Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos
Universidade, escola de educação básica e o problema do estágio na formação de professores
Um estudo sobre o estágio supervisionado
Volto-me agora para um estudo realizado no ano de 2008, dentro da linha de investigação sobre a pesquisa do professor, que venho desenvolvendo com o grupo de pesquisa GEProf, na PUC-Rio (LÜDKE, 2001). A partir de um programa de aproximação entre a universidade e a rede pública de educação básica por meio da pesquisa, proposto pela FAPERJ 2, pudemos juntar dois temas que vêm constituindo objetos de interesse de nosso trabalho investigativo há bastante tempo: a formação de professores e o papel da pesquisa nessa formação e no trabalho docente (LÜDKE, 2008). Esse estudo representou uma etapa preliminar que nos estimulou a apresentar a proposta de um novo estudo, para aprofundar aspectos muito interessantes, que não puderam ser devidamente analisados por ele, devido à sua curta duração (12 meses).
Aprofundando as constatações desse estudo, a nova proposta procura investigar o problema do estágio supervisionado, situado na intersecção entre a universidade e as escolas de educação básica, no esforço de formação de seus futuros professores. Ele representa uma oportunidade de articulação entre a dimensão teórica e a dimensão prática, ambas indispensáveis à formação do futuro professor, sendo a primeira, habitualmente, atribuída à responsabilidade da instituição de ensino superior, e a segunda à da instituição escolar. Há numerosa literatura dedicada a esse tema, que constitui, há muito tempo, um dos pontos mais debatidos dentro da comunidade educacional. A pesquisa coordenada por Candau (1988) trouxe constatações, críticas e propostas a este respeito, que continuam válidas em grande parte até o presente, como já foi comentado. Duas pesquisas bem mais recentes, realizadas em função de dissertações de mestrado, também trazem importantes contribuições para nosso estudo, uma delas focalizando os problemas do estágio tal como percebidos, de maneira especial, pelos próprios estudantes estagiários (CARDOZO, 2003), outra focalizando esses problemas pela ótica dos professores que recebem esses estudantes em suas salas de aula (ALBUQUERQUE, 2007).
Em meio à vasta literatura ligada a esses problemas, destacam-se essas contribuições por ajudarem a compor o quadro dentro do qual foi proposto esse novo estudo. Com base nas questões relacionadas ao papel do estágio e discutidas há longo tempo, como mostra o estudo de Candau (1988), as duas dissertações mencionadas cercam o tema a partir de dois ângulos absolutamente essenciais, o dos estudantes estagiários (CARDOZO, 2003) e o dos professores que os recebem (ALBUQUERQUE, 2007). O estudo se propõe avançar para um cenário onde atuam esses dois grupos de atores, os estagiários e os professores, que é o da escola onde se desenrola a cena do estágio. Procura assim desvendar os obstáculos que se interpõem e dificultam o desempenho desses atores e contribuir com sugestões, ou pelo menos reflexões mais próximas de possíveis soluções aos clássicos problemas que cercam o estágio, ponto nevrálgico no processo de formação de nossos futuros professores.
O estudo se situa dentro de uma perspectiva que vem ganhando vigor nos últimos 10 ou 15 anos na comunidade educacional, a da pesquisa do professor. Com grande repercussão nos Estados Unidos, o teacher research movement (COCHRAN-SMITH e LYTLE, 1999; ANDERSON e HERR, 1999) vem fazendo eco a ideias bem anteriores, defendidas por nomes como L. Stenhouse (1975) e John Elliott (1998), na Inglaterra, ou, mais recentemente, na Suíça, por Perrenoud (2002), no Canadá, por Tardif e Lessard (2007) e, em Portugal, por Antonio Nóvoa (2001, 1995). Aqui no Brasil já temos também um considerável número de pesquisadores que trabalham dentro dessa perspectiva, como Corinta Geraldi (1998), Dario Fiorentini (2004), Octávio A. Maldaner (1999), Marli André (2001) e Menga Lüdke (2001, 2009a), entre outros. Em seus trabalhos, de uma forma ou de outra, esses autores reconhecem o professor como construtor, e não apenas como transmissor de conhecimentos produzidos por outros agentes, e valorizam a atividade de pesquisa, não só para os que atuam no ensino de nível superior.
