Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos

Pesquisa sobre formação de profissionais da educação no GT 8/Anped: travessia histórica

foto de Iria Brzezinski

Iria Brzezinski

Doutora em Administração Escolar pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutoramento pela Universidade de Aveiro, em Portugal. Professora Titular da Universidade Católica de Goiás (UCG). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq – Nível 2.

Resumo

A metanálise da produção do GT8, associada à narrativa de sua travessia histórica é objeto deste artigo, resultante de Trabalho Encomendado para a 30ª. Reunião Anual (2007) e atualizado em 2009. Investigação teórica, histórica e documental que visa a reconstituir o desenvolvimento da pesquisa no “GT Formação de Professores (GT 8)”, originalmente “GT Licenciaturas”. O método de exposição é diacrônico-sincrônico e o de investigação, dialético. A constituição e consolidação do GT tem sido marcadas por pesquisas nele partilhadas e, por mediações científico-acadêmicas entre pesquisadores experientes e novos investigadores. Esses, na maioria, discentes dos programas de pós-graduação em Educação. A reconstituição histórica contextualiza o GT8 no universo dos 23 GTs da Anped e revela sua identidade como espaço específico de reflexões, discussões, debates e embates acerca da produção no campo da Formação de Profissionais da Educação. Os resultados da análise de 118 Trabalhos (1999-2008) apontam que a consolidação do GT8 decorre do esforço coletivo de dois subgrupos distintos. Um representado por um núcleo básico de pesquisadores permanentes, que se preocupa em: promover articulações entre linhas de pesquisas dos programas de pós-graduação; desenvolver projetos integrados e interinstitucionais; produzir conhecimento sobre formação de professores para a educação básica e superior. Outro, numericamente maior se comparado ao primeiro, porém com participação descontínua, casual. A existência dinâmica das pesquisas do primeiro configura o ethos do GT8.


Palavras-chave

Ethos // Fórum de Debates // Metanálise // Pesquisa e Pós-Graduação // Produção Sobre Formação de Professores // Travessia do GT8

Um “punhado” de história

O objeto do presente estudo é a produção no campo da formação de profissionais da educação em debate, em análise, em reflexão, em avaliação que possa ser capaz de subsidiar mudanças na prática pedagógica e social da educação, como alerta Severino (1993), em epígrafe. Essa produção circula em espaço específico e próprio que, dialeticamente, transforma-se em lugar de produção – o Grupo de Trabalho “Formação de Professores” da Anped (GT8).

Refiro-me ao espaço sensível à escuta, ao diálogo, ao intercâmbio, ao embate no confronto de ideias, por tudo isso, um Fórum de Debates que visa a instigar interlocuções epistemológicas e metodológicas, teorização de práticas e intercâmbio de vivências investigativas em torno de uma temática abrangente e multidisciplinar, contudo, com uma nuclearização: formação do professor.

O presente artigo foi construído, inicialmente, com o objetivo de honrar compromisso firmado no GT8 para um trabalho da categoria “encomendado”, exposto e debatido na 30ª Reunião Anual da Anped (RA, 2007). Na ocasião, ousei reconstituir o percurso da investigação nesse espaço privilegiado, circunscrito a um marco temporal: o GT8 inaugurava o seu 25º ano de produção no campo de formação de professores.

Agora, em outro momento e com outro objetivo, o artigo se configura mais amplo, à medida que contempla atualizações da metanálise dos trabalhos apresentados no GT até a 32ª RA (2008).

Busco revelar a trajetória da pesquisa utilizando uma exposição diacrônico-sincrônica, cujo movimento se desloca do presente – GT Formação de Professores – ao passado – GT Licenciaturas -, lançando perspectivas futuras. Sendo assim, indago: Por que não chegar, em breve, a uma (re)configuração e outra denominação do GT8 suscitadas por problemas de pesquisa e de outros interesses da Educação Básica e Superior que emergem dinamicamente no século XXI?

Intento reconstituir um “punhado” de história das pesquisas dispostas no centro do Fórum de Debates do (GT8), atenta ao rigor científico exigido de qualquer estudioso que se debruce sobre o tema, desde que “[…] tudo o que nele se inclua, tenha, realmente, “acontecido” (VEYNE, 1982, p.17) (Grifo meu). Cuido, também, para não premer vinte e cinco anos de produção científica em uma sintética-síntese porque impelida pela natureza deste trabalho que, com razão, impõe limites à autora.

