Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos
Universidade, escola de educação básica e o problema do estágio na formação de professores
Menga Lüdke
Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e da Universidade Católica de Petrópolis (UCP)
Resumo
O texto reúne contribuições de pesquisas recentes e mais antigas, de vários autores e também minhas, sobre a formação de professores. Uma ampla resenha recente, de colegas canadenses (BISSONNETTE et al., 2005) e uma pesquisa “clássica” nacional (CANDAU, coord. 1988) ressaltam com clareza a importância do papel do professor e de sua formação, para o sucesso de estudantes da educação básica. Inspirada em suas constatações e prosseguindo em uma linha de pesquisa sobre o desenvolvimento profissional de professores, apresento uma investigação já em desenvolvimento, focalizando um dos mais frágeis elos do processo de formação de professores: o estágio supervisionado. Nela procuro aprofundar aspectos analisados por estudos anteriores, sobre a participação dos principais envolvidos no estágio: os próprios estagiários e os professores regentes que os recebem em suas salas de aula. A nova pesquisa amplia o foco para toda a instituição escolar, onde se desenrola o estágio, incluindo todos os seus participantes e estendendo o foco também sobre a outra instituição parceira, a universidade, representada pelos professores supervisores do estágio.
Palavras-chave
estágio supervisionado // formação de professores // pesquisa em cooperação // profissão docente
Neste texto pretendo reunir considerações a partir de trabalhos meus e de outros autores, alguns de datas bastante recentes, outros de vários anos já, o que indica que o problema focalizado vem sendo estudado e denunciado há bastante tempo, sem que soluções satisfatórias tenham sido desenvolvidas, ainda que algumas sejam objeto de tentativas consideráveis.
Começarei pela análise efetuada por pesquisadores canadenses, relativa a pesquisas sobre intervenções pedagógicas realizadas em período bastante longo, remontando à década de 1960. Em seguida, trarei a contribuição de uma importante pesquisa nacional, realizada no final da década de 1980, cujas constatações continuam válidas praticamente por inteiro. Finalmente, apresentarei um estudo desenvolvido recentemente, com um grupo de colegas e estudantes de pós-graduação da PUC-Rio, em parceria com professores de uma escola da rede municipal do Rio de Janeiro (LÜDKE, 2008). Esse estudo inspirou nova proposta para seu aprofundamento, já em desenvolvimento, com apoio do CNPq 1.
Inicio com a análise feita pelos pesquisadores canadenses (BISSONNETTE, RICHARD e GAUTHIER, 2005), um deles, Gauthier, bastante conhecido entre nós, por obra muito divulgada (GAUTHIER et al, 1998) e também por já ter estado várias vezes em nosso país. Trata-se de uma resenha muito bem elaborada, que cobre uma grande quantidade de pesquisas, ao longo de várias décadas, focalizando o trabalho de professores com alunos da educação básica, provenientes de meios desfavorecidos. Supostamente, esses alunos são portadores de dificuldades específicas, decorrentes de suas condições de vida, que se refletem em seu desempenho escolar. O interesse principal da resenha em pauta é detectar, entre as muitas pesquisas analisadas, quais fatores se apresentam mais frequentemente próximos do melhoramento dos resultados obtidos pelos alunos nas provas escolares. Evidentemente, há uma série de questões bastante complexas envolvidas num estudo desse tipo, de cunho psicológico, sociológico e, sobretudo, dentro do delicado domínio da avaliação. Não será possível trazer todas essas questões para nossa discussão neste texto, mas recomendo a leitura da resenha e asseguro a qualidade do texto e das análises apresentadas, que têm, aliás, como garantia, a exigência de uma das mais prestigiosas revistas da área de educação na França, a Revue Française de Pédagogie. O que acho importante assinalar, e por isso trouxe à baila a referida resenha, é sua constatação principal, ao final do longo texto de mais de 50 páginas: o fator principal associado à melhoria do desempenho dos alunos provenientes de camadas desvaforecidas é a influência da escola e, dentro dela, de modo especial, o trabalho do professor. Os autores desenvolvem uma longa discussão sobre o que chamam de paradigma centrado no aluno, com forte acento sobre o que ficou conhecido como construtivismo, e o paradigma mais ligado ao ensino, que denominam de “ensino direto, ou explícito”.
