Volume 01 / n. 01 ago.-dez. 2009: Artigos

A identidade docente: constantes e desafios

Constantes na identidade profissional docente

Neste artigo, pretendo aprofundar-me no estudo sobre a identidade profissional docente. Considero importante essa reflexão porque é através de nossa identidade que nos percebemos, nos vemos e queremos que nos vejam. Do ponto de vista de Lasky, a identidade profissional é a forma como os professores definem a si mesmos e aos outros. É uma construção do “si mesmo” profissional que evolui ao longo da carreira docente e que pode achar-se influenciado pela escola, pelas reformas e pelos contextos políticos, que “inclui o compromisso pessoal, a disposição para aprender a ensinar, as crenças, os valores, o conhecimento sobre a matéria que ensinam, assim como sobre o ensino, as experiências passadas, assim como a vulnerabilidade profissional” (Lasky, 2005). As identidades profissionais formam uma “complexa rede de histórias, conhecimentos, processos e rituais” (Sloan, 2006).

É preciso entender o conceito de identidade docente como uma realidade que evolui e se desenvolve, tanto pessoal como coletivamente. A identidade não é algo que se possua, mas sim algo que se desenvolve durante a vida. A identidade não é um atributo fixo para uma pessoa, e sim um fenômeno relacional. O desenvolvimento da identidade acontece no terreno do intersubjetivo e se caracteriza como um processo evolutivo, um processo de interpretação de si mesmo como pessoa dentro de um determinado contexto. Sendo assim, a identidade pode ser entendida como uma resposta à pergunta “quem sou eu neste momento?” A identidade profissional não é uma identidade estável, inerente, ou fixa. É resultado de um complexo e dinâmico equilíbrio onde a própria imagem como profissional tem que se harmonizar com uma variedade de papéis que os professores sentem que devem desempenhar. (Beijaard, Meijer, & Verloop, 2004).

Esses autores revisaram as recentes pesquisas sobre identidade profissional docente, encontrando as seguintes características:

  1. A identidade profissional é um processo evolutivo de interpretação e reinterpretação de experiências, uma noção que coincide com a ideia de que o desenvolvimento dos professores nunca para e é visto como uma aprendizagem ao longo da vida. Desse ponto de vista, a formação da identidade profissional não é a resposta à pergunta “quem sou eu neste momento?”, mas sim a resposta à pergunta “o que quero vir a ser?”
  2. A identidade profissional envolve tanto a pessoa, como o contexto. A identidade profissional não é única. Espera-se que os docentes se comportem de maneira profissional, mas não porque adotem características profissionais (conhecimentos e atitudes) prescritas. Os professores se diferenciam entre si em função da importância que dão a essas características, desenvolvendo sua própria resposta ao contexto.
  3. A identidade profissional docente é composta por subidentidades mais ou menos relacionadas entre si. Essas subidentidades têm relação com os diferentes contextos nos quais os professores se movimentam. É importante que essas subidentidades não entrem em conflito. Este aparece, por exemplo, em situações de mudanças educacionais ou mudanças nas condições de trabalho. Quanto mais importante é uma subidentidade, mais difícil é mudá-la.
  4. A identidade profissional contribui para a percepção de autoeficácia, motivação, compromisso e satisfação no trabalho dos docentes, e é um fator importante para que se tornem bons professores. A identidade é influenciada por aspectos pessoais, sociais e cognitivos.

A identidade profissional docente está, atualmente, sob exame. Em seu recente livro, Antonio Bolivar reflete e analisa a crise de identidade profissional dos docentes, especialmente no nível de ensino secundário (Bolivar, 2006). Do ponto de vista de Bolivar, “as mudanças das últimas décadas geram ambiguidades e contradições na situação profissional dos professores. A crise de identidade profissional docente deve ser compreendida no cenário de uma certa decadência dos princípios ilustrados modernos que davam sentido ao sistema escolar” (p. 13).

Essas mudanças não só estão relacionadas com a própria profissão docente como com “um quadro mais geral de transformações sociais, que fragmentou os espaços tradicionais de identificação sexual, religiosa, familiar ou ocupacional” (Bolivar, 2006, p.25); transformações essas nas quais o local e o global, a estabilidade e a mudança, estão desempenhando um papel desestabilizador no que diz respeito às certezas que em outras décadas caracterizaram nossas sociedades.

