Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos

A produção acadêmica sobre formação de professores: um estudo comparativo das dissertações e teses defendidas nos anos 1990 e 2000

Os temas que parecem emergentes para os próximos anos são: a formação de professores de cursos superiores, condições de trabalho, principalmente questões sobre a saúde dos docentes; o uso de tecnologias educacionais e a educação a distância na formação de professores.

Quanto às metodologias de pesquisa, o quadro das dissertações e teses não sofreu grandes mudanças dos anos 1990 para os anos 2000, apenas uma inversão de postos. Se nos anos 1990, os tipos de estudo mais utilizados foram: o microestudo (106) e a análise de depoimento (53); nos anos 2000, os tipos de estudos com maior incidência foram: análise de depoimento (197) e microestudo (146). Ainda temos muitas pesquisas que consideramos pontuais, pois abrangem situações muito específicas, procedimentos pobres de coleta de dados e análises muito circunscritas.

O questionário, pouco mencionado nas pesquisas dos anos 1990, apareceu como importante técnica de coleta de dados para um número significativo de pesquisas nos anos 2000 e foi utilizado, muitas vezes, em combinação com entrevista e/ou com análise de documento e/ou com a observação. Parece que o preconceito sobre dados quantitativos vai, aos poucos, sendo superado.

Algumas perspectivas

Um aspecto muito promissor das pesquisas mais recentes é a atenção dada ao professor. Muitos estudos foram produzidos nos últimos anos, em torno das opiniões, das representações, dos processos de constituição de identidade, dos saberes e práticas dos professores. Conhecer de perto quem é o professor da educação infantil, da educação básica ou superior parece-nos não só relevante, mas fundamental para que se possa delinear estratégias efetivas de formação. Aproximar-se das práticas dos professores, adentrar o cotidiano de seu trabalho é, sem dúvida, imprescindível para que se possa pensar, com eles, as melhores formas de atuação na busca de uma educação de qualidade para todos.

É preciso, no entanto, que essas pesquisas não se limitem a apenas reproduzir o que dizem os professores, mas que efetivamente procurem compreender o contexto de produção desses discursos, as razões que os levam a se pronunciar dessa ou daquela maneira, a quem se dirigem, o que pretendem. Além disso, deve haver um esforço para ir além da constatação, tentando encontrar caminhos ou alternativas para o aperfeiçoamento da prática profissional, o que, na medida do possível deve ser um empreendimento em colaboração entre pesquisador e professor. Caso contrário, correremos o risco de reiterar o já conhecido, a mesmice.

Se julgamos como positiva essa centralidade da pesquisa no professor, não podemos deixar de reconhecer o risco potencial de que ela venha a reforçar uma ideia já bastante corrente de que cabe ao professor toda a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso da educação. Há inúmeros fatores ligados às condições de trabalho, à gestão da escola, ao salário, à carreira, aos processos de implantação das políticas educacionais, que afetam as práticas escolares e seus resultados. É preciso muito cuidado para que a pesquisa não se deixe contaminar pelos discursos da mídia e dos políticos.

Ao mesmo tempo em que cresce o número de pesquisas voltadas para o professor, diminui o número de investigações sobre a formação inicial, o que causa preocupação. Ainda carecemos de muitos conhecimentos sobre as metas, os conteúdos e as estratégias mais efetivas para formar professores. Pouco sabemos sobre qual a organização curricular mais adequada, quais as práticas de ensino mais eficazes e que formas de gestão propiciam uma formação de qualidade. Por isso temos de continuar nossas pesquisas sobre formação inicial. Não podemos sucumbir aos interesses econômicos das políticas neoliberais que consideram pouco rentáveis os recursos aplicados na formação inicial, conforme denuncia Rosa Maria Torres (1998).

Do ponto de vista da metodologia e dos procedimentos de coleta de dados, podemos dizer que houve um avanço nas pesquisas: por um lado, a porcentagem de resumos que revela o tipo de pesquisa e os métodos de coleta de dados aumentou significativamente em relação ao levantamento anterior, o que sugere maior consciência e preocupação com o rigor metodológico. Por outro lado, os estudos pontuais, com número pequeno de sujeitos e análises circunscritas ainda é grande, o que requer, por parte dos cursos de pós-graduação, urgentes medidas, como por exemplo, fazer dos grupos de pesquisa um espaço efetivo de formação dos jovens pesquisadores, dando oportunidade para a realização de pesquisas articuladas, com referenciais consistentes, análises mais densas e resultados mais alentados.

O mapeamento mostra que surgiram novas formas de coleta de dados como os registros escritos, as entrevistas em grupo, os registros em vídeos que, combinadas com as entrevistas, questionários e observações, permitem explorar novos ângulos das situações e enriquecer as análises. O alerta, no entanto, precisa ser mantido para que esses procedimentos não se tornem meros adereços da pesquisa e sejam devidamente tratados com o rigor que toda investigação exige.

A análise da produção acadêmica dos alunos de pós-graduação em educação do Brasil nos anos iniciais do século 21 revelou interesse crescente dos pesquisadores pela temática da formação de professores, com foco nas opiniões, representações, saberes e práticas dos docentes. Os referenciais das pesquisas privilegiam a perspectiva sócio-histórica, o construtivismo, a teoria das representações sociais e autores que defendem a reflexão na ação, os saberes da experiência, o pensar crítico. As metodologias de pesquisa mais utilizadas pelos pós-graduandos são o depoimento oral e o estudo de caso. Os resultados parecem ainda muito voltados para situações bem delimitadas ou contextos muito específicos.

Ao concluir esse mapeamento, fica mais uma vez evidente quão importante é recorrer às sínteses integrativas para acompanhar o processo de constituição de uma área do conhecimento. É fundamental identificar tanto seus pontos fortes quanto suas fragilidades, reconhecer tanto os esforços de aperfeiçoamento quanto aquilo que ainda precisa se mudado. Atenção especial deve ser dada às redundâncias, à dispersão, aos modismos e aos aspectos que continuam esquecidos.

A pesquisa educacional brasileira e, em especial, as investigações sobre a formação de professores têm crescido muito com as informações fornecidas pelos mapeamentos da produção científica.

  • Correspondência

    Marli E. D. A. André

    Rua Marquês de Paraná, 484
    05086-010 São Paulo
    SP Brasil


  • Tabela 1

    Tabela 1

    Distribuição das dissertações e teses sobre formação de professores segundo o ano, número de programas e total de pesquisas na área de educação.

    Tabela 2

    Tabela 2

    Distribuição das dissertações e teses sobre formação de professores segundo os temas abordados.

    Tabela 3

    Tabela 3

    Distribuição das dissertações e teses sobre formação de professores segundo os tipos de pesquisa.

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