Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos
A produção acadêmica sobre formação de professores: um estudo comparativo das dissertações e teses defendidas nos anos 1990 e 2000
Marli E. D. A. André
Professora do Programa de Estudos Pós-graduados em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Resumo
Este texto faz uma síntese integrativa da produção acadêmica dos pós-graduandos na área de educação entre 1999 e 2003, com base nos resumos disponíveis no Banco de Dados da CAPES. Compara, ainda, os dados das dissertações e teses defendidas no período 1990-1998 com os do período 1999-2003. Os resultados mostram que cresceu o interesse pelo tema formação de professores: nos anos 1990, eram 6% do total de trabalhos da área da educação que abordavam o tema; nos anos 2000, o percentual passa a 14%. A maior mudança observada no período foi no foco das pesquisas: de 1990 a 1998, a grande maioria dos estudos (72%) se debruçava sobre os cursos de formação inicial, já nos anos 2000, a maior incidência (41%) estava na temática da identidade e profissionalização docente. Também houve mudança na metodologia da pesquisa: nos anos 1990 predominava o microestudo, nos anos 2000, o depoimento oral. O que se manteve constante nas pesquisas dos anos 2000, em comparação com as dos anos 1990 foi o quase esquecimento de certas temáticas como a dimensão política na formação do professor; condições de trabalho, plano de carreira e sindicalização, questões de gênero e etnia e a formação do professor para atuar na educação de jovens e adultos, na educação indígena e em movimentos sociais.
Palavras-chave
estado do conhecimento // formação de professores // pesquisas
Estudos do tipo “estado do conhecimento”, que fazem uma síntese integrativa da produção acadêmica em uma determinada área do conhecimento e em um período estabelecido de tempo, têm sido muito úteis ao revelar temáticas e metodologias priorizadas pelos pesquisadores, fornecendo importantes elementos para aperfeiçoar a pesquisa num determinado campo do saber.
Esses mapeamentos são fundamentais para acompanhar o processo de constituição de uma área do conhecimento, porque revelam temas que permanecem ao longo do tempo, assim como os que esmaecem, os que despontam promissores e os que ficam totalmente esquecidos. O material que serve de base para esses mapeamentos, isto é, aquilo que constitui o corpus sobre o qual é elaborada a síntese integrativa – relatórios de pesquisa, artigos de periódicos, textos apresentados em eventos científicos – é submetido a um olhar crítico que permite identificar redundâncias, omissões, modismos, fragilidades teóricas e metodológicas, que se adequadamente consideradas e corrigidas, contribuem para o reconhecimento do status científico da área e aumentam sua credibilidade junto à comunidade acadêmica/científica.
Charlot (2006) nos instiga a fazer esse esforço analítico/sintético em relação à grande área da educação. Ao discutir a necessidade de definir a especificidade da educação como campo de conhecimento e de pesquisa, Charlot (2006) argumenta que é preciso registrar a memória da pesquisa em educação, o que requer a elaboração de sínteses integrativas da produção científica, para que se evite a dispersão, a repetição de temas e metodologias e para que se encontrem alguns pontos de partida que ajudem a melhor defini-la.
Antes, porém, que se alcance esse objetivo em relação à grande área de educação, pode-se fazer tentativas de mapeamentos das sub-áreas de conhecimento. É o que se pretende ao focalizar, neste texto, a produção científica referente ao tema da formação de professores. Objetiva-se atualizar um mapeamento anterior em que foram analisadas as dissertações e as teses defendidas nos programas de pós-graduação em educação do país no período de 1990 a 1998 (ANDRÉ, 2000).
Neste texto, são apresentados e discutidos os resultados da análise da produção dos pós-graduandos no período de 1999 a 2003 1, comparando-os com os do levantamento anterior. Buscou-se verificar se houve mudanças nos temas priorizados, emergentes e silenciados, assim como nas tendências teóricas e metodológicas das pesquisas.