A meu ver, há uma interessante discussão a partir do confronto entre as duas posições indicadas muito sumariamente aqui, que comportam talvez muito mais aproximações entre si do que parecem supor os analistas da resenha. Entretanto, não é o caso de tratar dessa polêmica agora, mas sim de ressaltar a importância do papel do professor, reconhecida claramente nesse trabalho de análise crítica cuidadosa, que focaliza esse papel ao lado de vários outros fatores, como a própria difusão dos recursos tecnológicos, tão valorizados em nossos tempos. Pois o professor, como deixa claro a resenha, continua como figura central no processo educativo, e agente chave na articulação entre teoria e prática nesse processo. Sua formação merece, portanto, toda a atenção de que tem sido objeto por parte de pesquisas em educação, como é o caso de um estudo muito difundido, realizado no final da década de 1980, do qual tive a oportunidade de participar, e passarei a relatar (CANDAU, 1987 e 1988).
Uma pesquisa sobre licenciaturas
Em 1988, uma equipe de professores e estudantes do Departamento de Educação da PUC-Rio concluiu uma extensa pesquisa sobre a situação dos cursos de licenciatura. Ela se desenvolveu dentro de uma linha de estudos sobre a formação de professores, e procurava explicitar alguns problemas levantados por uma pesquisa anterior, também bastante extensa, realizada igualmente por uma equipe do mesmo departamento, “Análise das práticas de formação do educador: especialistas e professores” (FÁVERO, 1984). Enquanto esta pesquisa se preocupou com a análise das questões da formação dos educadores em geral, enfatizando a ótica das unidades de educação, priorizando, com relação às licenciaturas, a questão da formação pedagógica e o papel dessas unidades, a nova pesquisa, “Novos rumos da licenciatura”, sob a coordenação de Vera Candau (1988), procurou ser especialmente sensível à expectativa dos profissionais mais envolvidos com as áreas específicas de conhecimento, não pertencentes às unidades de educação, em relação à problemática das licenciaturas.
A primeira etapa dessa pesquisa consistiu em um levantamento básico da literatura específica mais recente, especialmente veiculada pelos periódicos mais importantes da área de educação, o que permitiu compor uma visão retrospectiva, até então, dos problemas da licenciatura. Uma publicação relativa ao relatório parcial foi feita naquela época sob o mesmo título da pesquisa (CANDAU, 1987). Com base nessa visão retrospectiva, o estudo constatou que grande parte dos problemas vividos pela licenciatura remontavam às suas origens e persistiam não resolvidos.
A literatura então analisada permitiu perceber uma clara mudança na posição dos autores frente à educação e seu papel social, quando comparados aos da década anterior, os anos 70. Esses temas passam a ser analisados dentro de um contexto histórico, político e social mais amplo, e o próprio significado do saber escolar começa a ser enfatizado. Também o papel do professor passa por mudanças, aos olhos dos autores, acompanhando a redefinição do papel da escola e refletindo o desconforto pela perda do status da ocupação. Raros artigos, entretanto, chegam a tratar do magistério como profissão, indicando, talvez, como ocorreu na pesquisa anterior (FÁVERO, 1984), uma larga distância ainda separando esses dois termos.
Participei ativamente da pesquisa Novos rumos da licenciatura, assim como também havia participado da pesquisa anterior. Considero que as constatações feitas por ela, tanto a partir da análise da literatura, como das experiências estudadas pela pesquisa de campo, foram muito reveladoras e instigantes e, certamente, continuam em grande parte válidas em relação à atual situação em que se encontram os cursos de licenciatura. Em vista disso, acho oportuno trazer para este texto uma síntese daquelas constatações.
A ideia inicial da pesquisa foi a de romper com a linha de estudos tradicionais que apontavam os inúmeros problemas dos cursos de licenciatura que funcionavam regularmente em todo o país, e tentar descobrir cursos inovadores, que procurassem novos rumos para escapar desses problemas. Foram localizadas e estudadas três experiências ligadas a cursos desse tipo, uma delas focalizando um novo curso de licenciatura em física, outra centrada em uma proposta interdisciplinar para o curso de história e geografia e a terceira partindo de uma concepção inovadora da disciplina prática de ensino, em um curso de letras.
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Correspondência
Menga Lüdke
Avenida Atlântida, 3514 Apt. 101
22.070-001 Rio de Janeiro
RJ Brasil
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