O “acontecido” (VEYNE, 1982) aqui significa, sobretudo, a compreensão da realidade, da complexidade e da heterogeneidade de referenciais teóricos, de dados empíricos, de procedimentos metodológicos, de resultados relevantes e pertinentes ao campo da formação de professores. Esse acúmulo de conhecimento foi expresso, com maior ou menor intensidade, com coerência e consistência argumentativa, com ênfase na particularidade ou na amplitude de cada problema de pesquisa, em cada um dos trabalhos que se enfeixa na multiplicidade dos selecionados por Comitê(s) Científico(s) e apresentados nas RAs da Anped.

O “acontecido” aqui significa, também, respeito à configuração do GT8, que como os demais GTs da Anped não constitui, conforme convencionado pela comunidade científica, grupo de pesquisa stricto sensu, em virtude de que seus integrantes não desenvolvem sistematicamente pesquisa em conjunto, mas sim, participam, ano a ano, em um fórum para discutir tanto a pesquisa e a pós-graduação, quanto as implicações que suscitam o desenvolvimento, a divulgação e a aplicabilidade dessas investigações no âmbito da educação básica, da educação superior, no campo educacional.

O “acontecido”, neste instante, significa retornar às origens do GT.

GT Licenciatura: Gênese

O cenário, ponto de partida para a criação do GT8, foi o último quartel da década de 1970 e início dos anos 1980, momento histórico em que os movimentos sociais se constituíram de forma mais vigorosa e conquistaram legitimidade para abrir novos canais de debates e de participação nas decisões do Estado brasileiro autoritário. À medida que o governo militar começava a emitir difusos sinais de esgotamento, os movimentos sociais com intensas lutas contra a repressão conseguiram certa abertura democrática, o que possibilitou investidas, ainda que descontínuas, de novos atores que entravam em cena (SADER, 1986, 1988). Tais atores sociais se organizavam em sindicatos, associações, entidades estudantis, dentre outros. A mobilização atravessava a categoria dos professores, que mantinha afinidade com causas e reivindicações da greve dos trabalhadores do ABC Paulista (1978), engajados em seus sindicatos.

Momentos difíceis para a universidade brasileira, para a educação, para a formação de professores, para a educação básica e superior, pelo fato de que, dentre outros aspectos, a produção de conhecimento era patrulhada e imediatamente censurada caso revelasse indícios de concordância com a tendência sócio-histórica da educação ou com o materialismo histórico como matriz de conhecimento. Ademais, uma crise se enveredava pelas licenciaturas, visto que vigia um modelo de formação, sustentado na teoria tecnicista, atrelado ao currículo mínimo nacional, visível entulho da política educacional traçada pelo governo militar. A luta para modificar esse modelo tomava por base propostas alternativas de formação docente que procuravam corresponder às exigências da sociedade em mudança e às necessidades da educação básica e superior que requeriam profissionais críticos, com qualidade socialmente referenciada.

Neste contexto, os educadores formaram uma frente de resistência ao modelo de formação de professores, à ocasião, orientado pelo Projeto de Reformulação dos Cursos de Preparação de Recursos Humanos para Educação (SeSu/MEC). Organizados durante a I Conferência Brasileira de Educação (São Paulo, PUC/1980) constituíram o Comitê Nacional Pró-Formação do Educador, transformado, em 1983, em Comissão Nacional de Reformulação dos Cursos de Formação do Educador (CONARCFE) e, em 1990, em Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação (ANFOPE).

Segundo depoimento de Míriam Krasilchik , durante o I Encontro Nacional de Reformulação dos Cursos de Preparação de Recursos Humanos para a Educação (Belo Horizonte, nov. 1983) houve um acordo com membros da Diretoria da Anped, também participantes desse encontro, para ser organizado um Grupo de Trabalho que viesse a tratar das questões que afetavam a formação de professores e educadores em geral.

Indagada sobre o motivo da criação do GT, Míriam Krasilchik (2007) assim se pronunciou: “A formação de professores nos inspirou, nos incitou a formar o GT Licenciaturas, na Anped. A formação de professores foi um problema e tem sido um problema durante todos esses anos… É um problema sem solução”. Esclareceu mais precisamente “esse problema sem solução” quando em determinado momento voltou ao assunto com maior ênfase: “O grande problema continua sendo a quantidade de professores necessários para atender a demanda brasileira com formação adequada, sem improvisação, sem falta de preparação, tanto teórica, quanto prática”.

