Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos
Universidade, escola de educação básica e o problema do estágio na formação de professores
Numa visão de conjunto das três experiências, foi possível perceber logo uma série de questões desafiadoras, que dificultavam e ainda dificultam o caminho de novas propostas para a formação de professores:
Modelo de universidade e formação de professores
Dentro do modelo que inspira a universidade brasileira, a formação de professores ocupa um lugar bastante secundário. Nele, as prioridades são concentradas nas funções de pesquisa e elaboração do conhecimento científico, em geral consideradas como exclusividade dos programas de pós-graduação. Tudo o que não se enquadra dentro dessas atividades passa, em geral, para um quadro inferior, como são as atividades de ensino e de formação de professores.
Formar professores: remar contra a maré?
Dentro do quadro introduzido pela primeira questão desafiadora, a formação de professores é percebida, pelos entrevistados na pesquisa, como uma atividade exercida contra as forças dominantes na instituição, ou contra a maré, em sua própria expressão. Não é uma atividade valorizada, não recebe incentivos nem estímulos e, até, pode acarretar para os que a ela se dedicam, certa reputação um pouco inconveniente, à medida que os afasta, no julgamento de boa parte dos colegas, das atividades nobres ligadas usualmente à pesquisa.
A relação saber/poder na universidade: hierarquia acadêmica
Os fatores apresentados nas questões anteriores fornecem uma base sobre a qual se acha solidamente instalada a ordem hierárquica na academia universitária: no primeiro escalão, se situam os professores cujas atividades predominantes são de cunho científico e de pesquisa; no segundo, estão os que desempenham tanto atividades de pesquisa, como atividades de ensino; no terceiro, finalmente, estão confinados aqueles professores cujas atividades se concentram no ensino e na formação de professores. Os dados colhidos pela pesquisa permitem constatar não apenas uma separação entre escalões, mas realmente uma superposição hierárquica, de forma que o poder vai claramente decrescendo à medida que se troca a atividade de pesquisa pela de ensino, ou de qualquer coisa relacionada com a educação.
Universidade e sistema de ensino de primeiro e segundo graus: uma difícil aproximação
Se dentro da universidade se verificam separações estanques entre os que se voltam para questões de pesquisa e os que se voltam para questões de educação, não é de se estranhar a grande separação entre ela (universidade) e os sistemas de ensino da educação básica, para os quais ela se encarrega de formar professores. Como haveria ela de se desincumbir a contento dessa missão, se não existe uma ponte ligando essas duas realidades, na qual o tráfego deveria ser, aliás, intenso? O que se percebeu, mais uma vez, por meio da pesquisa, foi que se trata de dois universos, inteiramente distintos entre si. Os professores, formadores de futuros educadores para a educação básica, não têm uma visão sequer razoável da realidade desses sistemas de ensino e não têm, em sua maioria, nenhuma vivência nele, como professores.
Integração/interdisciplinaridade: diferentes dimensões de uma questão complexa
Uma última questão perpassa as três experiências estudadas: a licenciatura foi percebida como problema cuja solução depende de uma perspectiva interdisciplinar e integradora. A própria natureza da licenciatura revela logo sua composição necessariamente pluralista, para onde devem convergir as visões específicas de cada área de ensino e a perspectiva educacional, dentro de uma ótica interdisciplinar por excelência.
A partir da análise dessas questões desafiadoras, a equipe de pesquisa apresentou também algumas propostas desafiantes:
Uma tentação a superar: a ênfase na reforma do currículo
As várias tentativas de superação dos problemas que vêm envolvendo a licenciatura, através de mudanças no seu currículo, não têm ultrapassado muito os limites puramente formais. Enquanto perdurarem essas soluções formalistas, o resultado continuará a ser uma simples justaposição entre a formação pedagógica e a formação de conteúdo. É preciso superar, portanto, essa tendência, já habitual, de uma reforma apenas formal, buscando-se o produto de uma nova práxis, por meio de um novo processo, de uma nova dinâmica da vida universitária. Isso provocaria, possivelmente, mais um desafio.
