugere uma agenda de pesquisa para a área a fim de superar algumas das principais limitações na pesquisa existentes e ampliar linhas de trabalho promissoras. Também discute as condições necessárias para apoiar a implementação dessa agenda de pesquisa. Ele começa examinando a missão desse painel e a direção geral de suas recomendações. Depois de analisar algumas limitações nesse trabalho, oferece uma agenda de pesquisa por meio da qual os membros do painel acreditam abranger planos de pesquisa, metodologias e tópicos que são promissores para aumentar a qualidade da pesquisa na área.


Palavras-chave

Estados Unidos // formação de professores // pesquisas

Tradução: Cristina Antunes

Inicialmente 1, quero reiterar vários pontos importantes relacionados ao painel da American Educational Research Association (AERA) sobre formação docente e nossas opiniões concernentes à relação entre a pesquisa educacional, a prática e a política de formação de professores. Em primeiro lugar, um elemento central das nossas deliberações foi um vigoroso esforço para manter a neutralidade nos debates, extremamente visíveis e intensos, que aconteceram durante os quatro anos de nosso trabalho, sobre a formação docente. Do começo ao fim das revisões internas e externas de cada texto, bem como do relatório final como um todo, demos prioridade para produzir uma rigorosa e imparcial análise da pesquisa revista por pares sobre questões de crítica importância para a formação inicial de professores nos Estados Unidos. Nosso trabalho concentrou-se em analisar a pesquisa sobre formação docente e os diferentes resultados nas políticas de formação de professores: recrutamento e permanência de docentes, aprendizagem e práticas dos professores e a aprendizagem dos alunos.

Coerentemente com as diferentes perspectivas disciplinares e metodológicas representadas no painel, também nos esforçamos para apresentar uma análise de pesquisa e propostas para melhorar a investigação acadêmica que recorresse a, e se beneficiasse de, uma variedade de abordagens metodológicas, incluindo a pesquisa conduzida por docentes sobre suas próprias práticas. Reconhecemos que determinadas abordagens de pesquisa têm aspectos positivos e também inconvenientes; procuramos avaliar a pesquisa incluída nesta revisão de acordo com critérios de rigor apropriados para determinados gêneros de pesquisa. Recomendamos atenção para a ampla variedade de abordagens de pesquisa disponíveis; não rejeitamos nenhuma abordagem a priori. No nosso entender, a principal questão é desenvolver um programa de pesquisa sobre formação docente que possa tratar a variedade de questões que os investigadores procuram responder a respeito da formação de professores e suas ligações com vários tipos de respostas importantes para a sociedade.

Acreditamos que uma pesquisa de abordagem multidisciplinar e multimetodológica para investigar problemas na formação docente é essencial porque o conjunto de questões que são importantes do ponto de vista prático e teórico pode ser melhor respondido utilizando-se um conjunto equivalente de referências conceituais e de modelos de pesquisa. Questões e problemas individuais pedem diferentes abordagens de pesquisa e o que propusemos no relatório final do painel da AERA refere-se ao estudo da formação docente por meio de abordagens disciplinares e metodológicas diferentes e complementares. Concordamos com a afirmação de Florio Ruane (2002) sobre a importância de se observar tanto dentro quanto fora das áreas orientadas por uma única abordagem de pesquisa.

A implementação da agenda de pesquisa que sugerimos vai exigir maiores recursos do que aqueles que já estiveram disponíveis para a pesquisa sobre formação docente. Esses recursos deveriam vir de novos investimentos na investigação sobre a formação de professoes e da redistribuição dos recursos existentes. Porém, mais dinheiro para a pesquisa sobre formação docente não resultará automaticamente em melhor pesquisa. Esses recursos adicionais precisam ser direcionados para o estudo de determinadas questões e assuntos e para investigações que empreguem metodologias capazes de lidar com a complexidade do que está sendo investigado e que resultem em confiável e convincente evidência e em um entendimento mais profundo. Dada a importância da qualidade dos professores no discurso atual sobre reforma educacional nos Estados Unidos e a necessidade de evidências empíricas sólidas, é urgentemente necessário um programa de pesquisa competente sobre formação docente e que seja bem financiado.