Embora agora seja muito mais evidente, durante sua história a profissão docente foi rebocando um deficit de consideração social, baseado, segundo alguns, nas características específicas das condições de trabalho que fazem com que ela se assemelhe mais a ocupações do que a “verdadeiras” profissões, como a Medicina e o Direito. Pretendeu-se comparar sistematicamente a docência com essas outras profissões para ver se ela satisfaz às condições de “um conjunto de indivíduos que aplicam um conhecimento científico avançado para proporcionar um serviço aos clientes, e se agrupam mediante a pertinência a um corpo profissional que assume a responsabilidade de controlar os recursos profissionais, e que lhes confere benefícios e pode impor sansões aos membros” (Tomlinson, 1997). E, evidentemente, como Hoyle e John (1995) mostravam, a profissão docente, por suas características especiais, não satisfaz esses critérios estritos e classistas.

Com o passar do tempo e a implantação das reformas educacionais, a profissão docente foi mudando. Para alguns, criava uma desprofissionalização, devido à perda progressiva de autonomia e controle interno. Para outros, criava uma reprofissionalização, justificada pela necessidade de ampliar as tarefas habitualmente atribuídas aos docentes (Marcelo, 1999). Em concordância com a primeira das interpretações, manifestava-se David Hargreaves (1997), para quem as reclamações e lutas atuais no sentido de uma maior profissionalização (maior autonomia e autocontrole interno da profissão) dos docentes chega historicamente tarde. O avanço incontrolável da sociedade da informação, proporcionado pelo uso das Novas Tecnologias, vai configurar – segundo esse autor – um cenário caracterizado por uma “progressiva desprofissionalização: uma sociedade de aprendizagem onde todo mundo ensina e aprende e ninguém é um especialista” (D. Hargreaves, 1997, p.19).

Junto ao conceito de profissionalização, falamos do profissionalismo entendido, nesse caso, como a capacidade, dos indivíduos e das instituições em que trabalham, de desenvolver uma atividade de qualidade, comprometida com os clientes, e em um ambiente de colaboração. Os estudos sobre profissionalismo levaram em consideração a necessidade de reprofissionalizar a função docente, e perceberam que a ampliação de funções é positiva e evidencia um claro indício de que os docentes são capazes de realizar funções que vão além das tarefas tradicionais centradas nos alunos e restritas ao espaço físico da aula. Esse novo profissionalismo, ou profissionalismo estendido, segundo a opinião de Hargreaves e Goodson (1996), se concretiza principalmente nas atuais demandas aos professores para que trabalhem em equipe, colaborem, planejem em conjunto, mas também inclui a realização de funções de orientação ou relacionadas com a formação inicial dos professores, assim como aspectos mais centrados na formação, como a formação baseada na escola.

Alguns autores estão chamando atenção sobre a ironia de que enquanto se está “vendendo” aos professores e às escolas a ideia de que deveriam ser mais autônomos e responsáveis pelas próprias necessidades, ao mesmo tempo se está transmitindo a eles como devem ser seus resultados e como devem abordar as prioridades nacionais para melhorar a competência internacional. Supõe-se que os professores estão tendo mais autonomia escolar precisamente no mesmo momento em que os parâmetros com que se espera que trabalhem, e mediante os quais serão avaliados, estão sendo cada vez mais severos e limitados (Day, 2001; Little & McLaughlin, 1993; Smyth, 1995).

Como vemos a profissão docente e seus sinais de identidade no momento atual? Que elementos caracterizam a identidade docente? Podemos identificar dimensões que permitam, de forma constante, identificar o docente e distinguir sua cultura e identidade de outros profissionais? É algo que vamos pretender realizar a partir de agora, estabelecendo o que acreditamos possam ser esses sinais de identidade que vieram nos caracterizando.

  • Correspondência

    Carlos Marcelo

    Depto. Didáctica y Organización Educativa
    Facultad Ciencias de la Educación
    Avda. Camilo José Cela s/n
    41018 Sevilla, España


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