A proposta de criação foi lançada e o GT Licenciaturas foi constituído sob a coordenação da citada professora. Seus membros se reuniram pela primeira vez na Anped, na 7ª RA (Brasília, 1984). Nesta reunião, foram aprofundadas as discussões para elaborar propostas de formação para as licenciaturas e para o curso de Pedagogia com base nos princípios e orientações contidos no documento final do encontro nacional de Belo Horizonte, assumidos pela CONARCFE.

A 8ªRA ocorreu em São Paulo, em 1985. O GT estruturado de forma mais compatível com as recomendações da Anped, organizou uma sessão para análise de pesquisas sobre o assunto. Essas recomendações já expressavam o que, posteriormente, Calazans (1995, p. 54) escreveu: “um Grupo de Trabalho da Anped deveria ser um espaço onde as questões teórico-metodológicas e os resultados de pesquisa fossem discutidos. Não poderia ser um espaço aberto coletivamente, pois isso exigiria uma reunião longa, o que seria impraticável”.

Compartilho as recomendações de Calazans. No meu entendimento, os GTs não podem ser transformados, por pressão da demanda, em lugares de exposição de pesquisa concluídas, como se verifica nos últimos anos na Anped. Creio que, pelo menos o GT Formação de Professores, além de veicular a produção de grupos de pesquisa consolidados e emergentes, o que é muito significativo, deveria tornar-se mais propositivo, dedicando-se a projetos de intervenção no cenário contemporâneo das políticas de formação e de valorização de professores, transformando-se em um referente científico-pedagógico qualificado para as mudanças na qualidade da educação básica e superior. O GT8 e os demais GTs da Anped deveriam ousar mais para serem capazes de “informar e transformar a prática social concreta da educação” (SEVERINO, 1993, p. 19). Assim ocorreu, guardadas as proporções, com os amplos resultados do trabalho que serviu de base para os debates durante a 2ªRA do GT Licenciaturas e que foi apresentado por Menga Lüdke (1985), pesquisadora integrante do grupo de investigação da PUC/RJ: “Os novos rumos da Licenciatura”.

O trabalho de Lüdke suscitava críticas ao modelo de licenciaturas de então e permitiu que os participantes apresentassem propostas de formação de professores mais consentâneas com o que o momento histórico incitava. Fica confirmada a relevante contribuição da pesquisadora sênior para os debates e interlocuções no GT. Exemplar é a sistemática participação de Menga Lüdke no GT8 até os dias atuais, seu compromisso com a pesquisa sobre formação de professores e suas significavas reflexões para a formação e o aperfeiçoamento de pesquisadores seniores e juniores. A pesquisadora reúne à sua rigorosa formação intelectual, a experiência de fazer parte do GT8 no presente, no passado e, sem dúvida, as suas proposições relevantes para o futuro.

  • Correspondência

    Iria Brzezinski

    Rua Dom Orione (antiga T-48/A)
    n. 188,apto. 101.
    Edifício Lagoa dos Mares
    74140 080 Setor Oeste Goiânia
    GO Brasil


  • Tabela 1

    Tabela 1

    Resultados do estado da arte de trabalhos apresentados no GT8 -1992-1998

    Tabela 2

    Tabela 2

    Resultados de análise de trabalhos apresentados no GT8 1999-2003

    Tabela 3

    Tabela 3

    Categorização dos trabalhos, frequência em ordem decrescente – 1999-2008

    Gráfico 1

    Gráfico 1

    Categorias de análise, percentual de ocorrência 1999-2008

    Quadro 1 - Categoria 1

    Quadro 1 - Categoria 1

    Concepções de Docência e de Formação de Professores

    Quadro 1 - Categoria 2

    Quadro 1 - Categoria 2

    Políticas e Propostas de Profissionais da Educação

    Quadro 1 - Categoria 3

    Quadro 1 - Categoria 3

    Formação Inicial

    Quadro 1 - Categoria 4

    Quadro 1 - Categoria 4

    Formação Continuada

    Quadro 1 - Categoria 5

    Quadro 1 - Categoria 5

    Trabalho Docente

    Quadro 1 - Categoria 6

    Quadro 1 - Categoria 6

    Identidade e Profissionalização Docente

    Quadro 1 - Categoria 7

    Quadro 1 - Categoria 7

    Revisão de Literatura

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