Limitações no nosso trabalho e da pesquisa

A análise apresentada no relatório final do painel da AERA sobre formação docente tem várias limitações. Por exemplo, embora tenhamos focado na pesquisa empírica relacionada a diversos tópicos que achamos importantes para a formação inicial de professores, reconhecemos que dois importantes tipos de pesquisa não foram incluídos no escopo de nosso trabalho: o conhecimento conceitual, histórico e comparativo sobre a formação inicial de professores e todos os tipos de pesquisa sobre a formação inicial realizados fora dos Estados Unidos. Limitar nosso foco aos estudos empíricos sobre certos tópicos nos Estados Unidos não significa que esses outros tipos de conhecimento sobre formação docente não sejam importantes.

Além disso, embora acreditemos que a pesquisa empírica possa dar importantes contribuições para a prática e a política na formação docente, também acreditamos que as decisões sobre política e prática são mediadas por considerações morais, éticas e políticas, e que a prática no ensino e na formação docente, como em outras áreas, é intrinsecamente complexa. A pesquisa pode nos ajudar a pensar sobre a formação docente de maneiras mais proveitosas e pode oferecer orientação quanto práticas efetivas para atingir determinados objetivos, mas não pode nos revelar tudo sobre o que fazer nos cursos de formação docente ou na arena política. Schön (1984) descreveu a natureza dinâmica e incerta da prática e os limites da pesquisa para estruturar e solucionar problemas da prática em áreas fora do magistério, inclusive engenharia e psicoterapia. As reflexões de Gawande (2002, p. 7) sobre o estado da pesquisa científica na medicina reforçam nosso ponto de vista sobre os limites envolvidos em associar a pesquisa à prática e política:

  • Nós esperamos que a medicina seja um campo metódico de conhecimento e procedimento. Mas não é. É uma ciência imperfeita, um empreendimento de conhecimento constantemente em mudança, de informações incertas, indivíduos falíveis e, ao mesmo tempo, vive em risco. Há ciência no que fazemos, sim, mas também há hábito, intuição e, por vezes, a simples velha adivinhação. A lacuna entre aquilo que sabemos e aquilo que almejamos, persiste. E essa lacuna dificulta tudo o que fazemos.

Embora a pesquisa tenha o potencial para nos ajudar a administrar e reduzir mais eficazmente a complexidade e a incerteza do magistério, ela nunca será capaz de anulá-lo. A pesquisa empírica é uma fonte, entre outras, que deveria ser considerada para determinar o valor da atividade da formação docente.

Elementos de uma agenda de pesquisa

Esta seção descreve os elementos de uma agenda de pesquisa para a formação docente que é baseada em nossa análise e discussão das pesquisas empíricas existentes. Em primeiro lugar, discute características de modelos de pesquisa, metodologias e tópicos de pesquisa que nós acreditamos serem prioritários na futura pesquisa sobre formação de professores. Em seguida, discute o desenvolvimento de uma infraestrutura mais sólida para a pesquisa sobre formação docente que é necessária para apoiar a implementação da agenda de pesquisa que propomos. Essa discussão sobre uma infraestrutura de apoio levará ao desenvolvimento de redes de pesquisa, à preparação e ao treinamento de pesquisadores educacionais e ao processo de revisão por pares e publicação.

É importante ressaltar que a despeito das críticas sobre a pesquisa existente, cada uma das revisões que empreendemos identifica linhas promissoras de trabalho e clara compreensão sobre aspectos dos efeitos sobre a formação inicial dos professores. A agenda de pesquisa que propomos aqui pretende se basear naquilo que aprendemos por meio da pesquisa existente nessa área de investigação relativamente jovem.

Por exemplo, embora pareça existir uma relação entre as atividades de sala de aula e os trabalhos de casa adotados pelos professores de Matemática e o aprendizado dos alunos no nível médio, sabemos muito pouco sobre essa relação no nível fundamental, sobre os tipos específicos de atividades de sala de aula e trabalhos de casa em Matemática que sejam realmente importantes e sobre a preparação das aulas dos professores em outras disciplinas. Além disso, apesar de termos aprendido algumas coisas sobre o impacto de determinadas abordagens de ensino no conhecimento e nas crenças dos professores, têm havido poucos estudos sistemáticos comparando o impacto de diferentes estratégias de formação e dos efeitos dessas estratégias nas práticas de futuros professores. Todavia, em vez de focar no que sabemos sobre a pesquisa existente, este artigo ressalta o que precisamos saber e como podemos projetar e apoiar a pesquisa para nos ajudar a ter êxito.

  • Correspondência

    Kenneth M. Zeichner

    255 North Mills Street
    Madison, WI 53706
    U.S.A.


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