As questões que nortearam a análise da produção acadêmica do final dos anos 1990 e início dos anos 2000 foram: Quais temas e subtemas são mais frequentes nos estudos sobre formação de professores? Em quais autores e referenciais os discentes se apoiaram para fundamentar suas pesquisas? Quais as metodologias e técnicas de coleta de dados utilizadas nesses estudos? Que tendências ficam mais evidentes? Quais as temáticas que emergem e quais as esquecidas?
Para a constituição do corpus de análise foram selecionados os resumos das dissertações e teses, disponíveis no Banco de Dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). O indicador de busca dos resumos foi a palavra-chave utilizada pelos próprios autores das pesquisas, porque julgou-se que são os mais habilitados para identificar seu estudo. Foram consideradas as seguintes palavras-chave: “formação de professores”, “formação docente”, “formação inicial”, “formação continuada”, “prática docente”, “professor”, “formação de alfabetizadores”, “condição de trabalho docente”, “representação” (do professor), “trabalho docente”, “identidade docente”, e “formação pedagógica”.
A análise do conteúdo dos resumos foi realizada por um grupo de cerca de doze pesquisadores, com base em uma ficha que continha as seguintes informações: título, autor, instituição, data de defesa, objetivos, metodologia e resultados. Numa primeira fase, o grupo debateu exaustivamente as categorias ou os eixos analíticos até que todas as dúvidas ficassem esclarecidas. Em seguida, as fichas foram distribuídas entre os pesquisadores, que, individualmente, procuraram classificar as pesquisas de acordo com as categorias. As dúvidas de enquadramento eram levadas para as reuniões do grupo onde eram discutidas até que se chegasse a um consenso. Essa conjugação da análise individual com a discussão coletiva foi fundamental, pois, em muitos casos, era bastante difícil decidir qual era o tema principal ou a metodologia da pesquisa. Acreditamos que a ratificação do coletivo é uma forma muito potente de validação das análises.
Categorias de Análise
Como havia intenção de comparar os dados das dissertações e teses defendidas no início dos anos 2000 com as dos anos 1990, foram mantidas as categorias de análise utilizadas no mapeamento anterior (ANDRÉ, 2000): formação inicial, formação continuada, formação inicial e continuada, identidade e profissionalização docente, tendo-se acrescentado a categoria políticas de formação que se mostrou emergente.
A seguir, serão brevemente descritas as categorias e o referencial teórico que ampararam a análise das produções científicas dos pós-graduandos.
As pesquisas classificadas como formação inicial são as que focalizam os cursos de licenciatura, pedagogia ou normal de nível médio ou superior. Abordam questões referentes ao currículo, à estrutura ou à avaliação do curso, ao ensino de uma disciplina (geralmente da área pedagógica), ao professor ou ao aluno do curso.
É na formação inicial que o futuro docente deve adquirir as bases para “poder construir um conhecimento pedagógico especializado”, diz Imbernón (2002, p.65). E o autor explica que isso significa que os cursos de formação devem fornecer aos futuros docentes uma bagagem sólida nos âmbitos científico, cultural, psicopedagógico e pessoal, que lhes permita “assumir a tarefa educativa em toda sua complexidade, atuando reflexivamente com a flexibilidade e o rigor necessários” (p.60).
Formar, em sentido amplo, significa desenvolver; portanto, formação pressupõe continuidade. Nesse sentido, a formação inicial é um momento importante na socialização profissional, mas o aprendizado da docência deve seguir um longo caminho de educação continuada.
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Correspondência
Marli E. D. A. André
Rua Marquês de Paraná, 484
05086-010 São Paulo
SP Brasil
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Tabela 1
Distribuição das dissertações e teses sobre formação de professores segundo o ano, número de programas e total de pesquisas na área de educação.
Tabela 2
Distribuição das dissertações e teses sobre formação de professores segundo os temas abordados.
Tabela 3
Distribuição das dissertações e teses sobre formação de professores segundo os tipos de pesquisa.
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