Uma das contribuições decisivas em favor dessa posição veio dos trabalhos de Maurice Tardif que, com colegas canadenses, publicou, em 1991, um artigo introduzindo entre nós a concepção de “saber docente”, (TARDIF et al., 1991). A partir de então, essa noção passou a ser objeto de consideração de inúmeros trabalhos acadêmicos, sendo uma das fontes de inspiração de outra pesquisa que estamos concluindo no momento, com um grupo de pesquisa da PUC-Rio, o GEProf, sobre uma possível aproximação entre a universidade e a escola de educação básica, pela pesquisa que o professor dessa escola procura realizar em seu curso de mestrado. Entrevistamos professores que concluíram seu mestrado nos últimos anos e voltaram para as atividades de suas escolas de educação básica, ou não as interromperam durante o curso. Procuramos descobrir o que representou a experiência de pesquisa concretizada na dissertação desses professores, em relação aos problemas por eles vividos em suas escolas e ao seu próprio desenvolvimento profissional (LÜDKE, 2009b).
Pelo estudo recém-concluído (LÜDKE, 2008), pudemos caminhar mais um pouco na investigação sobre as relações entre o professor e a pesquisa, procurando envolver diretamente professores que atuam na escola de educação básica, em um trabalho de pesquisa proposto por pesquisadores da universidade, para o qual é imprescindível a colaboração daqueles professores e daquela escola. O tema tratado, o problema do estágio, demanda o envolvimento dos dois conjuntos de sujeitos, cujas visões complementares vão propiciar uma nova proposição para um velho objeto de pesquisa, usualmente focalizado apenas por um dos prismas. A junção dessas duas visões, em um trabalho de pesquisa conjunta, permitirá um avanço considerável na própria discussão teórica da questão, beneficiando-se então do que vem sendo denominado como “circularidade dos saberes”, entre as esferas da universidade e da educação básica (MARTINAND, 2004).
Os resultados desse pequeno estudo, assim como os do novo proposto, se reverterão para ambos os conjuntos envolvidos na pesquisa: do lado da universidade serão os responsáveis pelos cursos de licenciatura, sobretudo seus estudantes, os estagiários, que poderão ver seus estágios muito mais próximos da realidade das escolas e, assim, das próprias necessidades de sua formação como futuros professores. Do lado das escolas públicas, o benefício será também considerável, na medida em que a formação de seus futuros professores poderá se dar de forma que atenda mais de perto às exigências de seus alunos, a partir da passagem do futuro professor por um estágio bem mais efetivo e realista. Outro ganho imediato das escolas e de seus professores será representado pelo seu envolvimento em um trabalho de pesquisa, em colaboração com a universidade. Esse é um benefício que irá enriquecer tanto a esfera da escola, quanto a da universidade e mesmo a da própria pesquisa em educação, que ganha, dessa forma, acesso a um tipo de saber em geral restrito ao que se passa em sala de aula. Com participação em uma pesquisa, o professor da educação básica passa a dispor de um recurso em geral afeto mais aos professores da universidade, podendo assim conferir aos conhecimentos que vai construindo a mesma cidadania científica atribuída aos conhecimentos construídos por seus colegas da universidade, correspondendo à bela imagem de um continuum, no qual se desenvolve o processo científico, como sugere J. Beillerot (1991, 2001).
Em artigo de 1993, “Combinando pesquisa e prática no trabalho e na formação de professores” (LÜDKE, 1993), já havia discutido, a partir das ideias de John Elliott (1989), Michael Young (1990) e Pedro Demo (1991), a possibilidade de se conceber a atividade de pesquisa em novas bases, de maneira a permitir a convergência de vários parceiros, valorizando a contribuição da experiência acumulada pelos profissionais engajados na prática, com sua sabedoria da ação (como quer Schön e de certo modo também Elliott), sem desvalorizar a contribuição específica da teoria produzida pela academia, em cada um dos seus domínios específicos, só que numa efetiva parceria com os que dominam a prática (como quer Young) e oferecendo ao futuro, assim como ao atual profissional da educação, os benefícios da prática da pesquisa, como princípio científico e educativo (como quer Demo).
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Correspondência
Menga Lüdke
Avenida Atlântida, 3514 Apt. 101
22.070-001 Rio de Janeiro
RJ Brasil
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