Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos
Universidade, escola de educação básica e o problema do estágio na formação de professores
O estágio visto a partir de vários ângulos
Os debates atuais em torno da formação de professores têm apontado a necessidade de uma mudança na concepção curricular dos cursos de licenciatura. As críticas giram principalmente em torno da necessidade de se romper com o modelo de formação, ancorado, de início, em rígida fundamentação teórica de conteúdos específicos de cada área e das disciplinas pedagógicas, que visam a fundamentar os licenciandos na sua futura atividade docente. Ao final do curso são oferecidas as disciplinas de prática de ensino e estágio supervisionado, nas quais o graduando deverá de aplicar o que aprendeu na teoria. Esse modelo, ainda comum em muitas universidades e centros de formação, tem sido visto como um dos principais obstáculos à melhoria da profissionalização dos professores.
A gravidade desse problema deu origem a um número significativo de pesquisas em torno da formação inicial e continuada de professores, especialmente nos últimos 30 anos (CARVALHO, 2001). Baseados na ideia do profissional reflexivo, defendida inicialmente por Schön (1983), os resultados dessas pesquisas convergem para a necessidade de interligar ensino e pesquisa nos cursos de formação de professores, seja inicial ou continuada, atribuindo ao professor o caráter de pesquisador de sua prática em um processo contínuo de reflexão-ação-reflexão. Nas licenciaturas, a ideia do profissional reflexivo tem levado muitos cursos de formação a reestruturarem seus currículos, no sentido de atribuir à disciplina estágio supervisionado um caráter mais prático, no qual os futuros professores refletem sobre o contexto real de sua atuação profissional – a escola – iniciando-se no processo de investigação. Na prática escolar, a tendência é estimular nos professores a reflexão seguida da investigação não só de suas práticas, mas também de suas condições de ensino, contribuindo para a melhoria da formação profissional desses educadores (ZEICHNER, 1998).
Nesse contexto, destacam-se as duas recentes dissertações de mestrado mencionadas, com suas contribuições, para a percepção dos problemas relativos ao estágio nos cursos de licenciatura. Cardozo (2003), tomando a ótica dos estagiários, demonstra que a participação da escola nos estágios ainda é pequena e que eles ainda se constituem, em grande medida, de momentos de observação pelos licenciandos. O principal questionamento revelado em sua pesquisa gravita em torno da distância entre os saberes acadêmicos e o mundo da prática escolar, muito abordado na literatura atual sobre formação de professores. O estudo revela ainda, através de depoimentos dos estagiários, a sua insatisfação pela falta de oportunidades de participação nas atividades em sala de aula durante o estágio. Esse estudo reafirma que os professores das escolas têm muito a contribuir com os cursos de licenciatura, através das reflexões e dos saberes que vão adquirindo durante a prática, confirmando, assim, a tendência recente na formação de professores. Além disso, a autora destaca o desejo dos próprios estagiários de participar de maneira mais efetiva da prática docente escolar.
A pesquisa de Albuquerque (2007) investigou qual o lugar que os professores têm na formação dos estagiários e que importância esses professores, regentes de sala de aula da educação básica, atribuem ao trabalho com os estagiários que frequentam suas aulas. A investigação demonstrou que a maioria dos professores percebe-se como uma peça importante na formação de futuros professores, colaborando na integração entre o que é aprendido na universidade e o que é vivido na realidade da docência, embora alguns deles se surpreendam com a ideia de serem considerados formadores de professores. Esse estudo também destaca que os professores da educação básica são capazes de detectar problemas e lacunas na formação dos futuros professores, mas ainda não encontram espaço formal na universidade para discussões sobre esses problemas.
Assim, como demonstraram as duas pesquisas acima relatadas, embora haja um debate consistente em torno da necessidade de aproximação dos dois loci principais de formação de professores (universidade e escola), ainda persiste um abismo grande entre eles, que dificulta o intercâmbio de saberes nesses espaços. É nesse sentido que projetos de pesquisa que envolvam universidade e escola, no esforço conjunto de parceria entre os professores da universidade e os da escola básica, são importantes, de modo especial para o desenvolvimento dos cursos de licenciatura e para a melhoria da docência, tendo no estágio o elo principal entre esses dois universos.
Nosso estudo preliminar (LÜDKE, 2008) ofereceu a todos os envolvidos a oportunidade de ver, sentir e analisar, em conjunto, uma série de problemas ligados ao estágio, em geral, considerados a partir de um dos ângulos que os cercam. Professores supervisores da prática de ensino de cursos de licenciatura, alunos estagiários desses cursos, professores da escola que recebem esses estagiários e a própria diretora da escola se mostraram empenhados na observação, na análise, na reflexão e na discussão em conjunto desses problemas, sendo que todos elaboraram relatos correspondentes às suas respectivas reflexões. No decorrer do estudo, foram realizados seminários para apresentação e discussão das constatações, tanto no âmbito da escola de educação básica, quanto no da universidade. Ao final, seus resultados foram apresentados em um Simpósio dentro do II Congresso Latino-Americano de Formação de Professores de Línguas no qual os diferentes grupos de participantes puderam debater com outros pesquisadores os problemas do estágio vistos em suas respectivas perspectivas (LÜDKE et al., 2008).
As indagações levantadas por esse estudo nos levaram a propor a nova investigação para aprofundar a análise de alguns dos aspectos do intrincado problema do estágio. Já estamos mergulhados nela, procurando avançar em relação ao que foi levantado pelos nossos estudos anteriores sobre os estagiários, os professores regentes e a própria escola. Introduzimos agora um foco especial sobre os professores supervisores, do lado da Universidade, e, do lado das escolas, sobre possíveis influências decorrentes de diferentes contextos institucionais sofridas pelo estágio.
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Correspondência
Menga Lüdke
Avenida Atlântida, 3514 Apt. 101
22.070-001 Rio de Janeiro
RJ Brasil
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