Uma mudança de eixo: o primado do conteúdo específico
Esta é a proposta mais ousada e, provavelmente, a mais polêmica da pesquisa. As pesquisadoras estavam convencidas de que já era tempo de se alterar a direção do eixo que vinha norteando a licenciatura, fazendo-o centrar-se claramente junto às áreas específicas. A pesquisa realizada, assim como o conhecimento acumulado pela literatura e a vivência da problemática da área, permitia afirmar esse primado. A competência básica de todo e qualquer professor é o domínio do conteúdo específico. Enquanto as unidades específicas não assumirem, como responsabilidade própria, a formação de professores, muito pouco poderão fazer as unidades de educação. Isso não implica, entretanto, que não haja uma importante contribuição da área pedagógica, cuja continuidade deve ser assegurada, mas numa articulação epistemológica diferente com as outras áreas, não numa simples relação temporal de sucessão. Ficou claro, pela pesquisa, que se deveria partir do conteúdo específico, para se trabalhar a dimensão pedagógica em íntima relação com ele.
Uma perspectiva: a multidimensionalidade do processo de formação do professor
A pesquisa também registra a importância de não se considerar apenas, ou mesmo, prioritariamente, a dimensão cognitiva num programa de formação de professores. As dimensões científica, política e emocional devem-se encontrar aí intimamente articuladas entre si e com a pedagógica, numa visão unitária e multidimensional.
Uma busca: a construção do espaço interdisciplinar
Avançando um pouco, a equipe da pesquisa sobre a licenciatura concorda em relação à importância da interdisciplinaridade, mas antevê algumas das dificuldades específicas de sua implantação no âmbito da universidade. Talvez, a constituição de núcleos (ou temas) específicos, já tentada por algumas universidades para dar apoio a grupos de caráter interdisciplinar, pudesse vir a ser uma das boas sugestões para enfrentar o problema. Concluem as pesquisadoras que cada universidade deveria buscar diferentes mediações de acordo com a sua especificidade, com vistas ao indispensável fortalecimento do espaço interdisciplinar.
Uma necessidade: promover a pesquisa em ensino
Esta é uma proposta bastante criativa, pois a equipe partia, acertadamente, do pressuposto da valorização da atividade de pesquisa frente às demais atividades da universidade. Nada mais acertado, então, se queremos valorizar a formação de professores e os que por ela se interessam, do que converter esse interesse em esforço de pesquisa. Assim, envolvidos em pesquisa, eles receberão apoio e incentivos, seus participantes usufruirão do status de pesquisadores e, o que é mais importante, estará sendo construído conhecimento científico, tão necessário e urgente, sobre uma área ainda tão desguarnecida de resultados de pesquisa.
Uma prioridade: reforçar/apoiar práticas coletivas
Outra iniciativa que merece todo apoio e estímulo, segundo as pesquisadoras, são as práticas coletivas, como algumas das que foram analisadas pela pesquisa. Com coragem e determinação, seus participantes se empenham e se expõem, em propostas, na maioria das vezes, pouco compreendidas ou, até mesmo, pouco conhecidas pelos seus pares, garantindo assim o único meio indispensável para a avaliação de uma proposta: a sua realização.
Uma consciência: a importância dos determinantes estruturais e psicossociais
Todos os fatores e condições discutidos até aqui não têm sentido a não ser quando considerados dentro do contexto mais amplo em que se situam a licenciatura e a própria universidade, dentro do quadro geral da nossa sociedade. É particularmente importante lembrar, dentro desse quadro, a desvalorização do magistério como profissão e da própria educação em geral.
Como podemos ver, as constatações e sugestões dessa pesquisa continuam merecendo a atenção dos pesquisadores interessados na formação de professores. Sua divulgação continua, portanto, muito oportuna, já que seu relatório final nunca foi publicado.
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Correspondência
Menga Lüdke
Avenida Atlântida, 3514 Apt. 101
22.070-001 Rio de Janeiro
RJ Brasil
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